{"id":1008,"date":"2009-12-14T20:00:04","date_gmt":"2009-12-14T22:00:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1008"},"modified":"2009-12-21T22:05:39","modified_gmt":"2009-12-22T00:05:39","slug":"labirinto-em-desterro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/labirinto-em-desterro","title":{"rendered":"LABIRINTO EM DESTERRO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Nunca sei ao certo se existem duas ou tr\u00eas travessas antes de chegar ao terminal. A d\u00favida vem da falta de dire\u00e7\u00e3o e de mem\u00f3ria urbana, desvantagens que fazem parte da minha natureza, e que se manifestam nos passos indecisos toda vez que me aventuro por aquela regi\u00e3o. Tento at\u00e9 decorar o nome das pequenas ruas que nascem da curva da cidade onde fica um col\u00e9gio, um edif\u00edcio da Marinha e alguns \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos fora de m\u00e3o, como a secretaria do Trabalho. Elas desembocam na pra\u00e7a central, que divide a cidade em duas por\u00e7\u00f5es bem distintas. Esta, de que falo, e que \u00e9 formada por ruazinhas estreitas, sombreadas em excesso e com um ar de abandono que deve ser assustador em domingos e feriados (quando me encontro bem longe do centro, refugiado num canto da ilha-cidade). E a outra, comercial, aparentemente buli\u00e7osa e viva, mas que tamb\u00e9m oferece um espet\u00e1culo aterrador, pela solid\u00e3o em contraste com a vibra\u00e7\u00e3o anterior, quando n\u00e3o h\u00e1 expediente e todos se recolhem nos imensos espa\u00e7os vazios desta capital agora atulhada de gente.<\/p>\n<p>Sim, \u00e9 uma cidade de mist\u00e9rios. Lembra a explica\u00e7\u00e3o que vi num document\u00e1rio sobre a estrutura do \u00e1tomo. H\u00e1 um centro, o n\u00facleo, dizem os f\u00edsicos, e muito longe dali, depois de longos espa\u00e7os vazios, o bul\u00edcio dos el\u00e9trons. A mat\u00e9ria \u00e9 composta de &#8220;nadas&#8221; imensos pontuados por alguma presen\u00e7a indecifr\u00e1vel, como \u00e9 o caso de part\u00edculas at\u00f4micas. Talvez a regi\u00e3o que visito regularmente (devido a uma atividade extra que agora n\u00e3o conv\u00e9m abordar) n\u00e3o exclua essa ess\u00eancia das coisas, a de que existem v\u00e1cuos entre objetivos bem concretos e distintos, que acabam nos confundindo quando deixamos o carro e a condu\u00e7\u00e3o de lado e nos aventuramos numa caminhada. Sempre que apare\u00e7o por l\u00e1, em busca de um ponto bem objetivo, troco as pernas achando que entrei na rua certa. Mas, invariavelmente, me confundo.<\/p>\n<p>Essas ruelas estranhas oferecem insumos para minha desorienta\u00e7\u00e3o. Elas s\u00e3o interligadas por pequenos corredores, portanto n\u00e3o temos nenhuma d\u00favida de que acharemos o lugar que procuramos, j\u00e1 que se pode voltar atr\u00e1s utilizando esses atalhos naturais. Mas isso faz parte da armadilha. Voc\u00ea tem a certeza de que est\u00e1 indo na travessa certa, descobre que est\u00e1 enganado quando chega ao fim dela (pois onde quero chegar fica na \u00faltima quadra, no lado oposto da pra\u00e7a). A\u00ed preciso contornar para entrar na outra rua ou ent\u00e3o dar meia volta e pegar o corredor providencial. O problema \u00e9 que as ruas misteriosamente se multiplicam, por mais que isso possa parecer estranho. Eram duas, ou tr\u00eas, mas parece haver uma infinidade de op\u00e7\u00f5es, que me fazem derreter quando h\u00e1 ver\u00e3o e temer pela sa\u00fade diante do vento encanado, quando h\u00e1 inverno.<\/p>\n<p>Depois de reter na mem\u00f3ria, por muitos anos, o caso do cientista que enlouqueceu quando foi estudar a infinidade de n\u00fameros que existem entre dois n\u00fameros inteiros \u2013 conjunto que ele batizou de Aleph \u2013 descobri, gra\u00e7as \u00e0 internet e \u00e0 curiosidade agu\u00e7ada pela ignor\u00e2ncia, que o dedicado estudioso \u00e9 o matem\u00e1tico alem\u00e3o Georg Cantor. Na primeira vez que mencionei seu sobrenome, fui corrigido na pron\u00fancia, pois o fil\u00f3sofo em quest\u00e3o jamais teve qualquer liga\u00e7\u00e3o com a profiss\u00e3o de crooner. Assim, pronunciando Cantor como quem passa a m\u00e3os pelos cantos do problema para ver se \u00e9 poss\u00edvel descobrir alguma solu\u00e7\u00e3o, vi que entre a sede dos Correios, situada em frente \u00e0 pra\u00e7a, e o