{"id":1027,"date":"2009-12-14T23:45:02","date_gmt":"2009-12-15T01:45:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1027"},"modified":"2009-12-20T23:49:16","modified_gmt":"2009-12-21T01:49:16","slug":"o-que-molha-e-nao-e-agua","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-que-molha-e-nao-e-agua","title":{"rendered":"O QUE MOLHA E N\u00c3O \u00c9 \u00c1GUA"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<strong>Nei Ducl\u00f3s <\/strong><br \/>\nVida vidinha \u00e9 assim: h\u00e1 tanto Deus, que Deus transborda. Acaba virando fonte, que s\u00e3o as chances oferecidas por Ad\u00e9lia Prado \u00e0 visita do gentio (os que n\u00e3o fazem parte do seu universo). O leitor vai da sala para o fog\u00e3o, do quintal para o enterro, da reza para a impreca\u00e7\u00e3o. \u00c9 a comunh\u00e3o com criaturas que se fartam de religi\u00e3o e vivem na solid\u00e3o de seus pecados, indiz\u00edveis. Ad\u00e9lia Prado rompeu esse sil\u00eancio com sua poesia \u00fanica, que impregnou a literatura do que mais lhe faltava: a mulher mesmo, e n\u00e3o o ap\u00eandice l\u00edrico do devaneio noturno. Hoje fica f\u00e1cil enxergar o que uma brasileira sabe sobre Deus e o mundo, j\u00e1 lemos e relemos Ad\u00e9lia Prado. \u00c9 o que se pode dizer uma poesia cl\u00e1ssica: voltamos a ela sempre que perdemos o rumo da nacionalidade. A poeta nos traz de volta ao Brasil profundo, n\u00e3o o que a geografia ou a Hist\u00f3ria mostra, mas o que um corpo s\u00e1bio experimenta.<br \/>\nEsse humano t\u00e3o real parece inventado. Como pode uma ditadura t\u00e3o longa acabar com a visita do casal de compadres, cercado de filhos, aos domingos? N\u00e3o foi o tempo que fez esse estrago, foi a pol\u00edtica e sua companheira sinistra, a economia. Arrebentaram com a fam\u00edlia, n\u00e3o porque ela tinha mesmo que morrer devido \u00e0s modernidades, mas porque foi feito tudo de prop\u00f3sito. Para come\u00e7ar, n\u00e3o h\u00e1 mais cal\u00e7adas. Como crian\u00e7as poderiam brincar em cal\u00e7adas em visitas dominicais se tudo \u00e9 tomado pela sujeira, o barulho e a viol\u00eancia? Tamb\u00e9m as casas que duravam gera\u00e7\u00f5es sumiram. Hoje \u00e9 feio imaginar uma casa assim t\u00e3o antiga, a n\u00e3o ser que seja para a exibir recauchutada em revista de moda como exemplo de reciclagem politicamente correta.<br \/>\nCasas antigas, daquelas que tinham retratos ovais de homens e mulheres de rostos s\u00e9rios, de beb\u00eas sorridentes com topete em cima, s\u00e3o dif\u00edceis de encontrar. N\u00e3o \u00e9 saudade que nos move em dire\u00e7\u00e3o a esse pa\u00eds desinventado, mas desconforto. Destru\u00edmos o pa\u00eds mas ficaram as ru\u00ednas, onde est\u00e1 a poeta com sua palavra no ermo. Seu tema seriam as in\u00fateis e sagradas paisagens pastoris e de sub\u00farbio que cercam as pessoas de cama, mesa e fog\u00e3o? Dif\u00edcil enquadrar a poeta, que roda pela palavra com a circunavega\u00e7\u00e3o das s\u00edlabas em forma perfeita (&#8220;a poesia \u00e9 pura compaix\u00e3o&#8221;), a palavra sem a beleza compactuada, maravilhosa como a cigarra que se gruda na \u00e1rvore e tem vidro mo\u00eddo no peito. Tudo isso ela faz sem pose, sem for\u00e7ar a barra. Tudo soa natural porque h\u00e1 um rio profundo nesse encontro primal entre a criadora e sua obra.<br \/>\nO que molha e n\u00e3o \u00e9 \u00e1gua \u00e9 o amor, que ela coloca no altar, acima de Deus, que pode se manifestar na cozinha. O amor \u00e9 o luxo que desembesta a vidinha. O sentimento faz a vida ter sentido e mesmo que tudo seja s\u00f3 rotina, quando h\u00e1 amor, mesmo esmigalhado por manifesta\u00e7\u00f5es externas brutas, h\u00e1 esperan\u00e7a e eternidade. Um recado simples proporcionado pela intensa elabora\u00e7\u00e3o do ser antes da poesia, do talento antes de escolher o poema, da inventora antes de saber-se escritora ou imaginar-se real com o livro posto.<br \/>\nVida doida, de Ad\u00e9lia Prado (Alegoria, 78 pgs.), com ilustra\u00e7\u00f5es de Ana Viola, que faz parte da cole\u00e7\u00e3o Palavra e Arte, \u00e9 sobre a alegria convivendo com a dor: doida, do\u00edda. \u00c9 uma antologia que nos resgata o melhor da poeta e abre as portas para uma visita aos seus supremos redutos.<\/p>\n<p><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vida doida, de Ad\u00e9lia Prado (Alegoria, 78 pgs.), com ilustra\u00e7\u00f5es de Ana Viola, que faz parte da cole\u00e7\u00e3o Palavra e Arte, \u00e9 sobre a alegria convivendo com a dor: doida, do\u00edda. \u00c9 uma antologia que nos resgata o melhor da poeta e abre as portas para uma visita aos seus supremos redutos.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1027"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1027"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1027\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1497,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1027\/revisions\/1497"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1027"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1027"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1027"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}