{"id":1033,"date":"2009-12-15T00:49:06","date_gmt":"2009-12-15T02:49:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1033"},"modified":"2009-12-21T21:32:28","modified_gmt":"2009-12-21T23:32:28","slug":"o-acaso-nao-faz-um-anjo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-acaso-nao-faz-um-anjo","title":{"rendered":"O ACASO N\u00c3O FAZ UM ANJO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p><\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o uso rel\u00f3gio e a noite parece intermin\u00e1vel. Mas a claridade se anuncia pela fresta da porta e bate na janela como um len\u00e7ol atirado por um anjo. Saio para a frente da casa e ainda assim permanece intacta minha d\u00favida de que de fato v\u00e1 amanhecer. \u00c9 o h\u00e1bito. S\u00f3 enxergo o dia quando ele est\u00e1 pronto e sempre perco esse momento em que o breu desiste de jogar cabra cega com a luz e vai para casa. No fim da rua, o fole da manh\u00e3 insufla a rubra p\u00e1tina sobre as nuvens esparsas, que tomam conta do c\u00e9u sem sufoc\u00e1-lo. O conjunto de algod\u00f5es agora avermelhados formam uma esp\u00e9cie de vestimenta de quem sai da cama, enquanto no horizonte o sol vai for\u00e7ando a barra, e meu olhar coadjuvante prende a respira\u00e7\u00e3o, como um olhar da inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 uma s\u00fabita tr\u00e9gua para que o fundo do c\u00e9u, com consist\u00eancia de p\u00e9rola, disponha aqui e ali algumas nuvens levemente roxas, acompanhadas do resto do tropel inicial de algod\u00f5es, agora conformados em creme. O sol parece estar com pregui\u00e7a. Prefere brincar de fazer o dia antes mesmo de levantar-se como um gigante no abismo. Aguardo o momento enquanto escuto a timidez dos p\u00e1ssaros. H\u00e1 pios por enquanto, nenhum grasnar mais consistente, como se toda a cria\u00e7\u00e3o estivesse no ninho e houvesse imita\u00e7\u00e3o, por parte das criaturas, da atitude solar ainda espesso em cobertas invis\u00edveis e em pouco instantes, in\u00fateis.<\/p>\n<p>\u00c9 que o sol, antes de despertar totalmente, conversa com um anjo e as aves escutam. Estavam assim todos &#8211; c\u00e9u, nuvem, sol, plumas &#8211; ao redor dos segredos trocados em mi\u00fados, pelo gigante antes de lan\u00e7ar-se ao alto, e o anjo, especialista em amanhecer. H\u00e1 demora na interlocu\u00e7\u00e3o que come\u00e7ara quando eu ainda imaginava ser infinita a noite, naqueles minutos que antecederam o milagre. Desta vez, havia demora porque o brilho do anjo estava desenhado para revela\u00e7\u00f5es mais densas. O sol escuta enquanto vai levantando aos poucos a cobertura depositada pelo sereno, a essa altura j\u00e1 seco em suas fontes mais \u00edntimas. Havia manh\u00e3, e a interven\u00e7\u00e3o humana j\u00e1 se fazia sentir pelo ronco da estrada ao longe. Mas havia tamb\u00e9m a possibilidade de a conversa se estender um pouco mais, como se Deus permitisse semelhante abuso, j\u00e1 que corria-se o risco de um atraso nos rel\u00f3gios de prontid\u00e3o suprema.<\/p>\n<p>Claro que jamais saberei o que se passou entre o anjo e o sol, mas posso adivinhar. \u00c9 como conversa de port\u00e3o logo depois da ordenha. Ou conversa de vizinhos sitiantes antes de come\u00e7ar a lida. O visitante \u00e9 o anjo que se debru\u00e7a sobre o muro e orienta seu rosto que parece impass\u00edvel, mas \u00e9 pura concentra\u00e7\u00e3o de espelhos, res\u00edduos de tesouros brancos em grutas de m\u00e1rmore. Ele nos enxerga enquanto diz algo que agora entendemos perfeitamente. Ele conta, aparentemente, uma hist\u00f3ria banal, mas nas entrevozes escutamos a lenda da cria\u00e7\u00e3o j\u00e1 resolvida, do dia pronto antes que o sol se mexa, do h\u00e1bito que faz a senda, da estrela que n\u00e3o s\u00f3 anuncia, mas encarna o que traz de longe. Por isso talvez o sol tenha se deixado ficar enquanto o dia se manifestava com seus acordes.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe acaso quando, no forro desse repasse de for\u00e7as, acontece um anjo que proclama. Escuto a conversa de ouvido suspenso. Tento decifrar o mist\u00e9rio. Sigo o rastro deixado pela luz e os p\u00e1ssaros. Mas o sol, bruto com sua carruagem de fibras, j\u00e1 come\u00e7a a cavalgar a manh\u00e3 que tardava. Nada mais h\u00e1 a dizer do que bom-dia, que repetimos sem cessar nas horas seguintes. Trazemos guardado na dobra do rosto esse sopro, do anjo que segreda ao sol a cria\u00e7\u00e3o antes da planta, da anima\u00e7\u00e3o antes do bicho, do cora\u00e7\u00e3o antes da prosa. Estamos dobrados em volta de n\u00f3s como a asa desse anjo improv\u00e1vel, mas n\u00edtido, gra\u00e7as ao pacto que faz entre o despertar e a poesia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O sol, antes de despertar totalmente, conversa com um anjo e as aves escutam. Estavam assim todos &#8211; c\u00e9u, nuvem, sol, plumas &#8211; ao redor dos segredos trocados em mi\u00fados, pelo gigante antes de lan\u00e7ar-se ao alto, e o anjo, especialista em amanhecer. 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