{"id":1053,"date":"2009-12-17T16:08:02","date_gmt":"2009-12-17T18:08:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1053"},"modified":"2009-12-20T19:12:16","modified_gmt":"2009-12-20T21:12:16","slug":"dois-textos-sobre-urupes","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/dois-textos-sobre-urupes","title":{"rendered":"DOIS TEXTOS SOBRE URUP\u00caS"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><br \/>\n1. HUMOR E DEN\u00daNCIA EM MONTEIRO LOBATO<br \/>\n<em>Urup\u00eas<\/em>, de Jos\u00e9 Renato (mais tarde, Bento) Monteiro Lobato, \u00e9 uma sementeira farta de cria\u00e7\u00e3o e nacionalidade. Com 14 contos e um artigo, o livro \u00e9 um primor de constru\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria (o boxeador Lobato n\u00e3o perde uma s\u00f3 frase, nenhuma letra \u00e9 colocada em v\u00e3o). Por que levei tanto tempo para ler essa obra que praticamente fundou a ind\u00fastria editorial no Brasil, pois seu sucesso viabilizou a empresa do autor numa \u00e9poca em que os livros eram impressos na Europa? Sei l\u00e1. S\u00f3 sei que fiquei energizado de novo com o texto lobatiano, como acontecia quando eu mergulhava, anos a fio, no S\u00edtio do Pica-Pau Amarelo. \u00c9 o meu escritor favorito. Pelo que faz com a palavra, parece que o vemos contando hist\u00f3rias. Enxergamos claramente o conte\u00fado de sua narrativa, inventiva at\u00e9 o osso e brutal, de uma brutalidade l\u00facida e humana que nos faz falta como nunca. E que se presta, exatamente pela sua for\u00e7a, a in\u00fameros equ\u00edvocos.<br \/>\nPOSSE &#8211; O grande feito de Lobato nesse livro foi denunciar o esquema que domina o pa\u00eds por meio da pol\u00edtica e da posse e mau uso da terra. A malandragem, a mentira, a crueldade das pessoas poderosas escorrem como fel das p\u00e1ginas destas narrativas. A chamada elite (o grupo privilegiado que se beneficia de toda essa bandalheira) impera na na\u00e7\u00e3o roubada, vilipendiada e por isso mesmo, condenada ao atraso. Mas Lobato sabia de tudo. N\u00e3o iria fazer uma den\u00fancia p\u00e3o-p\u00e3o,queijo-queijo. Ele simplesmente vira o bin\u00f3culo ao contr\u00e1rio e seduz o leitor (os brasileiros v\u00edtimas desse sistema de exclus\u00e3o e que est\u00e3o em todas as classes sociais, especialmente a classe m\u00e9dia, que comprava seus livros) criando a representa\u00e7\u00e3o da ponta do varejo da exclus\u00e3o. Sua defini\u00e7\u00e3o do caboclo, que n\u00e3o deita ra\u00edzes sobre a terra latifundiada, e \u00e9 tocado de um ermo para outro, \u00e9 o poder escancarado dos coron\u00e9is do mando e do garrote. Ao inventar o Jeca Tatu, Lobato decifrou a unha encravado da vida comunit\u00e1ria no Brasil. A partir do Jeca, toda uma linhagem cultural se formou, de Mazzaroppi \u00e0 m\u00fasica sertaneja. O que ele denuncia como aus\u00eancia de arte no caboclo acabou se transformando em arte popular genu\u00edna, pois o povo entendeu o recado e assenhorou-se do retrato para tornar-se vis\u00edvel na na\u00e7\u00e3o cega.<br \/>\nROUBO &#8211; Apesar de um recado t\u00e3o expl\u00edcito, o trabalho de Lobato costuma gerar cal\u00fanias sobre ele. Pode-se imagin\u00e1-lo preconceituoso em rela\u00e7\u00e3o ao povo e a suas artes. Pode-se tach\u00e1-lo de elitista bruto ao comparar o caboclo a uma praga silvestre. Mas seria pobreza mental em demasia n\u00e3o ver exatamente nisso que parece ser preconceito ou racismo, o toque genial de sua personalidade liter\u00e1ria. A terra roubada nos cart\u00f3rios e na pol\u00edtica serve s\u00f3 de enfeite para o enriquecimento, pois este vem do compadrio, das propinas e dos golpes. Ao descrever a fazenda do ex-colega da faculdade que enriqueceu com o casamento, Lobato explica: &#8220;Fausto era fazendeiro amador. Tudo ali demonstrava longo disp\u00eandio de dinheiro sem a preocupa\u00e7\u00e3o da renda proporcional; trazia-o no p\u00e9 de quem n\u00e3o precisava da propriedade para viver.