{"id":1010,"date":"2009-12-14T20:01:01","date_gmt":"2009-12-14T22:01:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1010"},"modified":"2010-01-03T22:34:27","modified_gmt":"2010-01-04T00:34:27","slug":"arqueologia-no-deserto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/arqueologia-no-deserto","title":{"rendered":"ARQUEOLOGIA NO DESERTO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o os vest\u00edgios que importam, mas suas fontes humanas. A arqueologia n\u00e3o deveria se ocupar das ru\u00ednas, mas do esplendor das m\u00e3os anterior a elas. Isso poderia tirar do estudo do passado remoto sua roupagem funer\u00e1ria, sua obsess\u00e3o por t\u00famulos, suas descobertas que se transformam em museus suntuosos. Descobrir um gesto numa fogueira extinta \u00e9 mais importante do que ver imobilizado um trono de ouro acompanhando m\u00famias.<\/p>\n<p>A fun\u00e7\u00e3o civilizat\u00f3ria da arqueologia n\u00e3o \u00e9 o deslumbramento provocado pela precocidade dos ancestrais, mas enxergar o que qualquer civiliza\u00e7\u00e3o esconde quando for comparada ao verdadeiro enigma, a natureza. O que faz o projeto esquecido de uma pir\u00e2mide no alto da montanha? Qual o sentido de uma cidade industrial americana colocada ao lado do Grand Canyon? Esses eventos poder\u00e3o revelar toda a fuligem, precariedade, esc\u00e2ndalo e horror que acompanham a modernidade?<\/p>\n<p>\u00c9 disso que se ocupa Henry Miller no seu cl\u00e1ssico livro de viagens, Pesadelo Refrigerado (tradu\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Rubens Siqueira, Francis, 320 p\u00e1ginas, R$ 42), um trabalho arqueol\u00f3gico que despreza os vest\u00edgios, a n\u00e3o ser que sirvam para provar sua tese sobre a sujeira da Am\u00e9rica. Ao detectar a origem do pesadelo &#8211; o div\u00f3rcio entre homem e natureza no pa\u00eds que despreza a arte e a cultura &#8211; ele vai atr\u00e1s do tesouro verdadeiro oculto a quil\u00f4metros abaixo das apar\u00eancias: os g\u00eanios, an\u00f4nimos ou simplesmente desprezados e perseguidos, que fazem a grandeza da sua \u00e9poca e que passam despercebidos pela brutalidade de uma na\u00e7\u00e3o que aposta nas vantagens da guerra. Esta, j\u00e1 estava desencadeada na Europa na \u00e9poca em que foi escrito o livro, mas ainda n\u00e3o havia o engajamento, vislumbrado como iminente, do governo Roosevelt, em 1941.<\/p>\n<p>Miller costuma acertar porque n\u00e3o faz concess\u00f5es, como comprovam algumas frases ciscadas (e colocadas aqui em seq\u00fc\u00eancia, para destacar a contund\u00eancia de suas an\u00e1lises e profecias) no seu percurso pelo pa\u00eds que o assusta o tempo todo: &#8220;Neste mundo, o poeta \u00e9 an\u00e1tema, o pensador um tolo, o artista um alienado, o homem de vis\u00e3o um criminoso. O pior sofrimento \u00e9 o que se encontra no pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o do progresso. Todo o mundo branco se transformou em um campo armado. Vamos aprender a aniquilar o planeta inteiro num piscar de olhos &#8211; espere s\u00f3 para ver&#8221;.<\/p>\n<p>Diante do pesadelo, que \u00e9 o pa\u00eds deserto e insuport\u00e1vel, os g\u00eanios pontuam a trajet\u00f3ria do autor envolvendo-o em passeios, conversas, evid\u00eancias. Inspirado nas palavras de Swamii Vivekananda, o primeiro grande difusor das id\u00e9ias espirituais da \u00cdndia no Ocidente e que fez grande sucesso na virada do s\u00e9culo 19 para o 20, Miller aposta nas mentes ocultas, naquelas criaturas que transformam o mundo e jamais v\u00eam \u00e0 tona, ou quando s\u00e3o vistas, todos fingem n\u00e3o enxerg\u00e1-las.<\/p>\n<p>Assim, convivem no mesmo espa\u00e7o de revela\u00e7\u00f5es profundas tanto o morador do deserto, homem simples e isolado, que ensina os arque\u00f3logos sobre os verdadeiros motivos de uma trag\u00e9dia ocorrida milhares de anos antes, quanto pintores considerados fundamentais, como John Marin e Marion Souchon. Revolucion\u00e1rios do som ordenado que mudaram radicalmente a percep\u00e7\u00e3o da m\u00fasica, como Edgar Var\u00e8se, s\u00e3o vistos com a mesma grandeza de um velho mec\u00e2nico que fez o Buick do autor cruzar infinitos espa\u00e7os sufocados por altas temperaturas.