{"id":1055,"date":"2009-12-17T16:08:57","date_gmt":"2009-12-17T18:08:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1055"},"modified":"2009-12-20T21:04:47","modified_gmt":"2009-12-20T23:04:47","slug":"um-estranho-batizado","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/um-estranho-batizado","title":{"rendered":"UM ESTRANHO BATIZADO"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><br \/>\nEle aceitou a religi\u00e3o da esposa quando disse sim no casamento. A fam\u00edlia originada ali poderia ser criada no manto e no v\u00e9u, mas imp\u00f4s uma condi\u00e7\u00e3o: os filhos n\u00e3o deveriam ser batizados. N\u00e3o sei at\u00e9 hoje se ele desconhecia a necessidade do batismo para o exerc\u00edcio da f\u00e9 ou se, com sua proibi\u00e7\u00e3o, contava que acabaria tendo a palavra final sobre o destino da futura filharada. O certo \u00e9 que seu ate\u00edsmo era do tempo em que precisava se alimentar da oposi\u00e7\u00e3o a missas, batinas, \u00e1gua benta. Nem se tratava de negar a Deus, que era acolhido na casa na forma de ter\u00e7os, crucifixos, ora\u00e7\u00f5es, vindos da presen\u00e7a materna e das tias, novas e antigas, e dos primos e primas e toda a parentada h\u00e1 gera\u00e7\u00f5es no catolicismo.<br \/>\nO que precisava mesmo era implicar com a hegemonia da Igreja, que estava em tudo: nos domingos, nas escolas, nas ruas, prociss\u00f5es, r\u00e1dios, jornais. Ele fazia parte da minoria do livre-pensar, dos independentes do campo e da cidade. Admirava quem se declarava publicamente fora dos dogmas e das argumenta\u00e7\u00f5es de bispos, papas, padres. Mas uma coisa atrapalhava sua decis\u00e3o: a necessidade de ter compadres, que, como se sabe, \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o totalmente vinculada \u00e0 Igreja, e, o mais grave, ao batismo. Ele proibia o batizado, mas n\u00e3o abria m\u00e3o de ter um compadre.<br \/>\nAMIZADE &#8211; O compadre \u00e9 o parente que se escolhe, n\u00e3o o que se herda. \u00c9 poss\u00edvel convidar algu\u00e9m para apadrinhar os filhos, mas n\u00e3o se pode evitar de ter um irm\u00e3o indesejado. Ao ceder, por amizade e admira\u00e7\u00e3o, uma por\u00e7\u00e3o da paternidade para algu\u00e9m que ser\u00e1 o padrinho do seu filho, o pai cria uma liga\u00e7\u00e3o para toda vida entre duas fam\u00edlias. O <em>step father<\/em>, o pai substituto, empresta sua palavra \u00e0 Igreja de que o pequeno pag\u00e3o est\u00e1 convicto de entrar para a santa Igreja. A crian\u00e7a n\u00e3o pode fazer sua declara\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o o padrinho vem em seu nome jurar, como diz uma das can\u00e7\u00f5es que ento\u00e1vamos nas missas. Mas o que fazer quando o padrinho est\u00e1 proibido de levar o garoto para a pia batismal? L\u00e1 na fronteira, o impasse foi prontamente solucionado. A pessoa convidada para ser meu padrinho, ao receber o convite bem na frente do galp\u00e3o que existe at\u00e9 hoje atr\u00e1s da casa da esquina que era nossa, concordou com tudo. E jamais foi me batizar, apesar de, a partir dali, se tornar um dos compadres do meu pai. Ele nunca iria desobedecer o amigo, nem recusar o convite. Assim \u00e9 a t\u00eampera dos homens da fronteira: palavra dada, palavra cumprida. E um convite \u00e9 uma honra e deve ser acolhido no cora\u00e7\u00e3o da amizade, que l\u00e1 naquelas plagas, costuma ser verdadeira, portanto, eterna.