{"id":1057,"date":"2009-12-17T16:10:24","date_gmt":"2009-12-17T18:10:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1057"},"modified":"2009-12-20T23:50:47","modified_gmt":"2009-12-21T01:50:47","slug":"cancoes-de-um-poeta-de-rua","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/cancoes-de-um-poeta-de-rua","title":{"rendered":"CAN\u00c7\u00d5ES DE UM POETA DE RUA"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<strong>Nei Ducl\u00f3s <\/strong><br \/>\nO poeta maldito n\u00e3o \u00e9 um maledicente nem um amaldi\u00e7oado. E sim um poeta <em>sem o teto das palavras<\/em>, para usar o verso de um deles (e possivelmente o \u00fanico), Marco Celso Huffel Viola, que est\u00e1 novamente na pra\u00e7a com seu livro <em>Viver a paix\u00e3o de cada passo<\/em> (Editora Alegoria, 80 pgs., R$19,50). Celso lembra, nesta \u00e9poca em que continuam fazendo carreiras liter\u00e1rias empilhando poemas, que a poesia n\u00e3o serve para nada e sua import\u00e2ncia e for\u00e7a vem desse mist\u00e9rio. Por n\u00e3o pertencer, na ess\u00eancia, ao mundo utilit\u00e1rio, a poesia est\u00e1 fora da sua identidade considerada normal.<br \/>\nN\u00e3o se trata de cair na armadilha da transgress\u00e3o, fonte da vanguarda, que hoje \u00e9 c\u00e2none, ou seja, que comete o mesmo crime do Parnaso, velho inimigo sobrevivente. Mas de cair fora mesmo, assumindo a escassez do fazer po\u00e9tico, sua inutilidade e ao mesmo tempo sua presen\u00e7a poderosa. Essa contradi\u00e7\u00e3o entre o dito (o poema fora da poesia) e o n\u00e3o dito (a poesia fora do poema) \u00e9 o tesouro deste poeta de rua, que dividiu seu livro conforme a l\u00edrica medieval: Can\u00e7\u00f5es de desprezo, do amigo e de amor. Como vivemos no escuro, Celso combina o seguinte: comp\u00f5e can\u00e7\u00f5es que antes de gritar, escutam, e quando gritam sabem que ningu\u00e9m escuta, a n\u00e3o ser que despertemos o sagrado que nos habita.<br \/>\nJARDIM &#8211; O cap\u00edtulo do desprezo \u00e9 para afastar a mesmice, interromper o fluxo, causar desconforto, expulsar os que copiam, e preparar o terreno para os sonhadores, os que criam o mundo (como diz no poema inicial). Nesse lugar incomum, h\u00e1 espa\u00e7o para o esc\u00e1rnio diante das met\u00e1foras l\u00edricas tradicionais, como as folhas mortas, v\u00edtimas da incontin\u00eancia de um c\u00e3o, ou as cores que explodem num jardim e n\u00e3o o atingem. O desamor, a mis\u00e9ria, a s\u00edntese, o sapo e lesma s\u00e3o as personagens que atingem o alvo: as artimanhas da falsa poesia. No seu lugar, Marco Celso instaura a disson\u00e2ncia, o desencontro e a nega\u00e7\u00e3o de uma pretensa identidade. Exausto do pa\u00eds que n\u00e3o se encontra, em poucos poemas ele prepara o leitor para o que vir\u00e1, quando ent\u00e3o poder\u00e1 colocar no lugar desse pesadelo da linguagem algo que n\u00e3o seja confundido com met\u00e1fora, produto ou movimento. O poeta precisa destruir o mundo para reencontrar o que a literatura de araque esconde (ou que n\u00e3o tem compet\u00eancia para alcan\u00e7ar).<br \/>\nOF\u00cdCIO &#8211; As Can\u00e7\u00f5es para os Amigos Vagabundos s\u00e3o inauguradas por um poema que nasce cl\u00e1ssico, Hept\u00e1gono: <em>sete anjos s\u00e3o desafiados\/ que guardam os rebanhos\/humanos que guardam\/ os rebanhos de gado<\/em>. O poeta abre a porta do curral onde est\u00e1 encerrada a vida jogada fora, opondo a verdade \u00e0 ilus\u00e3o. Ao soltar as feras no palco de um circo, o artista promete suic\u00eddio, mas engana o p\u00fablico, lamentando: <em>como \u00e9 duro ganhar a vida, prefiro morrer para continuar vivendo<\/em>. Ao interagir com esse p\u00fablico imagin\u00e1rio, s\u00e1dico, que como ele v\u00ea tudo ao contr\u00e1rio, j\u00e1 que se vive dentro do espelho, territ\u00f3rio da mentira, ele parte para a reflex\u00e3o sobre seu of\u00edcio. Escrever \u00e9 dana\u00e7\u00e3o, diz o poeta que convive com poemas na meia, no lixo, na cozinha. Rodeado pela tenta\u00e7\u00e3o de uma poesia f\u00e1cil, o poeta vai em busca do poema perfeito, o que se forma naturalmente nas sobras de um grafite tirado de um l\u00e1pis.