{"id":1015,"date":"2009-12-14T20:31:43","date_gmt":"2009-12-14T22:31:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1015"},"modified":"2009-12-21T21:52:30","modified_gmt":"2009-12-21T23:52:30","slug":"redutos-da-lucidez-escancarada","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/redutos-da-lucidez-escancarada","title":{"rendered":"REDUTOS DA LUCIDEZ ESCANCARADA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>A indiferen\u00e7a funciona como um v\u00edrus. Se espalha pelo pa\u00eds continente como pandemia. Mas ao contr\u00e1rio de outras doen\u00e7as, n\u00e3o encarna o Mal com todas as formas da fei\u00fara. Vaidosa, jogo o xadrez das exclus\u00f5es, iludindo, pela apar\u00eancia, de que n\u00e3o h\u00e1 motivo de p\u00e2nico. Na literatura, funciona assim: meia d\u00fazia de autores cit\u00e1veis ocupam todo o espa\u00e7o das aten\u00e7\u00f5es do pa\u00eds oficial. O resto fica restrito ao limbo. \u00c9 para provar que n\u00e3o existem, ou se existem, n\u00e3o t\u00eam nenhuma import\u00e2ncia. O Brasil n\u00e3o consegue suportar a pr\u00f3pria diversidade, por isso encarcera seus talentos numa redoma de chumbo. Finge que n\u00e3o v\u00ea. E quando n\u00e3o h\u00e1 rem\u00e9dio, quando algu\u00e9m oculto explode em luz, se assenhora da evid\u00eancia colocando-a no jugo do d\u00e8ja vu. Ou ent\u00e3o, deixa o tempo passar para tudo voltar ao normal.<\/p>\n<p>Dentro desse ambiente de horrores, medram a frustra\u00e7\u00e3o e o del\u00edrio megal\u00f4mano. \u00c9 dif\u00edcil focar, na multid\u00e3o de criadores pouco vistos e lembrados, os que resistem e mant\u00eam intacta a miss\u00e3o a que se destinam. Eles tamb\u00e9m se rebelam, se desesperam, mas conseguem cultivar, nos redutos a que foram empurrados, a fonte escancarada de uma lucidez sem tr\u00e9gua. Jamais perdem seu perfil de guerreiros sem sombra. L\u00e1 eles lutam, aguardam, sonham, e continuam publicando, mesmo que isso reforce o veredicto de que n\u00e3o devam aparecer muito. Eles desmoralizam o c\u00e2none e desvelam, para os leitores ermos de literatura de verdade, aquilo que mais nos faz falta: o esp\u00edrito livre, o of\u00edcio em estado de arte e a den\u00fancia maior, a de que a vida, breve, \u00e9 uma esp\u00e9cie de loucura engendrada pela morte.<\/p>\n<p>\u00c9 o que nos diz Emanuel Medeiros Vieira, com 16 livros publicados, em &#8220;Os Hippies Envelhecidos&#8221; (UFSC, 100 p\u00e1ginas), de 2002, onde encontra o lugar sagrado do equil\u00edbrio entre mem\u00f3ria e literatura, entre inven\u00e7\u00e3o e resgate. Nesse cruzamento das evid\u00eancias mais nobres da exist\u00eancia humana, ele se coloca no foco crepuscular de uma abordagem irada e po\u00e9tica. Seu cuidado \u00e9 n\u00e3o cair no vazio, no artificialismo, na tautologia. Por isso m\u00f3i a narrativa de todas as formas, libertando-a dos v\u00edcios por meio de exemplar dom\u00ednio do seu of\u00edcio. Os contos dessa pequena amostra de seu vasto talento jorram de um improv\u00e1vel (e revelador) Di\u00e1rio de Outono, que \u00e9, ao mesmo tempo, a reflex\u00e3o do escritor sobre o que narra e a carne que oferece \u00e0 leitura. Os contos fazem de Emanuel esse feixe de luz que cruza a tempestade como um arco de esperan\u00e7a e susto e revela o que o Brasil guarda no estoque. Seu brilho j\u00e1 pertence, h\u00e1 tempos (desde 1972, com a estr\u00e9ia em &#8220;A expia\u00e7\u00e3o de Jeruza&#8221;) \u00e0 literatura reconhecida, mas sua obra ainda n\u00e3o obteve a amplid\u00e3o necess\u00e1ria da visibilidade. Por isso, seu trabalho funciona como den\u00fancia, e \u00e9 nessa embarca\u00e7\u00e3o que navegamos.