&#8221; No cl\u00e1ssico O Comprador de Fazendas (transformado em filme), a terra d\u00e1 preju\u00edzo e apenas engambelando os poss\u00edveis compradores ser\u00e1 poss\u00edvel tirar o p\u00e9 da jaca. Em Um Supl\u00edcio Moderno, ele diz textualmente: &#8220;\u00c9 honra penetrar na falange gorda dos carrapatos or\u00e7ament\u00edvoros que pacientemente devoram o pa\u00eds&#8221;. Um pa\u00eds das Ar\u00e1bias segundo sua defini\u00e7\u00e3o, em que medram o analfabetismo e o aliadismo e a falsa literatura (&#8220;o romance traduzido de Jaime Ohnet&#8221;).<br \/>\nAVISO &#8211; Ao longo de todo o livro, o leitor tem a chance de gargalhar com as tiradas de Lobato, criador de v\u00e1rios neologismos como olhodaru\u00e1vel (situa\u00e7\u00e3o dos que t\u00eam chances, depois de uma elei\u00e7\u00e3o, de ir para o olho da rua). Nem se trata de ironia, esse biscoito fino de massas sedosas. \u00c9 escracho mesmo, \u00e9 galhofa, \u00e9 coragem de dizer com todas as letras o que vai pela na\u00e7\u00e3o embasbacada. Foi por essa contund\u00eancia que Lobato fez sucesso e se destacou como a grande personalidade do primeira metade do s\u00e9culo vinte. Uma obra que causa pol\u00eamica ainda hoje, pois os inimigos de Lobato continuam por toda a parte: os burros titulados, os med\u00edocres cru\u00e9is, os carreiristas. E as v\u00edtimas apontadas por ele continuam na boca das elites imbecis, ainda convencidas de que o povo exclu\u00eddo \u00e9 igual ao caboclo descrito por Lobato h\u00e1 cem anos. Esqueceram da profecia de Ant\u00f4nio das Mortes, o matador de cangaceiro (o caboclo nordestino que se insurgiu) em Deus e o Diabo: &#8220;Ainda vai haver uma guerra grande nesse sert\u00e3o&#8221;. Depois n\u00e3o digam que Monteiro Lobato n\u00e3o avisou.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n2. NATUREZA E SOCIEDADE EM MONTEIRO LOBATO<br \/>\nO modernismo \u00e9 um movimento amplo, que extrapola a Semana e o enfoque paulistano (da capital). Nasceu do inconformismo do talento diante da Mesmice da cultura, que estava amarrada a velhos esquemas agr\u00e1rios, culturais, pol\u00edticos. \u00c9 pioneiro mais no Rio de Janeiro do que em outros lugares, e n\u00e3o se circunscreve apenas \u00e0 literatura, mas \u00e0 caricatura, ao panfletarismo, ao deboche e \u00e0 den\u00fancia pura e simples. Vejo Monteiro Lobato como um dos primeiros modernistas e sua import\u00e2ncia revolucion\u00e1ria foi reconhecida mais tarde pelo pr\u00f3prio Oswald de Andrade, quando se reconciliou com ele depois de anos de rusgas e ressentimentos.<br \/>\nFONTES &#8211; Mas Lobato era turr\u00e3o e inconformado demais, e al\u00e9m disso, vivia no Interior, para fazer parte de um movimento de inspira\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia. Lobato bebia em fontes abundantes da literatura universal e aferrava-se \u00e0 narrativa coesa, eficiente e encantadora, inspirada pelo mato que o cercava. Kipling e Maupassant s\u00e3o suas refer\u00eancias em Urup\u00eas, livro pioneiro desse modernismo do fund\u00e3o, uma obra generosa em neologismos e solu\u00e7\u00f5es narrativas radicais (onde uma onomatop\u00e9ia, como B\u00e9\u00e9\u00e9, tem a for\u00e7a de muitas par\u00e1grafos). Nessa sua radicalidade, a abordagem que faz da natureza, como parte da estrutura social, \u00e9 \u00fanica.