{"id":101,"date":"2005-05-13T21:40:14","date_gmt":"2005-05-13T23:40:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=101"},"modified":"2009-12-20T19:18:59","modified_gmt":"2009-12-20T21:18:59","slug":"cinco-vezes-tarso-de-castro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/cinco-vezes-tarso-de-castro","title":{"rendered":"CINCO VEZES TARSO DE CASTRO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><br \/>\n<img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/tarsofoto.jpg\" border=\"0\" alt=\"Tarso de Castro\" \/> <img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/icons\/quadrado4.gif\" border=\"0\" alt=\"\" \/>UMA: FECHAMENTO<\/p>\n<p>&#8211; Vamos fechar essa merda em cinco minutos!<\/p>\n<p>Era um dos muitos gritos de Tarso de Castro, anunciando sua m\u00e1 vontade em participar diretamente do fechamento da Ilustrada, suplemento cultural da Folha de S. Paulo, no final dos anos 70. Ele era obrigado a fazer isso quando o editor Antonio Carlos Coutinho, o Zuba ( hoje propriet\u00e1rio e diretor da revista Express\u00e3o, de Florian\u00f3polis) tirava f\u00e9rias. O fechamento n\u00e3o podia atrasar nem um minuto depois das oito horas. Tarso chegava \u00e0s cinco, anunciava-se e sumia (Estava no bar? Estava no \u00faltimo andar? ). Voltava um pouco antes das oito (quando conto essa hist\u00f3ria, gosto de dizer: &#8220;ele voltava \u00e0s cinco para as oito&#8221;). E realmente fechava em cinco minutos.<\/p>\n<p>Pegava as tripas de laudas (que na \u00e9poca era coladas, formando serpentes de papel) com um bra\u00e7o s\u00f3, levantava at\u00e9 os olhos e tascava:<\/p>\n<p>-Jesus \u00e9 Oxal\u00e1.<\/p>\n<p>E ca\u00eda na gargalhada. Era o t\u00edtulo &#8211; que ele n\u00e3o escrevia, apenas ditava &#8211; de uma mat\u00e9ria sobre sincretismo religioso, j\u00e1 que a Ilustrada de Tarso n\u00e3o se dedicava apenas ao show- biz, nem a pauta era ditada pela ind\u00fastria cultural. A equipe tinha autonomia e cada rep\u00f3rter ou redator assinava embaixo, tanto a notinha quanto a reportagem.<\/p>\n<p>Tarso pegava a outra tripa de laudas e ditava a legenda de um perfil de Lacerda:<\/p>\n<p>&#8211; Abre aspas: ao inv\u00e9s de tomarmos o caminho do Canad\u00e1, tomamos o caminho da \u00cdndia.<\/p>\n<p>Admirava, apesar de ser seu inimigo pol\u00edtico, o frasista Lacerda, que era o verdadeiro autor da express\u00e3o &#8220;fi-lo porque quilo&#8221;, em resposta \u00e0 pergunta &#8220;por que f\u00ea-lo?&#8221;, de J\u00e2nio. Este, a quem normalmente \u00e9 atribu\u00edda a boutade, jamais faria brincadeiras com a l\u00edngua, que levava a s\u00e9rio. Eu desconfiava daquele fechamento, que acreditava feito nas coxas. Imaginava que ia dar tudo errado.<\/p>\n<p>Mas no dia seguinte, ao abrir o jornal, tudo fazia sentido: os t\u00edtulos, as legendas, a disposi\u00e7\u00e3o das mat\u00e9rias. O fechamento, que para n\u00f3s custava muita dor de cabe\u00e7a, para ele era um jogo. Sua cabe\u00e7a estava solta e o olho cl\u00ednico, atento.