{"id":1,"date":"2005-05-13T04:23:58","date_gmt":"2005-05-13T04:23:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1"},"modified":"2009-08-17T13:41:43","modified_gmt":"2009-08-17T13:41:43","slug":"neruda-o-animal-ferido-da-palavra","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/neruda-o-animal-ferido-da-palavra","title":{"rendered":"NERUDA &#8211; O ANIMAL FERIDO DA PALAVRA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>A poesia \u00e9 a palavra diante da morte, a dist\u00e2ncia de um bra\u00e7o entre o poeta e seu destino. A tens\u00e3o permanente do poema \u00e9 a vis\u00e3o desse desenlace e \u00e9 disso que se alimenta a sua eternidade. \u00c9 por isso que o poeta sobrevive, n\u00e3o porque lute para ficar vivo, mas porque escreve sabendo que vai morrer. Quando, enfim, a \u00faltima batalha desce sobre seu corpo em brasa, a obra grita, como condenada.<\/p>\n<p>Pablo Neruda, morto h\u00e1 vinte anos, encarna esse animal que cruza todas as fronteiras e regressa \u00e0 p\u00e1tria para ser assassinado. Est\u00e1 na moda hoje destruir o mito para celebrar a exposi\u00e7\u00e3o das v\u00edsceras, compensa\u00e7\u00e3o de um tempo onde triunfa a indiferen\u00e7a. Assim, o vazio \u00e9 confundido com virtude para privilegiar os &#8220;erros&#8221; de Neruda, como um poema para St\u00e1lin, por exemplo. Mas o que \u00e9 datado, no poeta, morre com ele. O que permanece \u00e9 o crep\u00fasculo enrolado aos seus p\u00e9s e a solid\u00e3o, como um t\u00fanel.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 apenas a sua l\u00edrica que cresce quanto mais nos distanciamos do r\u00e9quiem de 21 de setembro de 1973. Assoma a p\u00e1tria, sua met\u00e1fora extrema: na hora em que morria , era o Chile que estava sendo devorado. Pois n\u00e3o bastava matar o presidente, era preciso tamb\u00e9m eliminar a esperan\u00e7a. Neruda entendeu que tinha chegado a sua hora. E acabou-se, puxando a toalha no momento em que os tiranos comemoravam a vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Do seu engajamento fica essa encarna\u00e7\u00e3o do povo e terra, o lirismo \u00e9pico de sua caminhada, a manuten\u00e7\u00e3o do mito, n\u00e3o restrito ao seu pa\u00eds. Ele pertencia a uma ra\u00e7a quase extinta, aquela que sumiu do mapa porque o mundo mudou de estilo. J\u00e1 foi longe a \u00e9poca em que as na\u00e7\u00f5es cultivavam seu poeta, que recitava versos na pra\u00e7a e tra\u00e7ava biografias andarilhas.<\/p>\n<p>Ele alimentava assim a multid\u00e3o faminta de Hist\u00f3ria, ainda presa a palavras hoje mortas, como at\u00e1vico, m\u00e1rtir, tel\u00farico. Era um artista popular da palavra, mas a mensagem que ele inventou para a r\u00e1pida passagem do tempo atraiu a aten\u00e7\u00e3o dos lobos. Minaram ent\u00e3o sua sorte trazida do ber\u00e7o, desmoralizaram seu andar partido, imitaram seu timbre, roubaram-lhe a voz. Pablo Neruda \u00e9 a express\u00e3o maior desse romantismo tardio, desse \u00faltimo suspiro da imagina\u00e7\u00e3o emocionada, que morre nos bra\u00e7os do povo ao som da metralha.<\/p>\n<p>Hoje, quando o Chile ressurge como tigre, lembramos o comportamento dos chacais. As manifesta\u00e7\u00f5es do 20\u00ba anivers\u00e1rio do golpe de 1973 ainda n\u00e3o cobraram a conta. Falta visitar o t\u00famulo do poeta, gritar seu verbo em pra\u00e7a p\u00fablica. Para o Brasil, retalhado numa guerra intermin\u00e1vel &#8211; exatamente porque adiamos todos os desenlaces &#8211; ele inspira o tom de eternidade, que nos escapa. Estamos presos demais \u00e0 pressa, \u00e0 ilus\u00e3o eterna do presente.<\/p>\n<p>Muitos poetas apostam no sup\u00e9rfluo, no fugaz, no palavr\u00e3o &#8211; ainda iludidos de que \u00e9 poss\u00edvel &#8220;chocar&#8221; algu\u00e9m com gestos ou palavras, n\u00e3o f\u00f4ssemos n\u00f3s observadores permanentes das chacinas. A poesia brasileira costuma ficar dividida entre o mimetismo nerudiano e o esp\u00f3lio da demoli\u00e7\u00e3o concretista, entre a pomposidade in\u00fatil e o falso vanguardismo. Estamos mergulhados demais no horror para enxergar a poesia.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse t\u00fanel que deve se desenhar o poema ainda em sil\u00eancio, como um animal ferido. A longa cicatriza\u00e7\u00e3o imobiliza o gesto, enquanto a palavra estilha\u00e7a nos vidros de uma na\u00e7\u00e3o que derrapou. Nesse ex\u00edlio obrigat\u00f3rio, a morte de Neruda abre uma trilha. Ele identificou-se com a grandeza e a trag\u00e9dia chilena e tornou-se o mais caro patrim\u00f4nio do pa\u00eds. Precisamos deixar que ele nos toque com os dedos longos da palavra.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos entretanto, mergulhar no equ\u00edvoco de endeus\u00e1-lo, nem nos deixar enganar pela maior parte da sua obra p\u00f3stuma. O que ele mesmo publicou j\u00e1 basta: Vinte Poemas de Amor e uma Can\u00e7\u00e3o Desesperada, Confesso que Vivi, As m\u00e3os do Dia, Canto Geral, entre outros livros iluminados.<\/p>\n<p><strong>PABLO<\/strong><\/p>\n<p>Poema de Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Da cordilheira desce a lava que fecundou as ilhas<br \/>\no s\u00eamen das \u00e1guas profundas<br \/>\na m\u00e3o que alimentou o arco-\u00edris<\/p>\n<p>Da cordilheira desce Neruda, o passageiro noturno<br \/>\npai que nos jogou no meio do mar<br \/>\nbra\u00e7o possante colhendo a m\u00ednima flor<\/p>\n<p>Do Chile desce o diamante que for\u00e7a o t\u00fanel<br \/>\nmagia da clara mina onde o sol resiste<br \/>\nduro perfil de p\u00e1ssaro ferido<\/p>\n<p>Das cidades sagradas da Am\u00e9rica desce Neruda<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o a servi\u00e7o di\u00e1rio do futuro<br \/>\nninho de um povo que ainda ser\u00e1 livre.<\/p>\n<p>notas: <em>publicado em 18 de setembro de 1993, na &#8220;ZERO HORA&#8221; <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A poesia \u00e9 a palavra diante da morte, a dist\u00e2ncia de um bra\u00e7o entre o poeta e seu destino. 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