<br \/>\nDESTINO &#8211; A luta com a folha branca e a indiferen\u00e7a para com o destino das palavras enfim encontradas, e que agora s\u00e3o passadas a ferro, des\u00e1gua no pr\u00f3prio poema que relata essa luta. O tema bem passado, ou seja, redundante, n\u00e3o ultrapassa o que acaba de ser escrito. Seria mais f\u00e1cil ceder ao que se oferece ao seu talento. Mas ele prefere o que est\u00e1 oculto e \u00e9 imposs\u00edvel de encontrar, a n\u00e3o ser que descubra a poesia limitada pela sua pr\u00f3pria moldura, reveladora de que a palavra n\u00e3o costuma cair do c\u00e9u como um milagre, mas \u00e9 constru\u00edda de forma anti-natural e se justifica ao ser enunciada. O poema \u00e9 a pr\u00f3pria coisa que o poeta busca e n\u00e3o se esconde atr\u00e1s dos objetos.<br \/>\nENCONTRO &#8211; Nessa altura do campeonato, vemos que sucumbimos tamb\u00e9m \u00e0 vontade de enquadrar o poema que existe fora das nossas considera\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que a poesia habita esse lugar \u00fanico, gerado pela veia aberta de um poeta aos trope\u00e7os Em nosso socorro, acorre <em>Os poetas n\u00e3o s\u00e3o desse mundo<\/em>, obra-prima da poesia contempor\u00e2nea, que faz chorar as pedras. Este cap\u00edtulo dos amigos se encerra com um r\u00e9quiem, representa\u00e7\u00e3o da poesia que vive do Outro Lado. Longe da tristeza e o \u00f3dio, o poeta livra-se dos sentimentos para reencontr\u00e1-los no n\u00e3o-lugar, a paix\u00e3o. \u00c9 quando vem o terceiro cap\u00edtulo, Can\u00e7\u00f5es de Amor, que rema contra a corrente da entrega, despe a tradi\u00e7\u00e3o de falsidades, procura o que n\u00e3o acha, desiste para encontrar.<br \/>\nESS\u00caNCIA &#8211; Mais importante do que a pessoa amada, \u00e9 a paix\u00e3o de cada passo, nesta viagem infinita de Marco Celso Huffel Viola, o Grande Poeta Oculto, o cara com que tenho o privil\u00e9gio de ser contempor\u00e2neo, de ter ido para a pra\u00e7a mal t\u00ednhamos 19 ou vinte anos e que agora nos reencontramos, depois de tanto sal que jogaram sobre n\u00f3s. Sua poesia redime n\u00e3o apenas os poetas que somos e que vamos ficar. Mas o que nos acompanham, os que escrevem e l\u00eaem, os que vivem e sabem: algo pulsa no escuro e n\u00e3o \u00e9 essa fanfarra de luzes sem brilho. E o que pulsa \u00e9, sim, sagrado, sem o sacril\u00e9gio da pompa, nem a pose da humildade. Avessos, travessos, vesgos, somos o que n\u00e3o finda E o poeta \u00e9 o demiurgo da realidade que \u00e9 negada, o inimigo da ilus\u00e3o que nos mata, e o criador de mundos. Neles reencontramos nossa ess\u00eancia, que estava jogada no lixo.<\/p>\n<p><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O poeta maldito n\u00e3o \u00e9 um maledicente nem um amaldi\u00e7oado. E sim um poeta sem o teto das palavras, para usar o verso de um deles (e possivelmente o \u00fanico), Marco Celso Huffel Viola, que est\u00e1 novamente na pra\u00e7a com seu livro Viver a paix\u00e3o de cada passo (Editora Alegoria, 80 pgs., R$19,50). Celso lembra, nesta \u00e9poca em que continuam fazendo carreiras liter\u00e1rias empilhando poemas, que a poesia n\u00e3o serve para nada e sua import\u00e2ncia e for\u00e7a vem desse mist\u00e9rio. 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