{"id":105,"date":"2005-05-13T21:43:40","date_gmt":"2005-05-13T23:43:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=105"},"modified":"2009-12-20T19:42:48","modified_gmt":"2009-12-20T21:42:48","slug":"o-escritor-em-seu-labirinto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-escritor-em-seu-labirinto","title":{"rendered":"O Escritor em Seu Labirinto"},"content":{"rendered":"<table border=\"0\" cellspacing=\"1\" cellpadding=\"0\" width=\"100%\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\n<table border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" width=\"90%\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\n<table border=\"0\" cellspacing=\"1\" cellpadding=\"0\" width=\"75%\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\n<div><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/quixote4.jpg\" border=\"0\" alt=\"Dom Quixote e Sancho Pan\u00e7a\" \/><\/div>\n<p>Um livro, um abra\u00e7o: para onde foi a hist\u00f3ria?<\/p>\n<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<div>\n<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/icons\/o2.gif\" border=\"0\" alt=\"\" align=\"left\" \/> nde andar\u00e1 meu Quixote? A edi\u00e7\u00e3o espanhola de bolso, em papel b\u00edblia, cheia de ilustra\u00e7\u00f5es, que algu\u00e9m me deu de presente nos anos 60, deve andar perdido em algum canto da biblioteca improvisada ao longo do tempo na minha casa. Especialmente as ilustra\u00e7\u00f5es desse primoroso exemplar s\u00e3o a pista fundamental para analisar o livro de Garcia Marquez. O quadro de Bol\u00edvar deitado, apresentado em aula, fez emergir na minha mem\u00f3ria os desenhos e pinturas dessa edi\u00e7\u00e3o comemorativa do romance de Miguel de Cervantes. Nessas imagens, o Cavaleiro da Triste Figura jaz, no fim da vida, enlouquecido e alquebrado pelas lutas contra gigantes imagin\u00e1rios.<\/p>\n<p>O Bol\u00edvar de Garcia Marquez \u00e9 um Quixote que traz dentro de si, enterrada, sua Dulcin\u00e9ia &#8211; a esposa Maria Teresa Rodr\u00edguez del Toro &#8211; que nenhuma mulher, nem mesmo a lend\u00e1ria companheira Manuela S\u00e1enz, poder\u00e1 substituir. Tem a seu lado, permanentemente, um Sancho Pan\u00e7a &#8211; o escudeiro Jos\u00e9 Palacios &#8211; ao mesmo tempo pr\u00e1tico e idealista, que tudo prov\u00ea para seu \u00eddolo sem visar recompensas. Perambula, como um cavaleiro andante ardendo em febre, pela Am\u00e9rica em ru\u00ednas. Nos lugares onde pousa &#8211; como se fossem estalagens de uma Espanha medieval &#8211; \u00e9 recebido como her\u00f3i, mas tratado como um moribundo, contaminado pela t\u00edsica.<\/p>\n<p>O guerreiro decadente, apesar da lucidez, ainda sonha com a segunda chance. Quer enfrentar seus moinhos de vento &#8211; os inimigos que usurparam o poder, gigantes impass\u00edveis de mil bra\u00e7os que, junto com a doen\u00e7a, o reduzem \u00e0 imobilidade. A humaniza\u00e7\u00e3o de Bol\u00edvar, assim, obedece \u00e0 matriz liter\u00e1ria cervantina, como se Quixote encontrasse na Am\u00e9rica o palco ideal para sua loucura.<\/p>\n<p>Eu tamb\u00e9m perseguia minha segunda chance. Meu exemplar do Quixote j\u00e1 tinha sumido uma vez, quando foi emprestado para um colega jornalista. N\u00e3o houve devolu\u00e7\u00e3o porque viajei subitamente da cidade onde trabalhava, deixando a rel\u00edquia para tr\u00e1s. S\u00f3 matei a charada quando lancei meu primeiro livro e a apropria\u00e7\u00e3o involunt\u00e1ria foi confessada publicamente, numa resenha assinada pelo dono improvisado do presente perdido. Houve prova da boa f\u00e9 quando recebi, intacta, a encomenda pelo correio.<\/p>\n<p>Aproveitei aquele reencontro para continuar a leitura do livro. Mas n\u00e3o aprendi a li\u00e7\u00e3o. Acabei n\u00e3o reservando um lugar especial para o Quixote e por isso, agora, reviro estantes e consulto espa\u00e7os esquecidos embaixo de pilhas de pap\u00e9is velhos &#8211; poemas in\u00e9ditos, artigos publicados, mem\u00f3rias de uma vida dedicada ao texto. Procuro em v\u00e3o.