<br \/>\nPAISAGEM &#8211; Ningu\u00e9m descreve a trajet\u00f3ria do sol sobre a paisagem brasileira como ele. O amanhecer \u00e9 a promessa do pa\u00eds ainda virgem da devassid\u00e3o europ\u00e9ia, que tem uma chance na esperan\u00e7a de ser um lugar agrad\u00e1vel de viver, onde poderia imperar a harmonia e o equil\u00edbrio entre as pessoas. Mas quando o dia avan\u00e7a e a bigorna do sol acaba tisnando a paisagem, eis que se revela o pa\u00eds insuport\u00e1vel, onde medra o fogo e o crime ecol\u00f3gico (um aspecto pioneir\u00edssimo da sua obra, como notou Clovis Heberle no coment\u00e1rio do post anterior sobre Urup\u00eas aqui no Di\u00e1rio da Fonte). \u00c9 na devasta\u00e7\u00e3o da natureza, reflexo do mau uso da terra, que confina os homens nos ermos sem cidadania e deixa impune a elite cruel e exploradora, que o Brasil mostra a cara. Mas ainda \u00e9 cedo para demonstrar todo o horror que a paisagem inspira. Quando chega o entardecer, com ele chega a tristeza, o banzo, o desespero da solid\u00e3o na natureza entregue ao sabor da maldade humana.<br \/>\nFANTASMAS &#8211; A noite ent\u00e3o vem com seus fantasmas e assassinatos, como no conto inicial Os faroleiros, em que dois sujeitos diante do breu compartilham uma hist\u00f3ria de terror ocorrida num farol perdido no meio do mar. Apenas duas pessoas moravam no farol e isso bastava para haver o conflito, o \u00f3dio m\u00fatuo, a desconfian\u00e7a e por fim a viol\u00eancia. N\u00e3o h\u00e1 como insurgir-se contra o imp\u00e9rio natural da sociedade de classes, dividida no pa\u00eds que poderia ser um para\u00edso. No conto Bocatorta, a fei\u00fara de quem vive entocado, expulso da comunidade, no meio de uma clareira imunda, revela um Quas\u00edmodo brasileiro, encarnando todos os preconceitos existentes contra a humanidade que veio habitar a na\u00e7\u00e3o. E na hist\u00f3ria em que dois vizinhos se atracam devido \u00e0s diferen\u00e7as de personalidade e interesses, n\u00e3o h\u00e1 como melhorar a produ\u00e7\u00e3o que acaba sendo devorada pelas pragas. Em outro conto, um filho adotado imita o mata-pau, destruindo a fam\u00edlia que o recebeu.<br \/>\nFATALIDADE &#8211; O resultado dessa fatalidade da natureza, como reflexo da incompet\u00eancia humana de se resolver em sociedade, \u00e9 o estigma de nascen\u00e7a, rastro de um assassinato gerado pelo ci\u00fame. O pessimismo das hist\u00f3rias nada tem a ver com o romantismo velho de guerra. \u00c9 pura ponte entre a natureza destru\u00edda e a sociedade descosturada, ambas territ\u00f3rios de frustra\u00e7\u00e3o e mis\u00e9ria. Foi essa lucidez e essa radicalidade que jogaram Monteiro Lobato para o alto no cen\u00e1rio das letras nacionais. Urup\u00eas vendeu como p\u00e3ozinho quente. Todos queriam enxergar o pa\u00eds oculto na ramagem, todos queriam ter acesso \u00e0 verdade que se escondia sob toneladas de papel e fingimento.<br \/>\n<\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Urup\u00eas, de Monteiro Lobato, com 14 contos e um artigo, \u00e9 analisado sob dois enfoques. O primeiro \u00e9 a partir da den\u00fancia e do humor . A formata\u00e7\u00e3o do Jeca Tatu, exclu\u00eddo gerado pelo mau uso e pela posse injusta da terra, medra na na\u00e7\u00e3o que perdeu o rumo. O segundo \u00e9 a partir da natureza e da sociedade. A devasta\u00e7\u00e3o anti-ecol\u00f3gica como reflexo da estrutura de classes ainda impera no pa\u00eds continente, passados quase cem anos da primeira edi\u00e7\u00e3o do livro, que fundou a literatura lobatiana.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1053"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1053"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1053\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1363,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1053\/revisions\/1363"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1053"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1053"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1053"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}