{"id":1061,"date":"2009-12-17T16:12:23","date_gmt":"2009-12-17T18:12:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1061"},"modified":"2009-12-21T21:48:09","modified_gmt":"2009-12-21T23:48:09","slug":"o-barco-sobre-a-montanha","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-barco-sobre-a-montanha","title":{"rendered":"O BARCO SOBRE A MONTANHA"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Pelo excesso de uso, o globo tornou-se quase todo escuro. Apenas na base um l\u00edquido viscoso se concentrava, luminoso, como querendo pingar para fora da redoma. Talvez fossem mariposas e vagalumes amassados, que penetraram no que pensavam ser um abrigo. A energia que alimentava a esfera n\u00e3o tinha mais for\u00e7a para torn\u00e1-la brilhante, como acontece ciclicamente, quando ent\u00e3o o conjunto parece um bal\u00e3o de g\u00e1s que sobe rapidamente para as estrelas. Essa escassez de uma fonte mais poderosa de luz fazia com que a esfera, de rosto negro, apresentasse, no bojo iluminado aos seus p\u00e9s, o aspecto de um barco destacado no c\u00e9u limpo e negro. Imaginei que esse lastro misterioso, id\u00eantico a um sorriso, escancarava uma boca de com\u00e9dia, embora o clima fosse de extrema sobriedadede. O visgo pesava e fazia com que o barco navegasse um pouco acima da montanha, lugar onde permaneceu por horas, enquanto eu tentava decifrar a charada, instalado na varanda, vizinha da noite infinita.<\/p>\n<p>OCEANO &#8211; Era como as lanternas antigas, carregadas no ombro, por viajantes que cruzavam o deserto aproveitando a friagem da madrugada. Eles caminhavam penosamente, com sua luz a tiracolo, para que pudessem ver peixes e lobos, j\u00e1 que no territ\u00f3rio do sonho tudo se mistura. A montanha, parte de uma serra com seu desenho perfeito em contornos curvos de tamanhos diversos, era a onda que tentava lamber o casco daquela embarca\u00e7\u00e3o que jamais descia at\u00e9 \u00e0 \u00e1gua dura da mata, que subia at\u00e9 o topo da eleva\u00e7\u00e3o. Havia um movimento pendular que enganava os sentidos. Aquilo navegava sem sair do lugar, singrava um mar de corcovas fixas e parecia tentar escapar da atra\u00e7\u00e3o que sentia para enfim pousar no cume desse oceano bruto. Mas havia algo que suspendia o globo, como se realmente algu\u00e9m a levasse no ombro e essa criatura, invis\u00edvel, tinha a for\u00e7a de dez gigantes.<\/p>\n<p>ESPET\u00c1CULO &#8211; Se a base iluminada imitava o barco, que n\u00e3o se decidia se lambia as ondas ou n\u00e3o, o resto da esfera se mostrava impass\u00edvel, satisfeita talvez com seu aspecto de breu contornado por leve fio de seda brilhante, que fazia uma perfeita bainha curva em forma de coroa. Era, essa parte escura, como a vela do barco a desprezar o vento, j\u00e1 que se mantinha pela majestade do que imaginava ser. Gostaria que me notasse, mas lembrei que todo o espet\u00e1culo era compartilhado pelos habitantes dispersos desta ilha, que vieram morar aqui para espiar o enigma. Estamos marcados pelo inverno, que incomodou na sua despedida, e o frio intenso tinha nos deixado exaustos de tosses e febres. Agora, curados, repous\u00e1vamos for\u00e7ando a barra das esta\u00e7\u00f5es, querendo que o clima favorecesse o encontro na varanda gelada. Mas ainda \u00e9 cedo para o desfrute da paisagem. A apari\u00e7\u00e3o no horizonte, barco circunspecto de uma noite que n\u00e3o dispensou ainda os favores do inverno, nos avisava que s\u00f3 uma parte de n\u00f3s brilha, enquanto o resto permanece envolto numa t\u00fanica de mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>CHANCE &#8211; O importante \u00e9 que por algum tempo ficamos absortos no que vemos, deixando de lado o que nos atormenta. Notamos que o Tempo \u00e9 indiferente a tantos problemas e que podemos lan\u00e7ar sobre aquele barco uma corda para nele amarrar o pensamento privado de grandeza. Ficamos ali, presos na Lua Nova, como n\u00e1ufragos \u00e0 espera de uma chance. Talvez o Navegador, penalizado com nossa situa\u00e7\u00e3o, puxe a corda e nos coloque dentro. Ficaremos ent\u00e3o no fundo da embarca\u00e7\u00e3o, com o olhar deslumbrado para a grande ab\u00f3bada escura que nos envolve, e que mostra, na superf\u00edcie, um fio de renda brilhante. \u00c9 quando, de l\u00e1, abanamos para n\u00f3s instalados na rede da casa, enquanto aguardamos que a navega\u00e7\u00e3o encontre seu destino. Mas \u00e9 tarde e vamos dormir. Quando dormimos, o navegador suspira e define o rumo para longe, onde nosso olhar jamais alcan\u00e7a. Ele nos deixa s\u00f3s, com a imagina\u00e7\u00e3o carregada por um l\u00edquido viscoso de mariposas e vagalumes esmigalhados. Os p\u00e9s do Navegador pisoteiam aquela massa de almas encantadas, enquanto sopra o vento da Noite intermin\u00e1vel, companheira dos sonhos, irm\u00e3 de fantasmas, musa da poesia que enfim nos abra\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se a base iluminada imitava o barco, que n\u00e3o se decidia se lambia as ondas ou n\u00e3o, o resto da esfera se mostrava impass\u00edvel, satisfeita talvez com seu aspecto de breu contornado por leve fio de seda brilhante, que fazia uma perfeita bainha curva em forma de coroa. 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