<\/p>\n<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/fierro2.jpg\" border=\"0\" alt=\"Martin Fierro- sobre ilustra\u00e7\u00e3o de Juan C. Castagnino\" align=\"left\" \/> O consolo \u00e9 ter encontrado o fio desse labirinto e poder, na seq\u00fc\u00eancia, carregar outro caso liter\u00e1rio antigo para entender melhor a agonia do her\u00f3i descrito por Garcia Marquez. Enxerguei naquele Quixote latino-americano o travo amargo de um guerreiro situado mais ao sul, \u00e9 verdade, mas igualmente cr\u00edtico e prostrado diante do destino. Falo de Martin Fierro, o her\u00f3i do escritor argentino Jos\u00e9 Hernandez, sucesso popular desde 1872. Na an\u00e1lise que faz sobre esse cl\u00e1ssico da literatura latino-americana, Jorge Luis Borges confirma essa minha suspeita (li sua an\u00e1lise depois de ter levantado a hip\u00f3tese do Bol\u00edvar quixotesco), tra\u00e7ando alguns paralelos.<\/p>\n<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/cervant.jpg\" border=\"0\" alt=\"Cervantes\" align=\"right\" \/>Primeiro, identifica duas obras que extrapolam seus objetivos &#8211; Cervantes vai al\u00e9m de uma cr\u00edtica \u00e0s novelas de cavalaria e Hernandez, ao denunciar injusti\u00e7as locais e datadas, consegue enfocar &#8220;o mal, o destino e a desventura, que s\u00e3o eternos&#8221;. Borges tamb\u00e9m aponta para a falta de identifica\u00e7\u00e3o dos dois her\u00f3is com o Estado, uma heran\u00e7a espanhola que passa da pen\u00ednsula ib\u00e9rica para o pampa. Ao mesmo tempo, destaca o car\u00e1ter nacional que cada um dos livros adquire &#8211; assumindo e definindo o perfil do pa\u00eds onde foi gerado &#8211; e a presen\u00e7a do sobrenatural, elemento m\u00e1gico obrigat\u00f3rio em toda obra eterna. E tamb\u00e9m encontra um Sancho em Martin Fierro, que \u00e9 o personagem Vizcacha, um &#8220;tipo proverbial por excel\u00eancia&#8221;.<\/p>\n<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/bolivar.jpg\" border=\"0\" alt=\"Bolivar\" align=\"left\" \/>Na p\u00e1gina 228 do livro de Garcia Marquez, Bol\u00edvar diz textualmente, comentando a diversidade alimentar na cidade do M\u00e9xico: &#8220;Se comen todo lo que camina.&#8221; Trata-se de uma cita\u00e7\u00e3o literal, n\u00e3o assumida, de &#8220;Todo bicho que camina va a parar al asador&#8221; (pg. 125 do livro de Hernandez), verso muito citado por meu pai na minha inf\u00e2ncia. \u00c9 poss\u00edvel que a solid\u00e3o de Bol\u00edvar tenha tamb\u00e9m em Martin Fierro sua matriz. O her\u00f3i desterrado no tempo, alimentado pela mem\u00f3ria, que anda (Quixote), canta (Martin Fierro) ou dita cartas (Bol\u00edvar) est\u00e1 dividido: tem a consci\u00eancia da morte, mas sonha em reencontrar a gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>Essa trag\u00e9dia comp\u00f5e o labirinto expresso na linguagem. Garcia Marquez coloca o personagem diante do pr\u00f3prio mito, consciente de que o corpo fr\u00e1gil, deitado na rede, n\u00e3o encarna mais o her\u00f3i que as pessoas insistem em invocar. Ele n\u00e3o \u00e9 mais o Libertador, apesar de manter, em alguns momentos, sua autoridade nata. A guerra, agora longe no tempo, perdeu o sentido. Independ\u00eancia, para qu\u00ea? Talvez tivesse sido travada por uma quest\u00e3o de virilidade, de sedu\u00e7\u00e3o pessoal ou simplesmente de paix\u00e3o. S\u00e3o esses, no fundo, os valores apontados por Garcia Marquez que regem a constru\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria das na\u00e7\u00f5es latino-americanas divididas.