<\/p>\n<p>Um dos contos \u00e9 \u201cO Cabalista Tardio\u201d, onde as li\u00e7\u00f5es de Franz Kafka assumem o espectro de um conselheiro, um acompanhante em pra\u00e7as p\u00fablicas. L\u00e1 est\u00e1 o sopro do desespero contido que se apresenta no tom cl\u00e1ssico e enxuto da linguagem. L\u00e1 est\u00e1 a \u00e9tica de escrever por necessidade, jamais para fazer carreira. L\u00e1 est\u00e1 o personagem diante da morte, que se socorre no seu ancestral liter\u00e1rio, iluminador de uma liberdade fecunda e dolorosa. Em \u201cQuando Fulg\u00eancio foi Papai Noel\u201d, temos a reconstru\u00e7\u00e3o da identidade perdida da inf\u00e2ncia, da comunidade destru\u00edda mais pela inc\u00faria da burocracia do que pelo tempo. Esse resgate \u00e9 feito com a plena consci\u00eancia de que inventamos a inf\u00e2ncia, mas que, se n\u00e3o fizermos isso, estaremos condenados \u00e0 pior das mortes, ao esquecimento de n\u00f3s pr\u00f3prios. \u00c9 para reencontrar-se que o autor experimenta a epifania de sua g\u00eanese. Esta, n\u00e3o surge do acaso ou do nada, mas da viv\u00eancia, com suas ruas antigas, a fam\u00edlia quebrada e amorosa, a fantasia que medra em folhas breves e caules firmes.<\/p>\n<p>E na obra-prima que \u00e9 \u201cObsessivos-compulsivos\u201d, Emanuel faz a ponte entre a trag\u00e9dia pessoal de um ser ag\u00f4nico, com a vida que n\u00e3o se conforma com o aniquilamento. Luta v\u00e3, essa de palavras, dir\u00e3o, mas isso \u00e9 s\u00f3 mais uma ilus\u00e3o, talvez a pior a qual podemos nos submeter. O velho que se apaixona pela loira da joalheria e a segue como um man\u00edaco enquanto imagina explodir tudo \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o dessa pena perp\u00e9tua duplamente qualificada, tanto por parte do destino, quanto por parte dos contempor\u00e2neos. \u00c9 para alertar os vivos sobre a verdadeira morte (a indiferen\u00e7a, pura e simples) que Emanuel assesta suas baterias de insurg\u00eancia. N\u00e3o que essa batalha nos conforte com sua inutilidade, mas exatamente porque a luta reacende o que nos disseram estar morto.<\/p>\n<p>Em \u201cO grande amor da sua vida\u201d, que fecha o volume, Emanuel reata os fios soltos desse crime a que chamamos exist\u00eancia. A paix\u00e3o da juventude volta no momento terminal para dar seu recado: enquanto estivermos vivos (e \u00e9 bom lembrar que somos, sim, eternos) precisamos n\u00e3o nos conformar com qualquer forma de condena\u00e7\u00e3o. Para obter alguma resultado, \u00e9 preciso fazer como Emanuel: desenvolver at\u00e9 a insanidade os recursos de uma literatura que se liberta, tanto pela viol\u00eancia de estar vivo, quanto pelo amor (virado ao avesso) ao semelhante. E, principalmente, pela dureza dos esp\u00edritos que n\u00e3o fazem concess\u00f5es na hora de escrever, aqueles que ficam misturados \u00e0s salas de espera, mas s\u00e3o os verdadeiros talentos que permanecem.<\/p>\n<p>Mist\u00e9rio e gra\u00e7a suprema: para isso foram feitos e de sua t\u00eampera se abastece o mundo onde podemos enfim viver.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Emanuel Medeiros Vieira, com 16 livros publicados, em &#8220;Os Hippies Envelhecidos&#8221; (UFSC, 100 p\u00e1ginas), de 2002, encontra o lugar sagrado do equil\u00edbrio entre mem\u00f3ria e literatura, entre inven\u00e7\u00e3o e resgate. 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