{"id":1012,"date":"2009-12-14T20:03:23","date_gmt":"2009-12-14T22:03:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1012"},"modified":"2009-12-21T00:44:29","modified_gmt":"2009-12-21T02:44:29","slug":"homero-viveu-entre-nos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/homero-viveu-entre-nos","title":{"rendered":"HOMERO VIVEU ENTRE N\u00d3S"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Jayme Caetano Braun \u00e9 poeta muito querido e elogiado e sua morte recente provocou grande como\u00e7\u00e3o. Pode-se dizer que sua poesia \u00e9 a chave para entender o nativismo, esse movimento criado nos anos 50 e que deu tantos frutos, se espalhando por todo o Rio Grande e atingindo o pa\u00eds inteiro, pois at\u00e9 no meio da mata tem CTG \u2013 Centro de Tradi\u00e7\u00f5es Ga\u00fachas. Essa vasta obra, feita quase toda, sen\u00e3o toda, no improviso, guarda no entanto um segredo.<\/p>\n<p>Esse segredo s\u00f3 poder\u00e1 ser revelado \u00e0 medida em que descolarmos o poeta da bandeira na qual se enrodilhou a vida inteira. Pois n\u00e3o se trata apenas de um trovador gauchesco, ou payador, como ele se definia. Mas de um autor em que todos os seus versos formam um \u00fanico poema, um \u00e9pico, uma raps\u00f3dia do Brasil profundo.<\/p>\n<p>Braun, filho de um professor alem\u00e3o com mulata, \u00e9 o rapsodo, que ia de cidade em cidade recitando um grande poema de forma\u00e7\u00e3o, do povo e seus costumes, da hist\u00f3ria e suas guerras, do tempo e suas gl\u00f3rias e mis\u00e9rias. Tudo dito e escrito na l\u00edngua de Cam\u00f5es e n\u00e3o num patu\u00e1 regional. E com todo o vocabul\u00e1rio do pampa, sem que as palavras t\u00edpicas desvirtuassem a constru\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica, a melodia \u00e9pica que vem de Cam\u00f5es e chega at\u00e9 n\u00f3s pela voz de Castro Alves.<\/p>\n<p>Estudioso, letrado, conhecedor da Hist\u00f3ria da sua terra, Braun incorporava o linguajar popular da mesma forma que Hernandez produziu o Martin Fierro. Como notou Jorge Luis Borges, foram poetas estudados que, ao participarem da guerra e ao conviverem com as pessoas simples do povo, \u00e9 que constru\u00edram toda uma cultura gauchesca de sabor especial para quem nasceu nesse territ\u00f3rtio batido pelo minuano. O artista genuinamente popular n\u00e3o desveste a linguagem como faz Hernandez ou Braun, j\u00e1 que tem uma id\u00e9ia mais pomposa da arte. S\u00e3o os radicais dessa modernidade que virou do s\u00e9culo 19 para o vinte que criaram algo que se confundiu com a paisagem: obras at\u00e9 hoje ditas em voz alta.<\/p>\n<p>Vamos ver trechos famosos de poemas de Braun, daqueles que eu ouvia quando crian\u00e7a. Um deles diz: \u201cA p\u00e1tria \u00e9 minha fam\u00edlia\/ n\u00e3o h\u00e1 Brasil sem Rio Grande\/ e nem tirano que mande\/ numa alma farroupilha\u201d. Outro, tirado do poema Acampamento Farrapo, mostra o seguinte:<\/p>\n<p>&#8220;Bandeira de 35, Divino pend\u00e3o de guerra. Que guarda gritos de terra entre as dobras andarilhas. Pano de altar das coxilhas, desfraldado por condores, prece rezada em 3 cores em sobrehumanos rituais&#8230; O verde, os campos gerais do Rio Grande despenteado, o matambre amarelado numa alvorada de outubro e o campo&#8230; vermelho rubro, num sol de tarde sangrado. Trof\u00e9u mil vezes sagrado, p\u00e1tria encarnada em um pano, peda\u00e7o de ch\u00e3o pampeano que a historia guasca eterniza. Foste a primeira divisa do Brasil republicano.