{"id":1021,"date":"2009-12-14T23:06:12","date_gmt":"2009-12-15T01:06:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1021"},"modified":"2009-12-21T22:07:33","modified_gmt":"2009-12-22T00:07:33","slug":"em-busca-da-graca","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/em-busca-da-graca","title":{"rendered":"EM BUSCA DA GRA\u00c7A"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\"><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\">O Brasil perdeu a gra\u00e7a. Basta ler alguns cr\u00edticos de cinema. A viol\u00eancia com as palavras chega ao n\u00edvel da viol\u00eancia f\u00edsica. Perdemos a gra\u00e7a porque perdemos a inoc\u00eancia, n\u00e3o a inoc\u00eancia \u00fatil, ou algum estado de imbecilidade pr\u00e9-natal. Perdemos a inoc\u00eancia do esp\u00edrito desarmado, a que se abre ao Outro sem m\u00e1-f\u00e9 ou disputa. \u00c9 por isso que lamento chegar tarde aos textos sobre cinema, j\u00e1 que s\u00f3 vejo dvd, expulso que fui das salas de proje\u00e7\u00e3o, muito distantes aqui de casa ou imposs\u00edveis de aturar devido \u00e0 presen\u00e7a da multid\u00e3o de engra\u00e7adinhos (os perversos que embarcam nas distor\u00e7\u00f5es da com\u00e9dia). Gostaria de fazer justi\u00e7a no bate-pronto, desmascarando a falta de ju\u00edzo sobre obras como Onde anda voc\u00ea (2004), do cineasta maior Sergio Rezende. Teve gente que n\u00e3o viu sentido no filme, tentando desqualificar o autor e sua equipe para o humor. Mas Rezende acerta no veio e \u00e9 dever nosso dizer porqu\u00ea.<br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\">Lembro um show que vi com o mutante Arnaldo Dias Batista. Ele estava quase vestido de Chaplin e sua performance, po\u00e9tica e hilariante em alguns momentos, era sempre pontuada por um agradecimento ao p\u00fablico muito parecido ao de Calvero, o personagem de Chaplin, no imortal Luzes da Ribalta, quando apresentava seu n\u00famero com pulgas amestradas imagin\u00e1rias. A com\u00e9dia, especialmente a radical, como nesse filme de Chaplin, \u00e9 um g\u00eanero da poesia e costuma sofrer da mesma incompreens\u00e3o.<br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\">Rezende se serve de amplo acervo cultural, de dentro e fora do pa\u00eds, do cinema \u00e0 m\u00fasica, para contar uma viagem \u00e0s origens da gra\u00e7a perdida no pa\u00eds dominado pela brutalidade televisiva. Para isso, contou com a ajuda essencial do roteirista Leopoldo Serran, que desdobrou o argumento do pr\u00f3prio diretor, e de atores fundamentais como Juca de Oliveira, Jos\u00e9 Wilker e Jos\u00e9 Dumont, e coadjuvantes maravilhosos, como Jos\u00e9 Vasconcelos (no papel dele mesmo, uma refer\u00eancia ao humor que foi para o buraco negro) Paulo C\u00e9sar Pereio (n\u00e3o haveria cinema brasileiro sem Pereio), Castrinho (perfeito no personagem Mirandinha), Drica Moraes (o retrato da grande perda), e o jovem casal Tiago Moraes e Regiane Alves. Al\u00e9m de Aramis Trindade, o foco da narrativa, pois seu Bocapura (a pureza oculta) \u00e9 alta cria\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica pelo ritmo, pela complexidade e pelo acerto do personagem (Aramis foi tamb\u00e9m consultor de com\u00e9dia nesta obra).<br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\">A viagem parte do sufoco paulistano (onde s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel vida na mesa entre amigos ou no passeio da madrugada) para a branca areia do Cear\u00e1, representa\u00e7\u00e3o da inoc\u00eancia intocada e necess\u00e1ria. O impulso \u00e9 dado pela exclus\u00e3o, a do comediante que teve seus dias de gl\u00f3ria e que, ao perder o grande amor e o parceiro, pretende retomar a vida buscando um novo companheiro da sua aventura profissional. \u00c9 um filme explicitamente terminal, no sentido de que a procura \u00e9 pontuada pelos vest\u00edgios de um pa\u00eds em ru\u00ednas, que assomam em sobreviventes (Dummont, absolutamente genial como sempre) ou condenados em busca da esperan\u00e7a (Juca de Oliveira, o ator que sobra em experi\u00eancia e talento).