{"id":1006,"date":"2009-12-14T19:44:14","date_gmt":"2009-12-14T21:44:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1006"},"modified":"2009-12-21T20:13:37","modified_gmt":"2009-12-21T22:13:37","slug":"esse-obscuro-objeto-de-desejo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/esse-obscuro-objeto-de-desejo","title":{"rendered":"ESSE OBSCURO OBJETO DE DESEJO"},"content":{"rendered":"<p>O livro n\u00e3o-descart\u00e1vel \u00e9 a personagem principal de uma novela que resgata a paix\u00e3o pelo conhecimento<\/p>\n<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Qual o objetivo do desejo? Testar o pr\u00f3prio limite, nos diz Carlos Maria Dominguez em sua impressionante novela, A Casa de Papel (Francis, 100 p\u00e1ginas). Amontoar livros at\u00e9 ser enterrado pela pr\u00f3pria biblioteca, por exemplo. Como os outros v\u00edcios, os livros tamb\u00e9m s\u00e3o perigosos, adverte o autor (argentino, que vive no Uruguai, premiad\u00edssimo). Podem participar de um ou mais crimes. Quais as pistas deixadas por Dominguez?<\/p>\n<p>S\u00e3o elas: todos os livros s\u00e3o imprescind\u00edveis, mas eles exigem mais de uma vida para que voc\u00ea saiba o que merece saber; como voc\u00ea n\u00e3o consegue chegar at\u00e9 o teto da sua ambi\u00e7\u00e3o, acaba adquirindo a cor dos pergaminhos, como o personagem Delgado, o homem que d\u00e1 a chave para entender o enigma que envolve o narrador. Voc\u00ea pode ser um colecionador (como Delgado) ou um estudioso (como Carlos Brauer, a personagem chave da trama). O primeiro pode manter a sanidade (o ego dividido entre a sobreviv\u00eancia e o prazer da leitura), enquanto o segundo pode enlouquecer. Por que Carlos Brauer enlouqueceu?<\/p>\n<p>Porque, aposentado e com boa heran\u00e7a, dedicava todo seu tempo \u00e0 sua paix\u00e3o. Porque descobriu afinidades entre autores de na\u00e7\u00f5es opostas, que se tornam assim complementares. Porque enxergou uma arquitetura subliminar no design de letras e linhas nas p\u00e1ginas impressas, o que significa uma partitura oculta que acompanha, em sil\u00eancio, a leitura. Porque n\u00e3o quis para sua biblioteca o destino de tantas outras, dilapidadas pelos espertalh\u00f5es, decomposta para melhor proveito de um mercado de antiguidades e por fim disputada em seus exemplares raros em detrimento de outros considerados menores, o que \u00e9 um crime contra a obsess\u00e3o que reuniu todos os t\u00edtulos.<\/p>\n<p>Carlos Brauer enlouqueceu porque tentou organizar sua biblioteca no espa\u00e7o que n\u00e3o dispunha, num fich\u00e1rio exc\u00eantrico que no fim o acaso queimou. E, talvez, porque n\u00e3o se ligou aos contempor\u00e2neos com a mesma intensidade com que acumulou seus livros. Deixou marcas da sua passagem em cora\u00e7\u00f5es afins, como a catedr\u00e1tica inglesa t\u00e3o culta quanto ele e que foi capaz de morrer atropelada lendo poemas de Emily Dickinson. Seu crime foi ter deixado passar a oportunidade de um amor que o libertasse da loucura e que no fim n\u00e3o deixou vest\u00edgios, a n\u00e3o ser um velho exemplar de \u201cA Linha da sombra\u201d, de Joseph Conrad.<\/p>\n<p>A indiferen\u00e7a existente no mundo dos livros n\u00e3o era a mesma de Brauer em rela\u00e7\u00e3o a seus semelhantes. O estudioso que se deixou soterrar pela pr\u00f3pria biblioteca n\u00e3o compartilhava com o universo de patranhas de autores, livreiros, editores, jornalistas, professores. Era um out-sider no mundo encadernado e de brochuras infinitas. Procurava (ou seria o narrador?) a por\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia dos autores latino-americanos. Procurava mais do que isto: as respostas para os mist\u00e9rios que os livros encerram ou acobertam. Mas n\u00e3o acha o principal: o amadurecimento de uma vida que s\u00f3 se consegue com ren\u00fancia e n\u00e3o com auto-piedade ou autofagia.<\/p>\n<p>Brauer se refugiou na praia e construiu uma casa que tinha os livros como tijolos. Procurou desesperadamente o livro de Conrad, que \u00e9 sobre o rito de passagem entre a vida juvenil e a adulta, mas n\u00e3o sabia o significado dessa busca. Quando o encontrou e remeteu pelo correio at\u00e9 a catedr\u00e1tica inglesa, j\u00e1 era tarde demais. Uma vida tinha se desperdi\u00e7ado. O narrador precisou ir at\u00e9 os confins da sua terra para entender a trag\u00e9dia. Descobriu, no caminho, o vazio das multid\u00f5es brincando com as novidades eletr\u00f4nicas, apartadas, como os autores frustrados ou c\u00e9lebres, de uma vida espiritual plena, que s\u00f3 se consegue quando h\u00e1 ascend\u00eancia do humano sobre o papel, da vida sobre a imobilidade da representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma li\u00e7\u00e3o que Dominguez nos apresenta como um conto policial que dispensa a ast\u00facia dos protagonistas, mas n\u00e3o deixa de lado os pequenos assassinatos das na\u00e7\u00f5es globalizadas. E que mergulha na hist\u00f3ria universal do livro como um guia de primeira grandeza, sem exibicionismos, pois sabe onde existe o conte\u00fado que faz falta: aquele que n\u00e3o ilude com as filigranas da falsa sabedoria, mas que leva pela m\u00e3o at\u00e9 o tesouro oculto da cultura acumulada por s\u00e9culos de celebra\u00e7\u00e3o e dor.<\/p>\n<p>Por isso, \u00e9 preciso ler a literatura de Carlos Maria Dominguez nesta \u00e9poca em que as inutilidades se acumulam nas vitrines (alugadas) das grandes livrarias. \u00c0s vezes, na longa espera de um avi\u00e3o, a companhia de um livro como este \u00e9 mais \u00fatil do que a perda de tempo num t\u00edtulo qualquer de auto-ajuda ou de filosofia barata (aquela que economiza neur\u00f4nios ao ser consumida).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Qual o objetivo do desejo? Testar o pr\u00f3prio limite, nos diz Carlos Maria Dominguez em sua impressionante novela, A Casa de Papel (Francis, 100 p\u00e1ginas). Amontoar livros at\u00e9 ser enterrado pela pr\u00f3pria biblioteca, por exemplo. Como os outros v\u00edcios, os livros tamb\u00e9m s\u00e3o perigosos, adverte o autor (argentino, que vive no Uruguai, premiad\u00edssimo). Podem participar de um ou mais crimes. Quais as pistas deixadas por Dominguez? (Resenha publicada na edi\u00e7\u00e3o de mar\u00e7o de 2007 da revista Empreendedor, se\u00e7\u00e3o Leitura).<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1006"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1006"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1006\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1590,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1006\/revisions\/1590"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1006"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1006"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1006"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}