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata, entretanto, de um livro de viagens ex\u00f3tico ou &#8220;esnobe&#8221;, como dele disseram na imprensa brasileira. Por ser radical, por colocar os g\u00eanios como milagres que desafiam uma cultura autodestrutiva, Miller provoca o desconforto habitual da fornalha da sua escrita. O leitor n\u00e3o faz uma viagem agrad\u00e1vel pelas paisagens f\u00edsicas e humanas de uma Am\u00e9rica deslumbrante e aterradora. N\u00e3o se trata de um livro para confirmar a hegemonia de algo irrevers\u00edvel ou para entreter quem quer que seja. \u00c9 obra de arte, no que isso tem de mais provocador e gratificante. Mesmo escrito h\u00e1 mais de 60 anos, serve para gerar uma nova vis\u00e3o do pa\u00eds que emergiu da guerra como se fosse o paradigma de uma civiliza\u00e7\u00e3o futurista e nada mais \u00e9, segundo o pr\u00f3prio Miller, do que o final de um processo que est\u00e1 destinado a desaparecer, fruto de suas pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;O estilo americano \u00e9 seduzir o homem por meio da propina at\u00e9 torn\u00e1-lo um prostituto&#8221;, diz Miller, para n\u00e3o deixar d\u00favidas sobre o pseudocharme da civiliza\u00e7\u00e3o hoje vitoriosa no mundo. Ao ser lido depois que todas as suas suspeitas e certezas sobre o que via se confirmaram, entraram em ascens\u00e3o irresist\u00edvel e agora chafurdam nas areias do Iraque, Henry Miller, com Pesadelo Refrigerado, encerra o melhor das profecias, que s\u00e3o as percep\u00e7\u00f5es colhidas no in\u00edcio dos acontecimentos, quando estes se encontram em estado quase latente em rela\u00e7\u00e3o ao que poder\u00e3o desenvolver. A Am\u00e9rica prestes a entrar na guerra intensificaria todos os seus erros e disseminaria pelo mundo a adora\u00e7\u00e3o pelo dinheiro. Isso incomodava na \u00e9poca e hoje \u00e9 mais atual do que nunca.<\/p>\n<p>A guerra faria a civiliza\u00e7\u00e3o americana chegar ao auge, mas a Fran\u00e7a, na \u00e9poca sob o tac\u00e3o nazista, n\u00e3o seria destru\u00edda, segundo Miller. A Fran\u00e7a \u00e9 o contraponto ao pesadelo refrigerado e seu modelo s\u00e3o os anos 1930, quando Miller rodou por Paris e produziu suas grandes obras, como Tr\u00f3pico de C\u00e2ncer. A viagem pelo pa\u00eds dilacerado provocava, nos detalhes, como ensinava Proust, um retorno \u00e0s ra\u00edzes da emo\u00e7\u00e3o do autor, fundamente fincadas nas paragens francesas. Suas madeleines &#8211; o doce que desencadeia a mem\u00f3ria afetiva em Proust &#8211; em Miller s\u00e3o os detalhes de um passeio, uma conversa aleat\u00f3ria.<\/p>\n<p>O que mais encanta no livro \u00e9 a aguda vis\u00e3o do escritor dos lugares por onde anda sem os \u00f3culos do turista inconseq\u00fcente. Debocha dos coment\u00e1rios vazios dos que precisam devorar a paisagem amparados pela incultura on\u00edvora e chama a aten\u00e7\u00e3o para o ch\u00e3o p\u00farpura da hospedaria onde uma turista entediada reclamava do crep\u00fasculo, suave demais para quem precisava enxergar o sol como se fosse uma gigantesca omelete.<\/p>\n<p>Literatura de combate sem ser de guerra, este \u00e9 um livro que escancara a individualidade necess\u00e1ria nesta \u00e9poca em que tudo se parece, como se estiv\u00e9ssemos numa viagem tediosa por lugares famosos. O que \u00e9 sagrado para Miller \u00e9 essa abordagem \u00fanica de um esp\u00edrito livre, que, por sua altivez e profundidade, nos ensina mais do que nos deleita, e nos estoca para uma vida mais sincera e habitada. Sua arqueologia atinge o cora\u00e7\u00e3o das trevas e de l\u00e1 retira algo que est\u00e1 vivo e n\u00e3o se deixa morrer, mesmo que a guerra pare\u00e7a intermin\u00e1vel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por ser radical, por colocar os g\u00eanios como milagres que desafiam uma cultura autodestrutiva, Henry Miller provoca o desconforto habitual da fornalha da sua escrita. O leitor n\u00e3o faz uma viagem agrad\u00e1vel pelas paisagens f\u00edsicas e humanas de uma Am\u00e9rica deslumbrante e aterradora. N\u00e3o se trata de um livro para confirmar a hegemonia de algo irrevers\u00edvel ou para entreter quem quer que seja. \u00c9 obra de arte, no que isso tem de mais provocador e gratificante. (Resenha sobre &#8220;Pesadelo Refrigerado&#8221;, de Henry Miller, publicada no caderno Cultura, do Di\u00e1rio Catarinense, em 3\/03\/2007).<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1010"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1010"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1010\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1949,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1010\/revisions\/1949"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1010"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1010"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1010"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}