&#8221; (*)<\/p>\n<p>A perfei\u00e7\u00e3o do verso, a contund\u00eancia da met\u00e1fora, o engajamento guerreiro, a convoca\u00e7\u00e3o pela maestria da orat\u00f3ria, a riqueza mel\u00f3dica levam Braun para o alto e para longe de seus pares. E dizer que foi um Homero considerado um simples trovador, que assumia a autoria at\u00e9 de longos poemas pornogr\u00e1ficos, j\u00e1 que nada ficou de fora de sua verve: a medicina popular, o erotismo, a negritude, as misturas de ra\u00e7as, as lutas, a prostitui\u00e7\u00e3o, a fam\u00edlia, o amor materno, tudo. Da sala \u00e0 cozinha, do cercado ao descampado, do amor ao combate, do remorso \u00e0 exalta\u00e7\u00e3o, o rapsodo comp\u00f4s seu grande \u00e9pico de forma\u00e7\u00e3o. Este \u00e9 o segredo que guarda, que grita para ser revelado inteiramente, com mais provas do que um simples ensaio de instaura\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, como este.<\/p>\n<p>RETORNO &#8211; Pedi a continua\u00e7\u00e3o do poema Acampamento Farrapo para meu irm\u00e3o Elo Ortiz Ducl\u00f3s, que sabe as poesias de Braun na ponta da l\u00edngua e ele me atendeu. O poema funciona como um curso completo de antropologia e hist\u00f3ria, sem pose e no alvo. L\u00e1 vai:<\/p>\n<p>(*)&#8221;Bandeira tu ressuscitas, na gl\u00f3ria de cada fiapo\/ O Acampamento Farrapo emba\u00e7ado de fuma\u00e7a.\/ \u00c9 o formigueiro da Ra\u00e7a que est\u00e1 reunido em conc\u00edlio \/\u00c9 o bugre que &#8211; de lombilho,vem levantando aos bocejos \/S\u00e3o os mesti\u00e7os andejos, mal encarados e s\u00e9rios \/S\u00e3o castelhanos gaud\u00e9rios vaqueano de montoneras\/ Que bandearam as fronteiras por for\u00e7a de algum instinto\/ \u00c9 o negro chucro, retinto, dos grilh\u00f5es rec\u00e9m liberto\/ \u00c9 o pi\u00e1 volunt\u00e1rio esperto, guri ainda &#8211; rosto liso\/ \u00c9 o chiru velho preciso que pensa mais do que fala\/ \u00c9 o estancieiro de pala que chimarreia sisudo \/\u00c9 o mulato fa\u00e7anhudo de adaga grande \u00e0 cintura \/\u00c9 a impressionante figura do charrua de melenas\/ \u00c9 o soldado de chilenas e uniforme desbotado\/ \u00c9 o len\u00e7o bem colorado num pesco\u00e7o de Oriental\/ \u00c9 a Tricolor Oficial num tope republicano\/ \u00c9 o carreteiro vaqueano que segue o rastro das tropas\/ S\u00e3o abas largas e copas, vinchas quepes e chap\u00e9us\/ La\u00e7os ap\u00earos, sov\u00e9us, num mar de pilchas ga\u00fachas\/ Boleadeiras e garruchas ponchos palas multicores\/ Chirip\u00e1s e tiradores, chocolateiras, cambonas\/ S\u00e3o guitarras e cordeonas chamuscads nos fandangos\/ Espadas, adagas, mangos e as lan\u00e7as que os peleadores\/ manejavam com primores nas arrancadas sem conta\/ todas trazendo na ponta as flameantes Tricolores!\/ Que culto estranho &#8211; que pampeano rito\/ Vivem tais vultos que divergem tanto\/ \u00c9 a liberdade que funfiu num grito\/ Todas as vozes do Rio Grande santo! &#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jayme Caetano Braun n\u00e3o \u00e9 apenas de um trovador gauchesco, ou payador, como ele se definia. 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