terminal, existe um n\u00famero infinito dessas ruas enigm\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Quando chega a vez de ir l\u00e1 confirmo essa suposi\u00e7\u00e3o. Nunca chego ao lugar limite, onde as pessoas v\u00e3o pegar os \u00f4nibus, pois antes dele h\u00e1 essa encruzilhada de caminhos. Costumo descobrir uma nova alameda na procura intermin\u00e1vel em dire\u00e7\u00e3o ao lugar que eu desejo chegar. H\u00e1 um aleph urbano escondido nessa parte baixa da cidade e s\u00f3 tive certeza disso quando prestei mais aten\u00e7\u00e3o ao que elas guardam em suas portas encardidas, seus edif\u00edcios tombados, seu ar de prov\u00edncia do s\u00e9culo 19. Tem pastelaria, sebo, padaria, armarinho, xerox e outros estabelecimentos indecifr\u00e1veis, que talvez estejam l\u00e1 apenas para atender fantasmas. Foram esquecidos pelo resto da cidade, mais ocupada em grandes viadutos, fluxos migrat\u00f3rios, a viol\u00eancia que aos poucos se instala na outrora pacata Desterro.<\/p>\n<p>\u00c9 uma esp\u00e9cie de reserva urbana contrariada por exercer o seu papel. Vejo essa falta de sintonia nos habitantes que ficam parados por l\u00e1 ou passam me olhando com curiosidade. Eles t\u00eam o aspecto de antigas fotografias, vestem roupas que costumava ver na minha inf\u00e2ncia e encarnam tipos h\u00e1 muito desaparecidos. O mendigo-fil\u00f3sofo, o desocupado prestativo, a aposentada especialista em cada lugar perdido naquele ermo. Costumo perguntar sempre onde fica o local exato que busco e sou atendido. Mas basta eu me afastar um pouco para me envolver novamente no novelo a que me submeto de maneira recorrente.<\/p>\n<p>Talvez seja eu o fantasma que procura algo que n\u00e3o consegue mais achar. Visito um lugar que nem no passado mais se encontra, mas existe nessa realidade simult\u00e2nea, nesse momento \u00fanico de que \u00e9 feito o universo de todas as eras. Sou levado pela minha providencial falta de orienta\u00e7\u00e3o e de mem\u00f3ria urbana. Esque\u00e7o o que vejo para me perder no aleph dos desterrados, onde h\u00e1 sempre uma rua inusitada, um corredor que leva a outras paragens, uma cal\u00e7ada ca\u00edda diante de uma vitrine obscura. Sou o visitante sem rosto diante da identidade perdida de antigos e novos moradores. Sou o migrante com a percep\u00e7\u00e3o avariada que se defronta com o enigma da cidade que se recusa a desaparecer totalmente. Suo a camisa para chegar onde quero. Normalmente consigo. Mas basta ter de voltar para saber que estarei novamente perdido, \u00e0 merc\u00ea de uma dem\u00eancia misteriosa.<\/p>\n<p>N\u00e3o posso mais me estender sobre isso, pois acabei me convencendo que nenhum segredo existe para ser revelado. J\u00e1 me acostumei a me perder nesse labirinto. J\u00e1 me incorporei nos elementos da paisagem que se desdobra. E n\u00e3o adianta ter a pra\u00e7a em frente e o terminal na fronteira do enigma. Quem parte do n\u00famero um para chegar ao n\u00famero dois fatalmente vai se comprometer com a infinidade de algarismos que podem ser colocados depois da v\u00edrgula.<\/p>\n<p>Georg Kantor, criador (ou um dos criadores) da teoria dos conjuntos, que uso indevidamente aqui para ilustrar minha experi\u00eancia, morreu pobre, esquecido, com alta dosagem de depress\u00e3o. Eu n\u00e3o me incomodo mais em conviver com o mist\u00e9rio e nem pretendo achar uma solu\u00e7\u00e3o. Isso talvez me salve, enquanto compartilho minha d\u00favida com os habitantes eventuais dessa regi\u00e3o de sombras, de cheiros antigos e de encanto permanente. Escrevo para n\u00e3o perder o fio desse novelo, mas sei que, se usar a linha infinita para voltar \u00e0 porta da entrada, fatalmente serei enredado novamente. Prefiro fazer o que preciso, tomar uma das travessas e rezar para chegar finalmente \u00e0 pra\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Talvez seja eu o fantasma que procura algo que n\u00e3o consegue mais achar. Visito um lugar que nem no passado mais se encontra, mas existe nessa realidade simult\u00e2nea, nesse momento \u00fanico de que \u00e9 feito o universo de todas as eras. Sou levado pela minha providencial falta de orienta\u00e7\u00e3o e de mem\u00f3ria urbana. Sou o visitante sem rosto diante da identidade perdida de antigos e novos moradores. 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