{"id":1004,"date":"2009-12-14T19:41:52","date_gmt":"2009-12-14T21:41:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1004"},"modified":"2009-12-21T21:24:28","modified_gmt":"2009-12-21T23:24:28","slug":"danacao-no-chile-austral","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/danacao-no-chile-austral","title":{"rendered":"DANA\u00c7\u00c3O NO CHILE AUSTRAL"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Francisco Coloane, festejado e importante escritor chileno, que s\u00f3 agora chega traduzido pela primeira vez no Brasil gra\u00e7as \u00e0 editora Francis, nos revela a paisagem, in\u00e9dita na literatura, do Chile Austral, ambiente para a dana\u00e7\u00e3o dos homens com suas ambi\u00e7\u00f5es, fraquezas e terrores. Seu livro de onze contos, Terra do Fogo, nos leva de rold\u00e3o por praias assustadoras, penhascos gigantescos, neves eternas, bichos estranhos, guerras de exterm\u00ednio. E principalmente para o cora\u00e7\u00e3o das trevas dos aventureiros e v\u00edtimas que por l\u00e1 habitaram no s\u00e9culo 19, quando o territ\u00f3rio foi disputado da maneira tradicional, por meio da cobi\u00e7a e da viol\u00eancia. O livro foi adaptado para o cinema em 2000 por Miguel Littin, num filme que, dizem, \u00e9 um assombro.<\/p>\n<p>Coloane \u00e9 fiel \u00e0 \u00e9poca que eterniza com seu texto impressionante. Ele, como seus personagens, acredita na evolu\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica das criaturas que se transformam para responder \u00e0s suas necessidades e \u00e0s press\u00f5es do ambiente. Acha, como os primeiros estudiosos das culturas ind\u00edgenas, que as lendas ancestrais de povos isolados t\u00eam liga\u00e7\u00e3o com as cren\u00e7as ocidentais, onde deuses, dil\u00favios, pecados originais, comp\u00f5em a saga de uma cria\u00e7\u00e3o completa, da separa\u00e7\u00e3o entre terra e c\u00e9u, nascimento e morte das estrelas, do sol e da lua. Todo esse painel de maravilhas cai no ch\u00e3o duro da maldade humana, onde o que conta \u00e9 o assassinato do pr\u00f3ximo que traz algum ouro na bolsa, ou cometeu algum ato que provoca extrema indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 lugar para o sarcasmo, a brutalidade contra os indefesos, a solid\u00e3o irrevers\u00edvel, a mudez de bocas e cen\u00e1rios. O vento oeste sopra sem parar na vegeta\u00e7\u00e3o e nas pedras, enlouquecendo os homens e chegando na percep\u00e7\u00e3o do leitor como um n\u00e1ufrago depositado morto na praia. N\u00e3o h\u00e1 o que fazer nesse mundo completo, onde tudo est\u00e1 disposto em seus arames farpados. N\u00e3o podemos ter esperan\u00e7a no velho que se vinga porque lhe roubaram um mascote, no iugoslavo que domina os pistoleiros com armas e suas artimanhas para garimpar riquezas, no viajante que tenta matar o companheiro de jornada, no sobrevivente mal agradecido que esconde seu tesouro de quem lhe salvou a vida. O Mal \u00e9 o reflexo da paisagem in\u00f3spita. Dali ningu\u00e9m sai. Nenhum navio vai para para o horizonte. Todos encalham nas armadilhas de \u00e1guas torrenciais e montanhas geladas.<\/p>\n<p>O que conta \u00e9 a narrativa e n\u00e3o os sucessivos desfechos. N\u00e3o importa chegar ao fim, pouco existe na \u00faltima p\u00e1gina de cada hist\u00f3ria. O que vale \u00e9 esse caminhar no emaranhado de situa\u00e7\u00f5es que oprimem os personagens. Essa estrutura circular, em que o leitor acaba se entregando ao destino dos personagens, \u00e9 a met\u00e1fora das situa\u00e7\u00f5es que Coloane retrata, com a paci\u00eancia de um Joseph Conrad e uma andan\u00e7a que lembra Jack London, autores sempre lembrados quando se fala em Coloane. Mas este se difere de seus pares, pois, segundo seu depoimento (ele morreu em 2002, aos 92 anos) viveu realmente nos lugares que descreve, ao contr\u00e1rio de London, que teria inventado a partir de relatos alheios. E n\u00e3o chega \u00e0 altura de Conrad, mas \u00e9 covardia comparar qualquer autor ao maior escritor do mundo.<\/p>\n<p>Coloane encontrou sua linguagem desde os 19 anos, quando come\u00e7ou a publicar, depois de passar um tempo se aventurando por aquelas plagas. Se especializou no que relata e cedo aprendeu que l\u00e1, onde tudo est\u00e1 por conquistar, se manifesta primeiro a ferocidade humana, a \u00fanica capaz de ficar \u00e0 altura da paisagem devastadora. Livro para ler com aten\u00e7\u00e3o redobrada, pois cada detalhe conta e nada do que aparece no livro \u00e9 reconhecido. Somos, como leitores, os desbravadores dessa literatura que tanto tardou a chegar at\u00e9 n\u00f3s. \u00c9 como diz Walter Salles na apresenta\u00e7\u00e3o: &#8220;Cada conto de Terra do Fogo ati\u00e7a a nossa imagina\u00e7\u00e3o e nos projeta para um mundo al\u00e9m-fronteiras&#8221;.<\/p>\n<p>O mar e a navega\u00e7\u00e3o em barcos e navios de pequeno calado s\u00e3o, neste livro, personagens determinantes, que confinam as pessoas, definem seus destinos e nos embarcam em ondas surpreendentes, encharcando as m\u00e3os de graxa e peixe e fustigando os corpos transidos pelos des\u00edgnios de deuses cheios de f\u00faria e de caprichos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Francisco Coloane, festejado e importante escritor chileno, que s\u00f3 agora chega traduzido pela primeira vez no Brasil gra\u00e7as \u00e0 editora Francis, nos revela a paisagem, in\u00e9dita na literatura, do Chile Austral, ambiente para a dana\u00e7\u00e3o dos homens com suas ambi\u00e7\u00f5es, fraquezas e terrores. Seu livro de onze contos, Terra do Fogo, nos leva de rold\u00e3o por praias assustadoras, penhascos gigantescos, neves eternas, bichos estranhos, guerras de exterm\u00ednio. 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