<\/p>\n<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/folhetim2.jpg\" border=\"0\" alt=\"capa do Folhetim\" \/><\/p>\n<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/icons\/quadrado4.gif\" border=\"0\" alt=\"\" \/> DUAS: ABERTURA<\/p>\n<p>Tinha aterrissado na reda\u00e7\u00e3o indicado por Jorge Escosteguy, que na \u00e9poca trabalhava na Veja. Oficialmente, n\u00e3o havia espa\u00e7o para mim &#8211; ou seja, a &#8220;casa&#8221; n\u00e3o tinha pedido uma contrata\u00e7\u00e3o, mas Zuba precisava de um redator e me colocou l\u00e1 para ajudar no fechamento, sem o conhecimento de Tarso. No primeiro contato que tive com Tarso fiquei bem impressionado pela maneira direta e franca da sua conversa, que foi r\u00e1pida e eficaz. Acabei ficando na Folha dois anos e meio porque Tarso confiou em Zuba e tamb\u00e9m porque foi com minha cara.<\/p>\n<p>Tarso estava mais voltado para o iminente lan\u00e7amento do Folhetim e deixou a Ilustrada nas m\u00e3os da equipe coordenada por Zuba e secundada por Marco Ant\u00f4nio de Moraes, o Markito (depois de cada fechamento, Markito convidava: Nei, vamos at\u00e9 o bar para parar de tremer). Tarso tinha deixado sua marca no suplemento, ao editar uma s\u00e9rie de reportagens de capa enfocando, cada dia, uma artista mulher (Bruna Lombardi e Rita Lee mereceram esse destaque). A Ilustrada n\u00e3o era um espa\u00e7o de mat\u00e9rias frias. Tinha personalidade pr\u00f3pria, agitava, avan\u00e7ava sobre outras editorias, derrubava murinhos, criava casos, provocava ci\u00fames.<\/p>\n<p>Tarso alimentava o rumor, fazia cena. Quando lan\u00e7ou o Folhetim, avan\u00e7ou pela reda\u00e7\u00e3o com uma prova da capa que tinha &#8211; \u00e9 claro &#8211; o Chico Buarque colorido, com o t\u00edtulo &#8220;Olhos nos olhos&#8221;. Caminhava lentamente, com a capa \u00e0 mostra, triunfante, segurando uma gargalhada explosiva, que rebentava no minuto seguinte.<\/p>\n<p>A liberdade instaurada por ele costumava provocar dores de cabe\u00e7a em Tarso, que chegava apavorado na mesa da edi\u00e7\u00e3o para dar alguns toques:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o copisquem os colunistas, voc\u00eas enlouqueceram?<\/p>\n<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/careta.jpg\" border=\"0\" alt=\"capa da revista Careta\" \/><\/p>\n<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/icons\/quadrado4.gif\" border=\"0\" alt=\"\" \/>TR\u00caS: CAR\u00c1TER<\/p>\n<p>Migrante rec\u00e9m chegado em S\u00e3o Paulo em 1976, fiquei ligado na Ilustrada editada por Tarso de Castro, jornalista que lia e gostava n\u00e3o s\u00f3 desde a fase do Pasquim, mas do Panfleto &#8211; o Jornal do Homem da Rua. Lia o Panfleto &#8211; uma das muitas obras da dupla Fortuna\/Tarso &#8211; ainda em Uruguaiana, RS, onde vivi at\u00e9 os 17 anos. Na Ilustrada, assinei reportagens, cr\u00edtica musical, f\u00e1bulas e coment\u00e1rios. Tarso nos deixava solto, porque apostava na criatividade alheia. Ele criava o cen\u00e1rio da inven\u00e7\u00e3o. Todos, med\u00edocres ou n\u00e3o, sa\u00edam ganhando.<\/p>\n<p>Sabia ser indiferente, porque era seletivo, apesar de aberto. Mas tamb\u00e9m sabia ser solid\u00e1rio. Quando tive um problema grave de fam\u00edlia, fui buscar o sal\u00e1rio para dar, inteiro, de entrada nas despesas do hospital &#8211; tinha havido uma emerg\u00eancia e eu n\u00e3o dispunha de plano de sa\u00fade, pois na \u00e9poca era aut\u00f4nomo, nem tinha carteira assinada. Ele soube da hist\u00f3ria, fez uma cara feroz e pegou o telefone, gritando para o diretor financeiro:<\/p>\n<p>&#8211; Paga o hospital do nosso redator!