{"id":1045,"date":"2009-12-17T15:21:36","date_gmt":"2009-12-17T17:21:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1045"},"modified":"2009-12-21T20:48:11","modified_gmt":"2009-12-21T22:48:11","slug":"a-ceia-de-tia-sarinha","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-ceia-de-tia-sarinha","title":{"rendered":"A CEIA DE TIA SARINHA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p><\/strong><\/p>\n<p>Todo ano Tia Sarinha ficava num canto da ceia do Natal e falava tudo o que lhe vinha \u00e0 cabe\u00e7a. Era um pilequinho tradicional, diz\u00edamos, mas hoje vejo que sua presen\u00e7a significava mais alguma coisa. Tia Sarinha tinha o rosto das fotos antigas, daqueles emoldurados com cabelos pretos, blusa abotoada at\u00e9 o pesco\u00e7o, uma pinta no rosto, que nunca sab\u00edamos se era de verdade ou enfeite. Trazia os olhos puxados de uma ancestralidade \u00edndia e o rosto liso e branco da ascend\u00eancia italiana.<\/p>\n<p>V\u00edamos Tia Sarinha uma vez por ano, exatamente na v\u00e9spera de Natal, quando cruz\u00e1vamos a meia noite com os ingredientes tradicionais, do peru \u00e0s nozes. Quando muito pequenos, nos encantavam tamb\u00e9m algumas inven\u00e7\u00f5es caseiras, como o guaran\u00e1 na salada de frutas. Enquanto avan\u00e7\u00e1vamos na idade, mais pr\u00f3ximos fic\u00e1vamos do pileque natalino que era marca registrada da Tia Sarinha. Experiment\u00e1vamos o malte forte de um u\u00edsque trazido em grandes caixas e bastavam duas doses para come\u00e7armos a fazer e a dizer bobagens.<\/p>\n<p>Mas isso s\u00f3 acontecia depois que cruz\u00e1vamos outros ritos de passagem, como entrar no gin\u00e1sio, dan\u00e7ar no primeiro baile, ficar sozinho no acampamento da pescaria. O Natal era a celebra\u00e7\u00e3o de nossas pequenas conquistas e meu pai juntava toda a fam\u00edlia para que pud\u00e9ssemos ver o que t\u00ednhamos vivido em cada ano. Ou, pelo menos, \u00e9 assim que eu gosto de entender agora, depois que todos eles se foram, essa gera\u00e7\u00e3o desassombrada de brasileiros que pegou o pa\u00eds na carro\u00e7a e nos devolveu no avi\u00e3o.<\/p>\n<p>Tia Sarinha morava em Porto Alegre e era lotada em Pal\u00e1cio, como se dizia, fazia parte dos quadros do Piratini. Quando ficava alta gostava de brincar com a estampa, que encantava as mulheres, de determinado governador. Era uma forma debochada de ver o pr\u00f3prio trabalho, e n\u00f3s rol\u00e1vamos de rir. Ganh\u00e1vamos assim o combust\u00edvel da mesma anedota para o resto do ano: a tia que comentava o emprego burocr\u00e1tico e se divertia \u00e0 custa dos sobrinhos e outros parentes na casa da sua irm\u00e3 rodeada de filhos.<\/p>\n<p>Tia Sarinha apresentava-se solit\u00e1ria, com a aura dos esp\u00edritos independentes. Sua vida pessoal era um segredo bem guardado para n\u00f3s, sobrinhos menores que n\u00e3o compartilh\u00e1vamos jamais qualquer detalhe do mundo adulto. Nunca soube quase nada dela. Foi casada, separou-se ou enviuvou, depois morava s\u00f3 ou com amigas fi\u00e9is. Reservada, tinha um relacionamento distante, quase frio, com a crian\u00e7ada que via de vez em quando. Mas toda essa carapu\u00e7a ca\u00eda por terra quando, depois do vinho, da cerveja e at\u00e9 mesmo do u\u00edsque, ela se punha a matraquear a fala recorrente nas ceias de Natal.<\/p>\n<p>Enquanto todos eram mais ou menos bem comportados, Tia Sarinha se destacava pela extrema liberdade de dizer naquela hora o que imaginava ser importante. Nem lembro exatamente quais os assuntos que ela abordava, mas o importante \u00e9 que era a \u00fanica voz dissonante num mundo que eu acreditava imut\u00e1vel, eterno. No fundo, talvez, Tia Sarinha queria nos alertar para o que viria depois. Passando sua vida dentro do Pal\u00e1cio, no miolo dos acontecimentos principais do estado, vendo como o pa\u00eds evolu\u00eda da agita\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura, Tia Sarinha soltava seu verbo nas noites de Natal para dizer que tudo o que nos rodeava era prec\u00e1rio, escasso e teria fim algum dia.<\/p>\n<p>Ela fazia parte de uma fam\u00edlia que teve a amarga experi\u00eancia na inf\u00e2ncia de ficar \u00f3rf\u00e3 de pai. Por isso possu\u00eda a aridez dos esp\u00edritos que muito cedo precisavam se cristalizar em alguma frieza para sobreviver. Quando chegava o Natal, separada de todos, num canto da mesa que lhe pertencia por tradi\u00e7\u00e3o, ao lado de seu copo que entornava s\u00f3 nessa ocasi\u00e3o, ela era a c\u00e1lida voz de uma \u00e9poca que se despedia. \u00c9ramos pequenos demais para saber disso. Apenas a v\u00edamos com suas excentricidades.<\/p>\n<p>Mas ela fazia parte do Tempo que mostrava a cara: distante, de rosto duro e com uma aura de tristeza. S\u00f3 mesmo o Natal para romper com aquele velado sofrimento. Era quando Tia Sarinha escancarava o que tinha de melhor. Sua personalidade cheia de verve, com tiradas inesquec\u00edveis, marcou profundamente os Natais da minha inf\u00e2ncia. Aqueles que n\u00e3o voltam, porque sempre estar\u00e3o conosco.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tia Sarinha apresentava-se solit\u00e1ria, com a aura dos esp\u00edritos independentes. Sua vida pessoal era um segredo bem guardado para n\u00f3s, sobrinhos menores que n\u00e3o compartilh\u00e1vamos jamais qualquer detalhe do mundo adulto. Nunca soube quase nada dela. Foi casada, separou-se ou enviuvou, depois morava s\u00f3 ou com amigas fi\u00e9is. Reservada, tinha um relacionamento distante, quase frio, com a crian\u00e7ada que via de vez em quando. 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