<br \/>\nPALAVRA &#8211; Como eu n\u00e3o podia ser batizado, por proibi\u00e7\u00e3o paterna, fiquei at\u00e9 os tr\u00eas anos de idade amea\u00e7ado da condena\u00e7\u00e3o na outra vida. Isso afligia minha m\u00e3e, que n\u00e3o podia convencer o padrinho convidado a trair a palavra dada. A solu\u00e7\u00e3o foi t\u00e3o pr\u00e1tica quanto a declara\u00e7\u00e3o do compadrio. Minha m\u00e3e pediu para sua irm\u00e3, minha tia Maria, professora rigorosa do prim\u00e1rio em col\u00e9gios do sub\u00farbio da cidade, a levar pela m\u00e3o o garoto em pecado e batiz\u00e1-lo, sem que o pai soubesse. E assim foi que Tia Maria me levou um dia, sem festas nem cerim\u00f4nia, para que o padre me aspergisse a \u00e1gua benta. Deve ter sido impactante o evento para mim, pois me contam que, quando cheguei em casa, falei bem alto o que se passara. Por muitos anos imitaram meu jeito de dizer (que era com a boca mole, como costumavam acusar os que tivessem sangue dos Molinari, o sobrenome materno da minha m\u00e3e). Me jogaram \u00e1gua aqui, eu dizia, para esc\u00e2ndalo de todos, que participavam do pacto de sil\u00eancio. N\u00e3o fala nada! me sussurravam, impedindo que eu manifestasse meu j\u00fabilo por ter sido banhado por uma \u00e1gua desconhecida.<br \/>\nPADRINHO &#8211; Foi assim que meu pai ganhou um compadre e eu um lugar no seio da Santa Madre Igreja, onde me aninho at\u00e9 hoje, com todas as for\u00e7as. S\u00f3 conheci de fato meu padrinho no dia 3 de novembro, quando lancei meu novo livro, de conto e cr\u00f4nicas. Sabes que tens um padrinho? N\u00e3o sei, respondi. Pois, tens. Sou eu, Adalberto Pelegrini. O senhor de \u00f3culos e bon\u00e9, falando e caminhando lentamente, ent\u00e3o me mostrou uma foto do meu pai, dedicada a ele, meu padrinho. O seu Ortiz estava vestido para a ca\u00e7a, de arma em punho, com algumas perdizes a tiracolo. Est\u00e1s igual a teu pai, me disseram. E eu repliquei: n\u00e3o \u00e9 verdade, estou maior. Fiquei maior em corpo, talvez para compensar as d\u00e9cadas em que fui um fio de gente e todos se escandalizavam o quanto eu era magrinho, ou seja, invis\u00edvel. Cresci como nunca, talvez para chegar \u00e0 altura da pia batismal que, em segredo, me colocava no redil das almas pias. E hoje j\u00e1 passo da vida adulta, chegando perto daqueles que um dia me criaram e que se foram para todo o sempre.<br \/>\nSOBRENOME &#8211; Meu estranho batizado n\u00e3o teve festa nem celebra\u00e7\u00e3o. N\u00e3o me foi permitido comemorar, mas nenhuma crian\u00e7a comemora o pr\u00f3prio batismo. Na pr\u00e1tica, eu tinha apenas uma madrinha, minha tia Maria, rigorosa professora do prim\u00e1rio no sub\u00farbio. Agora tenho um padrinho, ao qual beijei a m\u00e3o pela primeira vez. Ele representa meu pai, seu grande amigo. E coloquei na dedicat\u00f3ria a brincadeira que meu irm\u00e3o Luiz Carlos fez depois que Adalberto virou compadre: Nei Pelegrini. Ganhei mais um sobrenome, secreto, como meu batismo, afetivo, como tudo o que os anos trazem de volta. Pois o tempo \u00e9 a palavra cora\u00e7\u00e3o, como digo no meu livro No Mar, Veremos, que autografei tamb\u00e9m no dia tr\u00eas, para o poeta Ricardo Silvestrini, que veio com um exemplar debaixo do bra\u00e7o. A palavra fica e dignifica quem a carrega como um tesouro.<\/p>\n<p><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que fazer quando o padrinho est\u00e1 proibido de levar o garoto para a pia batismal? L\u00e1 na fronteira, o impasse foi prontamente solucionado. A pessoa convidada para ser meu padrinho, ao receber o convite bem na frente do galp\u00e3o que existe at\u00e9 hoje atr\u00e1s da casa da esquina que era nossa, concordou com tudo. E jamais foi me batizar, apesar de, a partir dali, se tornar um dos compadres do meu pai. Ele nunca iria desobedecer o amigo, nem recusar o convite. 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