{"id":1050,"date":"2009-12-17T16:05:31","date_gmt":"2009-12-17T18:05:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1050"},"modified":"2009-12-21T20:47:52","modified_gmt":"2009-12-21T22:47:52","slug":"um-corredor-de-brinquedos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/um-corredor-de-brinquedos","title":{"rendered":"UM CORREDOR DE BRINQUEDOS"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><br \/>\nLembro de cenas quando ainda estava no colo, no cercadinho e no ber\u00e7o. Lembro de di\u00e1logos inteiros e ainda nem sabia falar. Acredito que o primeiro ano de vida tem dessas coisas: j\u00e1 estamos prontos, s\u00f3 falta o treinamento para falar e andar. Tudo o que existe e acontece n\u00e3o escapa ao olho cl\u00ednico dos que ainda est\u00e3o engatinhando. As recorda\u00e7\u00f5es do ber\u00e7o s\u00e3o as mais m\u00e1gicas. Meu irm\u00e3o Luiz, Carlos, com apenas 13 meses a mais do que eu, me acordou para ver os brinquedos. Era um corredor, que ligava o quarto dos pais, onde eu dormia, e a sala. L\u00e1 estava aquele antigo pi\u00e3o que soltava um silvo quando rodopiava e era movido a press\u00e3o. Feito de metal, bastava socar o pino v\u00e1rias vezes para ele funcionar. Havia a bola de futebol, os pequenos caminh\u00f5es e autom\u00f3veis e mais coisas que n\u00e3o lembro. A crian\u00e7ada era imensa na minha casa, especialmente nessa \u00e9poca, em que os parentes vinham de Porto Alegre nos visitar e viravam nossa rotina para ar. Os quartos eram reservados para os casais que chegavam com malas e filhos, enquanto nos amonto\u00e1vamos em todas as partes em colch\u00f5es no ch\u00e3o. Toda minha inf\u00e2ncia foi assim. Mas o grande momento era a ceia na v\u00e9spera de Natal, quando com\u00edamos salada de fruta com guaran\u00e1 e minha tia Sarinha tomava um pilequinho tradicional.<br \/>\nMANH\u00c3 &#8211; Os brinquedos s\u00f3 eram distribu\u00eddos na madrugada, quando est\u00e1vamos dormindo. N\u00e3o havia essa facilidade de ser presenteado ainda na v\u00e9spera. O importante era esperar o dia 25 que, se fosse domingo, era totalmente perfeito. Levant\u00e1vamos com o cora\u00e7\u00e3o na m\u00e3o e v\u00edamos os pacotes embaixo da imensa \u00e1rvore enfeitada. Entre os brinquedos inesquec\u00edveis, um tanque de guerra movido a pilha que mostrava todas as luzes enquanto corria pelo piso de parqu\u00ea, virando o canh\u00e3o para os dois lados. Quando batia em algum obst\u00e1culo, voltava automaticamente. Luiz Carlos ganhou um trator, que fazia com que o motorista mexesse os bra\u00e7os quando havia alguma manobra.<br \/>\nGUERRA- Eu ainda vibrei com meu tanque por muitos anos, mas outros armamentos tamb\u00e9m me emocionaram, como arcos com flechas com borracha na ponta, que grudavam no alvo (e nas paredes, em qualquer lugar onde eu apontava). Especialmente a dupla de gigantescos rev\u00f3lveres que soltavam balas de pl\u00e1stico. Era acompanhados por portentoso cintur\u00e3o, que me fazia me sentir como o pr\u00f3prio Roy Rogers, o mocinho de faroeste que aparecia em seu cavalo Trigger atr\u00e1s de uma pedra branca exatamente no momento em que a dilig\u00eancia (com a mocinha dentro) era atacada pelos bandidos. Muita guerra na inf\u00e2ncia? Essa era a nossa brincadeira favorita. Nascemos perto demais da II Grande Guerra, da Guerra da Cor\u00e9ia, e os filmes s\u00f3 mostravam isso. Mont\u00e1vamos em cavalos imagin\u00e1rios e persegu\u00edamos ladr\u00f5es. Depois, quando vi High Noon, de Fred Z innemann, The searchers, de John Ford e toda a sang\u00fcinolenta obra de Sam Peckimpah, passando pelo exagero do faroeste italiano, vi que a imagina\u00e7\u00e3o incendiada da inf\u00e2ncia tinha se transformado em algo adulto, maior.