{"id":1063,"date":"2009-12-17T16:14:32","date_gmt":"2009-12-17T18:14:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1063"},"modified":"2009-12-21T20:51:31","modified_gmt":"2009-12-21T22:51:31","slug":"eterno-presente","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/eterno-presente","title":{"rendered":"ETERNO PRESENTE"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Quer que eu &#8220;levo&#8221;? Perguntou a passageira para quem estava de p\u00e9 carregando um pacote. O fim do subjuntivo coincide com a elimina\u00e7\u00e3o de conjuga\u00e7\u00f5es inteiras, como acontece tamb\u00e9m com o mais-que-perfeito e o condicional. N\u00e3o h\u00e1 mais nada a conjugar, j\u00e1 que vivemos no eterno presente. N\u00e3o se trata de pregui\u00e7a mental ou de sentimento de exclus\u00e3o, como querem os pensamentos tradicionais \u00e0 direita e \u00e0 esquerda. Mas do foco escolhido pela civiliza\u00e7\u00e3o para onde fomos empurrados, que \u00e9 uma esp\u00e9cie de O Feiti\u00e7o do Tempo (o cult de 1993 de Harold Ramis, com Bill Murray) em escala planet\u00e1ria. Nesse filme, o protagonista n\u00e3o consegue se desvencilhar de determinado dia e praticamente enlouquece tentando chegar na manh\u00e3 seguinte.<\/p>\n<p>Quando n\u00e3o h\u00e1 amanh\u00e3, o agora substitui toda esp\u00e9cie de viv\u00eancia. Isso \u00e9 incentivado pela literatura de auto-ajuda, religiosa e corporativa. Como a mulher de Lot, voc\u00ea est\u00e1 proibido de olhar para o passado sob pena de se imobilizar para sempre no gesto catat\u00f4nico que fez sua ru\u00edna. Quando a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 substitu\u00edda pelo sistema mal assimilado dos Estados Unidos, em que o pragmatismo vence a forma\u00e7\u00e3o humanista (expuls\u00e3o do ingl\u00eas, franc\u00eas e latim obrigat\u00f3rios no gin\u00e1sio, que tamb\u00e9m sumiu), e o rigor do ensino \u00e9 vencido pelo falso protecionismo, ent\u00e3o temos essa preciosidade confundida com linguagem popular que \u00e9 o j\u00e1 cl\u00e1ssico &#8220;n\u00f3s vai&#8221;.<\/p>\n<p>O que chamam de povo \u00e9 apenas uma proje\u00e7\u00e3o das limita\u00e7\u00f5es dos que deveriam represent\u00e1-lo sem preconceitos. Por achar que o povo n\u00e3o merece nada mais do que fren\u00e9ticos sacudir de quadris em hor\u00e1rio nobre (de manh\u00e3 \u00e0 noite) a produ\u00e7\u00e3o audiovisual se escuda no lugar comum de que &#8220;\u00e9 disso que o povo gosta&#8221;. Quando lembramos Paulinho da Viola ou Baden Powell, que vieram de classes sociais abaixo do que se considera nobre, sabemos que essa argumenta\u00e7\u00e3o tem algo de errado. A verdade \u00e9 que se imp\u00f4s uma imagem equivocada de povo, que exclui a possibilidade de uma reden\u00e7\u00e3o por meio da educa\u00e7\u00e3o e das oportunidades.<\/p>\n<p>A cat\u00e1strofe \u00e9 que se espalhou por todo tecido social essa id\u00e9ia equivocada de um povo \u00e1grafo e sem condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de consumir ou produzir qualquer cultura mais sofisticada, como a conjuga\u00e7\u00e3o de todos os tempos de verbos em todas as pessoas existentes. A g\u00edria, que tinha gra\u00e7a quando era transgress\u00e3o e fonte de novas palavras, acaba sendo estimulada por essa necessidade de agradar o povo e virando uma pandemia da linguagem. Parece que existe uma obriga\u00e7\u00e3o de todo mundo estar ligado e ser chamado de cara. Quando n\u00e3o h\u00e1 o par\u00e2metro da l\u00edngua culta, n\u00e3o h\u00e1 tamb\u00e9m a no\u00e7\u00e3o de vanguarda ou avan\u00e7o.<\/p>\n<p>O que invoca nesse pesadelo da linguagem \u00e9 que os gestos acompanham a postura folgada das express\u00f5es. \u00c9 preciso se defender dos cotovelos, por exemplo, que freneticamente pontuam as rela\u00e7\u00f5es verbais em ambientes cada vez mais apertados, como nos coletivos. Se voc\u00ea est\u00e1 sentado, e ao seu lado uma dupla se esmera em contar alguma coisa em mon\u00f3logos concomitantes (j\u00e1 que n\u00e3o existe mais di\u00e1logo), cuidado com os cotovelos pontiagudos. Eles podem abater seu rosto numa curva da frase, se \u00e9 que podemos chamar de frases os arranques de muitas interjei\u00e7\u00f5es recorrentes. &#8220;Quer que eu saio?&#8221; deveria ser a pergunta b\u00e1sica para esse tipo de amea\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando n\u00e3o h\u00e1 amanh\u00e3, o agora substitui toda esp\u00e9cie de viv\u00eancia. Isso \u00e9 incentivado pela literatura de auto-ajuda, religiosa e corporativa. Como a mulher de Lot, voc\u00ea est\u00e1 proibido de olhar para o passado sob pena de se imobilizar para sempre no gesto catat\u00f4nico que fez sua ru\u00edna. Quando a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 substitu\u00edda pelo sistema mal assimilado dos Estados Unidos, em que o pragmatismo vence a forma\u00e7\u00e3o humanista (expuls\u00e3o do ingl\u00eas, franc\u00eas e latim obrigat\u00f3rios no gin\u00e1sio, que tamb\u00e9m sumiu), e o rigor do ensino \u00e9 vencido pelo falso protecionismo, ent\u00e3o temos essa preciosidade confundida com linguagem popular que \u00e9 o j\u00e1 cl\u00e1ssico &#8220;n\u00f3s vai&#8221;. (Cr\u00f4nica publicada no caderno Variedades, do Di\u00e1rio Catarinense, em 15 de setembro de 2006).<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1063"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1063"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1063\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1629,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1063\/revisions\/1629"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1063"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1063"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1063"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}