{"id":103,"date":"2005-05-13T21:41:56","date_gmt":"2005-05-13T23:41:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=103"},"modified":"2009-12-20T22:47:07","modified_gmt":"2009-12-21T00:47:07","slug":"tia-ceci-e-os-discos-voadores","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/tia-ceci-e-os-discos-voadores","title":{"rendered":"TIA CECI E OS DISCOS VOADORES"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O tempo confirmou duas profecias de Tia Ceci. &#8220;As esta\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o mais as mesmas&#8221; dizia ela nos anos 50, caminhando a esmo pela casa e com o olhar fixo em algum lugar. &#8220;Isso \u00e9 coisa dos russos e dos americanos, que ficam lan\u00e7ando bomba at\u00f4mica&#8221;. A interfer\u00eancia do homem nos eternos (pelo menos at\u00e9 essa data) ciclos do tempo, era uma novidade expl\u00edcita demais para o resto dos mortais captarem. Morava conosco porque tinha sa\u00eddo de um casamento melanc\u00f3lico com o conhecido Sapato Perfumado, vendedor ambulante de cal\u00e7ados femininos.<\/p>\n<p>Judiava de minha m\u00e3e colocando bem alto os tangos de Gardel transmitidos pela r\u00e1dio da cidade fronteiri\u00e7a, do outro lado do rio Uruguai, a General Madariega de Paso de Los Libres . &#8220;A Ceci n\u00e3o sabe o que faz comigo tocando essas m\u00fasicas da minha juventude&#8221;, suspirava Dona Rosinha. As duas eram parte de uma fam\u00edlia de quatro irm\u00e3s (as outras eram Sara e Maria) e um irm\u00e3o, o Tio Nico, dono de vasto restaurante no centro da cidade. Todos \u00f3rf\u00e3os prematuros, descendiam, por parte de pai, de propriet\u00e1rios de terras empobrecidos, e de m\u00e3e, de imigrantes italianos, os Molinari, fam\u00edlia que possu\u00eda prestigiada farm\u00e1cia no centro da cidade. Tia Ceci tornara-se a vitrine da excentricidades de todos. Na vanguarda dos acontecimentos, era a primeira a sair difundindo as novidades mais secretas da casa para toda a vizinhan\u00e7a. Mas n\u00e3o estava isolada entre as que destoavam da normalidade. Tia Sarinha apaixonara-se por Perachi Barcellos, o futuro governador do Rio Grande do Sul no per\u00edodo militar e na \u00e9poca coronel da Brigada. &#8220;O Perachi \u00e9 t\u00e3o lindo!&#8221; exclamava ela nas noites conturbadas da v\u00e9spera do Natal.<\/p>\n<p>Tia Maria era professora e quando morreu descobriu-se no quarto do hotel onde morava uma pilha de vidros e caixas de papel\u00e3o, todos com tampa: &#8220;Vou guardar&#8221;, costumava dizer. &#8220;Um dia posso precisar&#8221;. Mas quem levava a fama era Ceci. De camisol\u00e3o pela casa, era o retrato daquelas personagens das antigas fam\u00edlias, que ficavam no desvio da vida e acabavam dizendo o que provocava riso nos outros.<\/p>\n<p>Outra percep\u00e7\u00e3o importante foi a dos discos voadores. &#8221; Os marcianos n\u00e3o existem&#8221;, avisava. &#8220;S\u00e3o os russos e os americanos que fazem essas coisas e n\u00e3o contam para ningu\u00e9m&#8221;. Hoje, quando vejo os programas especiais do Discovery Channel, provando que os prot\u00f3tipos de projetos ultra-secretos da for\u00e7as a\u00e9reas da R\u00fassia e Estados Unidos s\u00e3o confundidos com obra de alien\u00edgenas pela popula\u00e7\u00e3o desinformada, n\u00e3o deixo de lembr\u00e1-la. Fa\u00e7o tardiamente justi\u00e7a para aquela que abriu o olho diante do inusitado, e soube revelar a verdadeira natureza dessa armadilha: tratava-se da realidade pura e simples, que ficava oculta por falta de clareza dos contempor\u00e2neos. Os mist\u00e9rios no fim sucumbiram diante do ceticismo de uma pessoa que sabia da sua origem italiana, mas fazia quest\u00e3o de ser a mais brasileira das criaturas. angue italiano que vivia lembrando Mussolini. Era por ter sido rodeada de m\u00e3e e tias cultivadoras de uvas e sotaque carregado que implicava com os Aliados da extinta II Guerra. Mas ocupava, na cena brasileira da minha casa &#8211; onde girava enorme plantel de personagens de todos os tipos &#8211; o papel que cabia aos agregados.<\/p>\n<p>No fundo, pertencia No fundo, pertencia a uma outra fam\u00edlia, a das que assumem totalmente sua humanidade, expondo-se a todos os riscos dessa situa\u00e7\u00e3o. Por isso, n\u00e3o deixava d\u00favidas sobre suas prefer\u00eancias. N\u00e3o gostava, por exemplo, de cozinhar. Quando era obrigada, cumpria a fun\u00e7\u00e3o, mas ao sair da cozinha respondia, para quem quisesse saber o card\u00e1pio: &#8211; Fiz arroz com bolinhos de arroz. Quem quiser, que coma.<br \/>\n\u00a9 Nei Ducl\u00f3s &#8211; todos os direitos reservados<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Os marcianos n\u00e3o existem&#8221;, avisava. &#8220;S\u00e3o os russos e os americanos que fazem essas coisas e n\u00e3o contam para ningu\u00e9m&#8221;. 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