<br \/>\nAV\u00d3S &#8211; O Natal, data de felicidade e paz, era pautada pelo encontro da fam\u00edlia dispersa por in\u00fameros tios, primas e sobrinhos. N\u00e3o conheci meus av\u00f3s, de nenhum lado da minha ascend\u00eancia. Pouco se falava sobre eles. Meus pais, \u00f3rf\u00e3os de pai muito cedo, encontraram, talvez, um no outro, o mesmo desamparo de uma inf\u00e2ncia complicada. Mas nos passaram um tempo de extrema alegria, com seus h\u00e1bitos, seu esp\u00edrito de anfitri\u00f5es perfeitos, dedicados sempre \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o nas datas importantes. O Ano Novo era uma algazarra s\u00f3. Tinham, como as noites de S\u00e3o Jo\u00e3o, S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo, muita fogueira e buscap\u00e9 e trov\u00f5es de p\u00f3lvora. At\u00e9 hoje essas festas me fazem lembrar o que tivemos naquela \u00e9poca long\u00ednqua, espa\u00e7o agora m\u00edtico em que viv\u00edamos crian\u00e7as num mundo dominado pelos adultos. Aos cinco anos, me contaram a verdade: Papai Noel n\u00e3o existia. Fiquei chocado, como todo mundo, mas me acostumei. Aguardava os presentes sabendo que eram eles, os pais, que nos presenteavam. Ficou a magia, a expectativa, a alegria na manh\u00e3 maravilhosa.<br \/>\nM\u00daSICA &#8211; A mem\u00f3ria \u00e9 seletiva e devemos esquecer o que realmente nos incomodou. Especialmente as frustra\u00e7\u00f5es diante de presentes magros em \u00e9poca de pen\u00faria, brigas em noites de Natal, raras, mas existiram. O que fica s\u00e3o as intermin\u00e1veis noites de ver\u00e3o na cal\u00e7ada, em que cada um de n\u00f3s possu\u00eda a sua cadeira pregui\u00e7osa. Fic\u00e1vamos vendo as estrelas, fixas ou cadentes, contando os sat\u00e9lites, gr\u00e3os de luz que passavam c\u00e9leres. O grande col\u00e9gio Marista em frente estava vazio , pois os internos iam para suas casas, espalhadas por todo o Rio Grande, e os professores tamb\u00e9m escasseavam, pois a maioria era de outras cidades. Da esquina onde ficava nossa casa, v\u00edamos o entardecer, absolutamente maravilhoso e que s\u00f3 Anderson Petroceli hoje \u00e9 capaz de n\u00e3o perder, com seu olho enfeiti\u00e7ado. Depois, v\u00edamos a grande de lua ver\u00e3o subir pela Rua Bento Martins, primeiro toda laranja, depois subindo vestida de prata. Escut\u00e1vamos m\u00fasica de todos os tipos. O piano popular de Liberace, que destrinchava pe\u00e7as cl\u00e1ssicas; a pung\u00eancia de Miguel Aceves Mejia; o bai\u00e3o de Luiz Gonzaga. Quando cheguei na bossa nova, j\u00e1 estava adulto. J\u00e1 tinha me mudado para outra casa, longe dali.<br \/>\nPAZ &#8211; Chega de saudade, dizia a bossa nova. E l\u00e1 fomos n\u00f3s para o mundo, carregando a grandeza daqueles Natais que permanecem na mem\u00f3ria como o press\u00e1gio de que nesta vida \u00e9 poss\u00edvel a felicidade, mesmo que nosso corpo n\u00e3o atingisse o parapeito da janela e nossos cabelos engomadinhos provocasse risos nas gurias mo\u00e7as. \u00c9ramos azougues, guris da fronteira, pessoas da cidade, que gostavam de cinema e autom\u00f3vel e que, como eu, jamais montou em cavalo, a n\u00e3o ser uma vez. No fundo, ningu\u00e9m sabe disso, mas eu fui Roy Rogeres. Pena que jamais aprendi a cantar direito. Mas quando atiro, as balas ricocheteiam nas pedras. Entreguem os bandidos para o xerife, que a cidade precisa de paz na diferen\u00e7a.<\/p>\n<p><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os brinquedos s\u00f3 eram distribu\u00eddos na madrugada, quando est\u00e1vamos dormindo. N\u00e3o havia essa facilidade de ser presenteado ainda na v\u00e9spera. O importante era esperar o dia 25 que, se fosse domingo, era totalmente perfeito. 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