<\/p>\n<p>A penosa viagem ao longo do rio Madalena foi propositadamente escolhida por ser a menos documentada e, portanto, a mais aberta a uma abordagem diversa da mitologia oficial. O texto vai despindo o teatro da guerra, misturando batalhas com boatos, levantando fatos por meio de in\u00fameras vers\u00f5es, entronando a farsa, compondo cen\u00e1rios de uma Hist\u00f3ria que chega ao osso do her\u00f3i prostrado e em del\u00edrio. O exagero da narrativa engessado num texto magistralmente enxuto &#8211; marca registrada do g\u00eanio de Garcia Marquez &#8211; for\u00e7a a id\u00e9ia do &#8220;real&#8221;, tornando-o expressivo pelo excesso, levando-o \u00e0 lenda. Como contraponto, o fio da Hist\u00f3ria \u00e9 retomado atrav\u00e9s de elementos prosaicos, onde cachorros, m\u00fasicas e amores ligam-se \u00e0 id\u00e9ia de lutas, golpes, rep\u00fablicas.<\/p>\n<p>Este recorte, feito de leituras e mem\u00f3rias, est\u00e1 atento ao alerta de Hayden White sobre os perigos do texto, onde o historiador\/escritor cria as premissas para for\u00e7ar as conclus\u00f5es e confundi-las com a verdade. Sorte que, ao perder meu Quixote, encontrei Borges numa vitrina de livraria. Mas n\u00e3o desisto e continuo procurando &#8211; onde andar\u00e1 aquela rel\u00edquia, perdida na poeira de outros livros, na sala, no escrit\u00f3rio, no arm\u00e1rio?<\/p>\n<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/fierroviola.jpg\" border=\"0\" alt=\"Martin Fierro-  sobre ilustra\u00e7\u00e3o de Juan C. Castagnino\" align=\"right\" \/>Enquanto insisto, escuto passos. Meu pai caminha no quarto. Lembro do seu chap\u00e9u de feltro desabado, pistola calibre 32 no bolso do palet\u00f3 comprado em Buenos Aires, passeando pelas ruas da nossa cidade. Ou mesmo contando hist\u00f3rias ao redor de uma fogueira assombrada pelo c\u00e9u do pampa. Ex-combatente de 1930 e 1932, gostou quando virou personagem de alguns poemas do meu segundo livro.<\/p>\n<p>No nosso \u00faltimo encontro, me acompanhou at\u00e9 a esta\u00e7\u00e3o rodovi\u00e1ria. Longamente, como nunca tinha feito, me abra\u00e7ou. Mais tarde, avisou para os filhos, inumer\u00e1veis: &#8220;N\u00e3o se alarmem. Quando eu morrer, n\u00e3o vou fazer barulho.&#8221; Cumpriu sua promessa, num inverno long\u00ednquo. Tinha feito barulho demais. Era um desses guerreiros, que n\u00e3o d\u00e3o o bra\u00e7o a torcer no momento da \u00faltima solid\u00e3o, quando se v\u00eaem rodeados apenas por palavras.<\/p>\n<p>Sua heran\u00e7a foi aquele abra\u00e7o, t\u00e3o presente quanto um livro perdido e insubstitu\u00edvel.<\/p>\n<div><strong><\/p>\n<div>INDICA\u00c7\u00d5ES BIBLIOGR\u00c1FICAS:<\/div>\n<p><\/strong><\/div>\n<table border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"10\" width=\"99%\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td height=\"202\"><strong>BORGES, JORGE LUIS<\/strong> &#8211; El ?Martin Fierro?. Alianza\/Emec\u00e9, Madrid\/Buenos Aires, 1995. <strong>CERVANTES, MIGUEL DE<\/strong> &#8211; Don Quijote de la Mancha &#8211; Nueva Aguilar, Madrid, 196&#8230;<strong>DUCL\u00d3S, NEI<\/strong> &#8211; Outubro , Instituto Estadual do Livro\/RS &#8211; A Na\u00e7\u00e3o, Porto Alegre, <strong>___________ <\/strong>1976; No Meio da Rua &#8211; L&amp;PM Editores, Porto Alegre, 1980. <strong>HERNANDEZ, JOS\u00c9<\/strong> &#8211; Martin Fierro &#8211; Alianza Editorial, Madrid, 1996. <strong>MARQUEZ, GABRIEL GARCIA<\/strong> &#8211; El General en su Labirinto &#8211; Plaza &amp; Janes Editores, .A., Barcelona, 1996. <strong>WHITE, HAYDEN<\/strong> &#8211; Tr\u00f3picos do Discurso &#8211; Ensaios Sobre a Cr\u00edtica da Cultura &#8211; Edusp, S\u00e3o Paulo, 1994.<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>\u00a9 Nei Ducl\u00f3s &#8211; todos os direitos reservados<\/p><\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O guerreiro decadente, apesar da lucidez, ainda sonha com a segunda chance. 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