<br \/>\nO diretor, claro, n\u00e3o gostou. Mas Tarso fincou p\u00e9 e jamais precisei pagar aquela despesa.<\/p>\n<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/pasquim.jpg\" border=\"0\" alt=\"capa do Pasquim\" \/><\/p>\n<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/icons\/quadrado4.gif\" border=\"0\" alt=\"\" \/>QUATRO: FORTUNA<br \/>\nNa \u00e9poca, n\u00e3o cheguei a fazer amizade com Fortuna, o bra\u00e7o direito de Tarso. S\u00f3 em 1988, quando fui assessor de imprensa e precisei de um diretor de arte, \u00e9 que me aproximei bastante desse g\u00eanio brasileiro, que amargou longo ex\u00edlio interno depois de tanto fazer pelo jornalismo. Fortuna era muito mais que um cartunista seminal, mestre do tra\u00e7o e da piada pol\u00edtica. Escrevia como poucos e, leitor de Gutemberg, era criador visual de primeira, com extrema lucidez no olhar, capaz de detectar um desvio de meio mil\u00edmetro num fio mal colocado (antes da computa\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Cito Fortuna neste depoimento porque ele se queixava bastante da injusti\u00e7a que fizeram ao Tarso em rela\u00e7\u00e3o ao Pasquim. Para Fortuna, o Pasquim foi obra de Tarso e n\u00e3o dos outros colaboradores, que foram apenas coadjuvantes. O Pasquim, como o Panfleto, como Enfim, Folhetim, eram produtos do inventor de jornais Tarso de Castro, filho de jornalista e admirador de Samuel Wainer, o rep\u00f3rter que virou cartola da imprensa.<\/p>\n<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/tarsofoto2.jpg\" border=\"0\" alt=\"Tarso de Castro\" \/><\/p>\n<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/icons\/quadrado4.gif\" border=\"0\" alt=\"\" \/>CINCO: FINAL<\/p>\n<p>&#8211; Recebeste meu livro de poesias, Tarso? perguntei.<\/p>\n<p>&#8211; Estava lendo teus versinhos para minha namorada, respondeu ele.<\/p>\n<p>Quando me encontrava, gostava de lembrar nossas ra\u00edzes ga\u00fachas. Gritava:<\/p>\n<p>&#8211; Tch\u00ea, perdi minha guaiaca de fumo e fiquei a tarde toda campaneando.<\/p>\n<p>E achava isso sempre muito engra\u00e7ado, o que mantinha o mote com o mesmo sabor da primeira vez.<\/p>\n<p>A \u00faltima vez que vi Tarso, foi no centro de S\u00e3o Paulo. Abracei seu corpo muito magro, que ainda tinha for\u00e7a para o abra\u00e7o. Estava desenganado. Morreria pouco depois, com apenas 49 anos. No seu vel\u00f3rio, vi seu rosto muito pequeno, encolhido. Toda vez que me lembro dele, me d\u00e1 saudade. Faz falta sua coragem, seu talento, seus ru\u00eddo, sua \u00e9tica, seus jornais, sua solidariedade.<\/p>\n<p>Fui seu amigo espor\u00e1dico, epis\u00f3dico, sem muita import\u00e2ncia. Mas sua generosidade tinha espa\u00e7o para todos os contempor\u00e2neos.<\/p>\n<p>Hoje, quando algu\u00e9m fala mal de Tarso, encaro a declara\u00e7\u00e3o como uma ofensa pessoal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Migrante rec\u00e9m chegado em S\u00e3o Paulo em 1976, fiquei ligado na Ilustrada editada por Tarso de Castro, jornalista que lia e gostava n\u00e3o s\u00f3 desde a fase do Pasquim, mas do Panfleto &#8211; o Jornal do Homem da Rua. 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