{"id":1047,"date":"2009-12-17T15:22:40","date_gmt":"2009-12-17T17:22:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1047"},"modified":"2009-12-21T21:52:08","modified_gmt":"2009-12-21T23:52:08","slug":"os-anjos-resistem","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/os-anjos-resistem","title":{"rendered":"OS ANJOS RESISTEM"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><br \/>\nO espectador \u00e9 o menos privilegiado dos autores. Quase nada sobra para quem v\u00ea um filme, a n\u00e3o ser o olhar sobre o que j\u00e1 foi decidido. N\u00e3o h\u00e1 abstra\u00e7\u00e3o no cinema, diz o cineasta maior, Sergio Rezende, a mais s\u00f3lida obra do cinema brasileiro contempor\u00e2neo. Tudo tem de ser posto para ser visto. Nessa participa\u00e7\u00e3o escassa, o espectador veste a beca da percep\u00e7\u00e3o para enxergar o que por anos foi preparado, suado, criado, tirado a f\u00f3rceps, imaginado, feito, abra\u00e7ado, chorado. \u00c9 o momento de gala, quando somos convocados para que enfim o filme cumpra o seu destino. Nada mais podemos fazer, porque tudo nos \u00e9 servido de bandeja. Isso intensifica nossa responsabilidade. N\u00e3o podemos devolver ao que vemos o que temos de pior, a indiferen\u00e7a, ou o de mais prec\u00e1rio, a emo\u00e7\u00e3o que se perde j\u00e1 quando os letreiros enfim sobem. Somos respons\u00e1veis pelo filme que nos \u00e9 entregue como a carta do maratonista que morre ao cumprir a miss\u00e3o. Estourou a guerra, diz a mensagem. Convoque o que voc\u00ea tem de melhor.<br \/>\nESP\u00d3LIO &#8211; Quando o filme \u00e9 Zuzu Angel, que se soma \u00e0 galeria de grandes personagens de Rezende, junto com Mau\u00e1, Ten\u00f3rio Cavalcanti, Antonio Conselheiro, Lamarca, j\u00e1 come\u00e7amos em d\u00edvida desde o in\u00edcio. Em d\u00edvida porque Rezende traz para a tela o que \u00e9 profundamente poderoso no Brasil assassinado e que ficou f\u00e1cil de esquecer depois de d\u00e9cadas de ditadura. Para isso foi feito 1964: para abandonarmos o Brasil Soberano. Rezende vai l\u00e1 e pega de volta algo que pertence a esse esp\u00f3lio e joga a nossos p\u00e9s, jamais na cara. Rezende tem a delicadeza dos fortes, a contund\u00eancia dos bravos, o f\u00f4lego dos sobreviventes. Ele traz, com equipe formada ao redor da esmerada produ\u00e7\u00e3o de Joaquim Carvalho, n\u00e3o apenas uma personagem, que por tanto tempo ficou oculta (Zuzu Angel era um sussurro nas reda\u00e7\u00f5es contaminadas pelo medo). N\u00e3o o Brasil, que se foi para sempre. Mas o sentimento que deixamos de ter quando os fatos aconteceram. Nosso alheamento, nosso pavor, nossa fuga. Ele faz Zuzu Angel sentar na sala e ent\u00e3o podemos compartilhar desse terror que \u00e9 o esquecimento, e o que \u00e9 mais importante, a no\u00e7\u00e3o exata de quanto isso nos fez mal e o quanto \u00e9 importante trazer de volta a emo\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tivemos.<br \/>\nTRIBUNAL &#8211; Isso ele faz recuperando as pessoas que conviveram com Zuzu Angel, por meio de representa\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, quase pr\u00f3ximas. Essas personagens s\u00e3o vividas por \u00c2ngela Vieira (essa solidez suave que a tudo costura), Luana Piovani (atriz de verdade, quando um diretor de primeira est\u00e1 por perto), Leandra Leal (o talento que tem a delicadeza de implodir para n\u00e3o assumir o pr\u00f3prio excesso), Regiane Alves (o conforto de quem aparentemente fica na sombra). Todas cercam Patr\u00edcia Pillar, uma solid\u00e3o seduzida pela luz. O amor pelo\u00a0filho, Stuart (interpretado por um brasileir\u00edssimo Daniel de Oliveira, biotipo oposto ao original &#8211; de