{"id":1067,"date":"2009-12-17T16:15:46","date_gmt":"2009-12-17T18:15:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1067"},"modified":"2009-12-21T21:45:48","modified_gmt":"2009-12-21T23:45:48","slug":"livro-cumplice","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/livro-cumplice","title":{"rendered":"LIVRO C\u00daMPLICE"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>O livro \u00e9 c\u00famplice quando revela o que ningu\u00e9m sabe. A narrativa nos empolga porque, acreditamos, somos testemunhas de segredos s\u00f3 a n\u00f3s revelados. \u00c9 como um tesouro escondido, do qual possu\u00edmos a exclusividade do mapa. O autor dormia em seu anonimato de papel antigo at\u00e9 que f\u00f4ssemos l\u00e1 abrir uma fresta na sua solid\u00e3o e degredo. Levamos esse tipo de livro de maneira disfar\u00e7ada, misturado a coisas comuns, como uma revista ou um impresso qualquer. Se formos flagrados, sacudimos os ombros e pegamos a brochura na ponta dos dedos, com desd\u00e9m.<\/p>\n<p>Aprendemos coisas como a palavra desd\u00e9m nessa literatura que n\u00e3o deixou marcas, essa mem\u00f3ria oculta, essa \u00fanica edi\u00e7\u00e3o sobre o que para sempre foi perdido. Ningu\u00e9m pode desconfiar do que trazemos embaixo do bra\u00e7o como se fosse uma c\u00f4dea de p\u00e3o. Exatamente, c\u00f4dea \u00e9 tamb\u00e9m esse tipo de palavra enterrada em p\u00e1ginas esquecidas. N\u00f3s, os leitores obl\u00edquos, costumamos ler obras atiradas no tempo, antes que descubram o quanto \u00e9 cult, ou importante, ou fundamental.<\/p>\n<p>No momento da descoberta, ningu\u00e9m \u00e0 vista sabe do que se trata. Voc\u00ea vira o mundo atr\u00e1s de algumas pistas e n\u00e3o encontra uma s\u00f3 pegada de uma poss\u00edvel leitura. Ent\u00e3o, satisfeito, embaixo de cobertas, na curva do quintal, na pra\u00e7a vazia em feriado, voc\u00ea abre, tr\u00eamulo, aquela mina an\u00f4nima, aquele territ\u00f3rio sagrado onde somos ouvintes de sinetas, passos em castelos, sons de metralha.<\/p>\n<p>Quando o exemplar capaz de nos prender a respira\u00e7\u00e3o escasseia, mergulhamos ainda mais fundo \u00e0 procura de pepitas. \u00c9 o momento de enfrentar bibliotecas gigantescas e vazias e resgatar do fundo de arm\u00e1rios de ferro coisas que s\u00f3 n\u00f3s vamos ler, porque s\u00f3 n\u00f3s temos essa obsess\u00e3o de ir at\u00e9 o fim quando algo nos acena de fora do tempo. Podemos ent\u00e3o abrir a faca o relat\u00f3rio sobre a constru\u00e7\u00e3o dos quart\u00e9is, de autoria do jovem engenheiro Roberto Simonsen, na gest\u00e3o do ministro da Guerra Pandi\u00e1 Cal\u00f3geras. Ou ent\u00e3o descobrimos, enrolados em alguma estante contra a parede do \u00faltimo andar de um sebo que vai fechar no dia seguinte, aquele pequeno volume de capa vermelha e que mostra textos e fotos de uma guerra desconhecida.<\/p>\n<p>Dentro da encaderna\u00e7\u00e3o caprichada e velha, voc\u00ea v\u00ea um saqueador co\u00e7ando a cabe\u00e7a diante de algumas bolsas de arroz e feij\u00e3o. A legenda diz que ele n\u00e3o consegue carregar o produto do seu roubo. O autor \u00e9 um padre que conseguiu levar a bom termo o moment\u00e2neo caos de uma escola famosa nos anos vinte, alvo da revolu\u00e7\u00e3o que tomou conta da grande cidade. Mas tudo isso no Brasil? &#8211; me perguntaram no dia em que escancarei as fotos de tiros de canh\u00e3o em pr\u00e9dios de todos os tipos, para estudantes surpresos.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m os volumes que jamais reencontramos, como os livros de aventuras sobre insurretos indon\u00e9sios, que estavam dormindo na biblioteca, j\u00e1 extinta, do col\u00e9gio. Ou o livro de bolso que lemos em 24 horas seguidas e nem atinamos direito que era O Morro dos Ventos Uivantes, a maior hist\u00f3ria de amor jamais escrita. \u00c9ramos Heathcliff a perambular pela charneca.<\/p>\n<p>Lemos charneca e lembramos uma piada de Vin\u00edcius de Moraes sobre essa palavra. S\u00f3 existe em romance ingl\u00eas antigo. Em livro c\u00famplice, escrito s\u00f3 para n\u00f3s, leitores obl\u00edquos, essa esp\u00e9cie que jamais se extingue.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O livro \u00e9 c\u00famplice quando revela o que ningu\u00e9m sabe. A narrativa nos empolga porque, acreditamos, somos testemunhas de segredos s\u00f3 a n\u00f3s revelados. \u00c9 como um tesouro escondido, do qual possu\u00edmos a exclusividade do mapa. O autor dormia em seu anonimato de papel antigo at\u00e9 que f\u00f4ssemos l\u00e1 abrir uma fresta na sua solid\u00e3o e degredo. (Cr\u00f4nica publicada no caderno Variedades, do Di\u00e1rio Catarinense, em 13 de stembro de 2006)<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1067"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1067"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1067\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1645,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1067\/revisions\/1645"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1067"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1067"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1067"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}