<br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\">A viagem \u00e9 contaminada pela culpa, j\u00e1 que Juca de Oliveira, o Fel\u00edcio de outrora, n\u00e3o perdoou a trai\u00e7\u00e3o entre seu ex-amigo e a mulher que tanto amava. Essa culpa convive com a vontade de n\u00e3o morrer, mas o destino (a morte iminente que \u00e9 fruto de um cora\u00e7\u00e3o exausto, a perda total da na\u00e7\u00e3o sem gra\u00e7a) acaba se impondo. Contar essa hist\u00f3ria significa recuperar o sentimento provocado por m\u00fasicas inesquec\u00edveis (Tom Jobim, Brahms, Pepino de Capri), filmes imortais (Fellini, Mario Monicelli, Chaplin, o eterno cinema da Atl\u00e2ntida).<br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\">N\u00e3o \u00e9 pouca coisa para um filme que passou despercebido e que hoje, apesar de t\u00e3o recente, dorme nas prateleiras das locadoras expondo seus enigmas. O mist\u00e9rio \u00e9 como Sergio Rezende consegue colocar na tela o que perdemos para sempre. Seu instrumento n\u00e3o \u00e9 a saudade, mas a busca arqueol\u00f3gica de um perfil nacional soterrado pela inc\u00faria. Descobre o quanto sobrevive o Brasil que nos criou e formou e foi assassinado nas esquinas do tempo.<br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\">Gostar do que somos \u00e9 uma esp\u00e9cie de an\u00e1tema. Parece que temos vergonha do pa\u00eds. E pior: fica claro, pela postura que os cr\u00edticos assumiram diante dessa obra (considerado maravilhoso na sua estr\u00e9ia, pelo p\u00fablico no Festival de Miami), que pretendem colocar Rezende numa esp\u00e9cie de gaveta de um g\u00eanero \u00fanico. Ele seria um &#8220;especialista&#8221; em filmes hist\u00f3ricos, como Canudos, Lamarca, Mau\u00e1, Zuzu Angel, e n\u00e3o o que realmente \u00e9: um artista completo, m\u00faltiplo, com pleno dom\u00ednio do seu of\u00edcio.<br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\">Quando falarem mal de S\u00e9rgio Rezende, podem contar: eu fecho os punhos e parto para a briga. O Brasil leva d\u00e9cadas para gerar um cineasta como ele. Deveria ser mais admirado do que \u00e9 e festejado por sua absoluta transpar\u00eancia, sua capacidade de criar imagens fi\u00e9is ao que precisamos continuar sendo, sob pena de morrermos como na\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil perdeu a gra\u00e7a. Basta ler alguns cr\u00edticos de cinema. A viol\u00eancia com as palavras chega ao n\u00edvel da viol\u00eancia f\u00edsica. Perdemos a gra\u00e7a porque perdemos a inoc\u00eancia, n\u00e3o a inoc\u00eancia \u00fatil, ou algum estado de imbecilidade pr\u00e9-natal. Perdemos a inoc\u00eancia do esp\u00edrito desarmado, a que se abre ao Outro sem m\u00e1-f\u00e9 ou disputa. \u00c9 por isso que lamento chegar tarde aos textos sobre cinema, j\u00e1 que s\u00f3 vejo dvd, expulso que fui das salas de proje\u00e7\u00e3o, muito distantes aqui de casa ou imposs\u00edveis de aturar devido \u00e0 presen\u00e7a da multid\u00e3o de engra\u00e7adinhos (os perversos que embarcam nas distor\u00e7\u00f5es da com\u00e9dia). Gostaria de fazer justi\u00e7a no bate-pronto, desmascarando a falta de ju\u00edzo sobre obras como Onde anda voc\u00ea (2004), do cineasta maior Sergio Rezende. Teve gente que n\u00e3o viu sentido no filme, tentando desqualificar o autor e sua equipe para o humor. 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