{"id":1036,"date":"2009-12-15T00:55:43","date_gmt":"2009-12-15T02:55:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1036"},"modified":"2009-12-21T20:27:10","modified_gmt":"2009-12-21T22:27:10","slug":"o-genio-em-plena-forma","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-genio-em-plena-forma","title":{"rendered":"O G\u00caNIO EM PLENA FORMA"},"content":{"rendered":"<p><em>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p><\/em><\/p>\n<p>Fiquei me perguntando por que <em>A Filha de Ryan<\/em>, de David Lean, incomoda, j\u00e1 que n\u00e3o fez sucesso e foi malhado ou ignorado pela cr\u00edtica, na \u00e9poca (1970; depois cai a ficha e todos se arrependem, mas a\u00ed o estrago est\u00e1 feito). Carreguei meus arquivos cinematogr\u00e1ficos. Robert Mitchum fazia parte de uma linhagem de &#8220;mocinhos&#8221;, ou seja, her\u00f3is dos filmes de Hollywood. Na guerra (The Longest Day), no faroeste, nos filmes de amor. Com algumas exce\u00e7\u00f5es, como seu inesquec\u00edvel papel num filme dark em que ele fazia o papel de um assassino. Mas Mitchum encarnava esse prot\u00f3tipo que rege os filmes. H\u00e1 sempre um her\u00f3i incontest\u00e1vel. V\u00ea-lo como um professor sem express\u00e3o, no litoral perdido da Irlanda, casado com mulher muito mais jovem que pensa em outra coisa, v\u00ea-lo abaixar a crista pra a viol\u00eancia, apesar de tentar (para defender a pr\u00f3pria honra) enfrentar a turba, \u00e9 forte demais para o espectador e a cr\u00edtica acostumados a clich\u00eas.<\/p>\n<p>CORAGEM &#8211; Lean subverteu tudo. A protagonista \u00e9 mulher, n\u00e3o o &#8220;mocinho&#8221;. A mulher n\u00e3o \u00e9 hero\u00edna tradicional, fundada na pseudovirtude, mas na imagina\u00e7\u00e3o e na coragem. O filme rompe com v\u00e1rias id\u00e9ias fixas e atormenta o espectador com aquela paix\u00e3o s\u00fabita, entre pessoas em lugares opostos. H\u00e1 algo de trag\u00e9dia shakespeareana nisso, pois o Romeu ingl\u00eas conquista a Julieta irlandesa, provocando a ira da massa. N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para o amor em tempo de guerra, mas ele assim mesmo se manifesta, e pelo avesso, quando a repress\u00e3o \u00e9 muita. No fim, Sarah Miles est\u00e1 s\u00f3 com seu destino. N\u00e3o pertence ao lado que a violentou ao conden\u00e1-la, nem ao que a violentou ao possu\u00ed-la . Eis o momento em que se manifesta o humano, longe de toda a regra social. A Filha de Ryan \u00e9 um filme perturbador porque v\u00ea poesia onde h\u00e1 profunda transgress\u00e3o e denuncia a press\u00e3o sobre o indiv\u00edduo (o professor amarrado, o soldado louco, o palha\u00e7o demente, homens e mulheres em f\u00faria). \u00c9 sobre o indiv\u00edduo, mais do que sobre o g\u00eanero. No fundo, todos s\u00e3o v\u00edtimas (da opress\u00e3o, da ignor\u00e2ncia, da guerra), mas s\u00f3 a protagonista assume toda a carga.<\/p>\n<p>CENA &#8211; Minha cena favorita \u00e9 quando a filha de Ryan est\u00e1 esperando o \u00f4nibus para partir, ao lado de John Mills. \u00c9 quando o chap\u00e9u voa para o alto. Sara Miles faz aquela express\u00e3o de espanto e abandono. \u00c9 apenas um segundo, mas inesquec\u00edvel. \u00c9 o que mais me marca na mem\u00f3ria desse maravilhoso filme. Sem chap\u00e9u, fica vis\u00edvel a viol\u00eancia que sofreu quando lhe cortaram o cabelo. \u00c9 seu momento de fuga, despedida, de uma comunidade hostil. O vento a decifra, a torna transparente. \u00c9 ela inteira que assoma naquele momento. \u00c9 com isso que ela conta agora. S\u00f3, ao lado da Inoc\u00eancia (o louco manco e feio ao seu redor), ela exp\u00f5e a culpa de quem a violentou. Sua solid\u00e3o \u00e9 seu trunfo. Sua individualidade quebrada, mas digna. \u00c9 de fazer chorar as pedras.<\/p>\n<p>VIOL\u00caNCIA &#8211; O professor \u00e9 a Toler\u00e2ncia. Robert Mitchum, esse ator de primeira linha, navega no filme com seu andar \u00fanico. Se diferencia do resto, alde\u00f5es brutalizadois pelo trato com a paisagem (a \u00e1rdua sobreviv\u00eancia em meio \u00e0 f\u00faria do mar). O professor \u00e9 a compreens\u00e3o gerada pela cultura, ao contr\u00e1rio da espontaneidade da vida comunit\u00e1ria confinada em ambiente hostil. Mas ele tamb\u00e9m faz parte da opress\u00e3o, mesmo se diferenciando dela. Sua Toler\u00e2ncia tem tamb\u00e9m esse lado de conv\u00edvio com a viol\u00eancia. Seu andar compassivo, seu rosto impass\u00edvel, seu sil\u00eancio significam degredo para a esposa, que procura uma sa\u00edda, uma janela, na aventura amorosa. A farda \u00e9 a ruptura da Mesmice, o conflito e o arrebatamento. Contra esse envolvimento, a comunidade se joga contra ela a partir do sinal dado pela Inoc\u00eancia contaminada pela Frustra\u00e7\u00e3o (o louco que sabe que nunca a ter\u00e1, por isso a entrega de bandeja para os carrascos). A den\u00fancia n\u00e3o \u00e9 feita com palavras, pois o delator \u00e9 mudo. Mas por meio de uma caricatura: a imita\u00e7\u00e3o do gesto e da roupa do militar, nesse momento citado por voc\u00ea, em que o Grotesco assume a fei\u00e7\u00e3o do Horror.<\/p>\n<p>PLANOS &#8211; Mesmo sendo um filme \u00e9pico na paisagem, em que o Plano Geral parece ser hegem\u00f4nico na narrativa, ele se define em Primeiro Plano, transformando-se numa contraposi\u00e7\u00e3o de rostos transfigurados pelo drama: a cara do idiota, a express\u00e3o do professor, o susto da mulher e as faces crispadas dos opressores. No fundo, o mundo exterior, a Paisagem em movimento permanente, expressa o terremoto interno das personagens. David Lean, o G\u00eanio em plena forma.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Filha de Ryan \u00e9 um filme perturbador porque v\u00ea poesia onde h\u00e1 profunda transgress\u00e3o e denuncia a press\u00e3o sobre o indiv\u00edduo (o professor amarrado, o soldado louco, o palha\u00e7o demente, homens e mulheres em f\u00faria). \u00c9 sobre o indiv\u00edduo, mais do que sobre o g\u00eanero. 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