estampa americana &#8211; a revelar a op\u00e7\u00e3o feita a favor do pa\u00eds onde nasceu e se criou) desencadeia a rea\u00e7\u00e3o. Quando Patr\u00edcia peita o tribunal, o cinema brasileiro levanta de uma s\u00f3 vez, como se estivesse homenageando um rei que volta ferido da guerra. Pois \u00e9 ao cinema que esta cena pertence, mais do que \u00e0 Hist\u00f3ria. O cinema precisa desse reconhecimento, para que a Hist\u00f3ria sobreviva. Para chegar a esse momento supremo da s\u00e9tima arte entre n\u00f3s, foi preciso que Patr\u00edcia fosse cevada pelo Mal, encarnada pelo g\u00eanio. Pois \u00e9 de g\u00eanio que falamos quando temos Othon Bastos com seu duro olhar diante da tortura, um olhar que movimenta o circo da maldade encarnado por v\u00e1rios atores que est\u00e3o perfeitos em seus pap\u00e9is de algozes (com destaque para Aramis Trindade, assustador como o Tenente que se vinga da ditadura, e Flavio Bauraqui, o torturador que mostra as v\u00e1rias faces da brutalidade). O Mal sem caricatura amadurece o pa\u00eds quando \u00e9 mostrado em toda sua crueza.<br \/>\nSUSTO &#8211; Um filme como Zuzu Angel elimina qualquer possibilidade de o Brasil repetir seu velho papel de palha\u00e7o. N\u00e3o se enquadra nos adjetivos que acompanham os lan\u00e7amentos para ajudar a esquec\u00ea-los. N\u00e3o se trata de uma obra-prima, de um grande filme ou algo parecido. Mas da ponta mais evidente de uma descoberta ainda submersa. \u00c9 uma obra s\u00f3lida, de narrativa enxuta, que convoca nossa omiss\u00e3o e nos abra\u00e7a com seu drama. \u00c9 um filme para ser visto com a parte de cria\u00e7\u00e3o que nos toca: o de reinventar o que nos \u00e9 mostrado na tela, resgatar (para quem viveu a \u00e9poca) o tempo perdido, descobrir do que foi feito de n\u00f3s e avan\u00e7ar na arte que o cinema proporciona ao envolver tanta gente. Precisamos dizer: \u00e9 o filme de um cineasta maior. Fruto de um pa\u00eds que amadurece aos trancos, como tudo na vida. E que ajuda a compor um conjunto de trabalhos que Rezende produz como se nos sacudisse pelos ombros, falando diretamente nos olhos, no momento em que recebemos uma carga de artilharia no front e achamos que tudo se perdeu.<br \/>\nAcordamos do susto com S\u00e9rgio Rezende falando para n\u00f3s, quando vemos que j\u00e1 amanheceu e que todas as li\u00e7\u00f5es da longa escurid\u00e3o precisam ficar conosco para que n\u00e3o possamos repetir a trag\u00e9dia. Resista, diz ele, resista. Os anjos ainda est\u00e3o do nosso lado. Acordamos ent\u00e3o ao som de Angelica, de Chico Buarque, a can\u00e7\u00e3o feita para a coragem punida pelo horror.<\/p>\n<p><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um filme como Zuzu Angel elimina qualquer possibilidade de o Brasil repetir seu velho papel de palha\u00e7o. N\u00e3o se enquadra nos adjetivos que acompanham os lan\u00e7amentos para ajudar a esquec\u00ea-los. N\u00e3o se trata de uma obra-prima, de um grande filme ou algo parecido. Mas da ponta mais evidente de uma descoberta ainda submersa. \u00c9 uma obra s\u00f3lida, de narrativa enxuta, que convoca nossa omiss\u00e3o e nos abra\u00e7a com seu drama.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1047"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1047"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1047\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1049,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1047\/revisions\/1049"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1047"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1047"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1047"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}