{"id":107,"date":"2005-05-13T21:45:49","date_gmt":"2005-05-13T23:45:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=107"},"modified":"2009-12-20T19:14:16","modified_gmt":"2009-12-20T21:14:16","slug":"notre-dame-de-paris-um-livro-feito-de-pedra","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/notre-dame-de-paris-um-livro-feito-de-pedra","title":{"rendered":"NOTRE-DAME DE PARIS: UM LIVRO FEITO DE PEDRA"},"content":{"rendered":"<div><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/catedral2.jpg\" border=\"0\" alt=\"Catedral\" \/><\/p>\n<p><span style=\"font-family: ARIAL; color: red; font-size: xx-small;\"><strong><span style=\"color: #660000;\">UM LIVRO FEITO DE PEDRA<\/span><\/strong><span style=\"color: #660000;\">*<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: CoURIER NEW,Courier;\"><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/span><\/div>\n<p><span style=\"font-family: Courier New,Courier;\"><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/gargula3.jpg\" border=\"0\" alt=\"Catedral\" align=\"left\" \/><br \/>\n<img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/icons\/n2.gif\" alt=\"\" align=\"left\" \/>otre-Dame \u00e9 um livro com o porte de um monumento. Como a igreja que o inspira, \u00e9 uma obra de transi\u00e7\u00e3o, exibindo a majestade de um cl\u00e1ssico e a decad\u00eancia do folhetim. Suas personagens expressam a diversidade e se identificam com cada um dos elementos da sua estrutura m\u00faltipla e complexa: o padre santo e s\u00e1bio transformado em vil\u00e3o ao longo da narrativa e que abriga e alimenta, sem saber, a figura que sintetiza sua pr\u00f3pria decad\u00eancia; o poeta dividido entre a cultura vazia do poder e a presen\u00e7a viva do povo nas ruas; a dan\u00e7arina que encarna a beleza e a gra\u00e7a do movimento em confronto com uma espiritualidade r\u00edgida fundada no medo. Assim, a trama que enreda o leitor revela a solidez acumulada pela Hist\u00f3ria em queda livre para o abismo.<\/p>\n<p>No cap\u00edtulo II do Livro VI (&#8220;Ceci tuera cela&#8221; &#8211; Isto matar\u00e1 aquilo) Victor Hugo explica como a revolu\u00e7\u00e3o de Gutemberg esvaziou e aniquilou a import\u00e2ncia das obras da arte e da arquitetura antigas. Estas, eram os livros da humanidade antes que a palavra impressa tornasse a heran\u00e7a das gera\u00e7\u00f5es em algo indestrut\u00edvel, exatamente por ser um instrumento simples, leve e infinito. Os novos monumentos deixaram de ser os templos, as igrejas e as pir\u00e2mides, mas as grandes obras liter\u00e1rias. \u00c9 nesse enfoque que Notre-Dame foi escrito, o de tornar-se uma edifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o amea\u00e7ada pela ru\u00edna.<\/p>\n<p>Por ser uma obra de transi\u00e7\u00e3o, Notre-Dame est\u00e1 dividida entre o libelo &#8211; quando o autor lamenta os preju\u00edzos sofridos pela catedral de Paris, promovidos pelo trabalho dos artistas, que substitu\u00edram os povos, as institui\u00e7\u00f5es e as na\u00e7\u00f5es na constru\u00e7\u00e3o dos monumentos &#8211; e a celebra\u00e7\u00e3o &#8211; quando ele abre m\u00e3o de ficar preso ao passado para enxergar a import\u00e2ncia das obras impuras, que misturam estilos e s\u00e3o a s\u00edntese de contribui\u00e7\u00f5es centen\u00e1rias: &#8220;D\u2019ailleurs, ces \u00e9difices de la transition du roman au gothique ne sont pas moins pr\u00e9cieux \u00e0 \u00e9tudier que les types purs. Ils expriment une nuance de l\u00e1rt qui serait perdue sans eux. C\u00e9st la greffe de l\u00f3give sur le plein cintre&#8221; (pg. 161, Cap. 1 Livro III).<\/p>\n<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/catedral.jpg\" border=\"0\" alt=\"Catedral\" align=\"right\" \/>Ironicamente, o cinema e a civiliza\u00e7\u00e3o da imagem do s\u00e9culo 20 fizeram sobre a obra de Victor Hugo o que ele lamenta na livro em rela\u00e7\u00e3o aos artistas p\u00f3s-Gutemberg. As adapta\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas &#8211; e as tradu\u00e7\u00f5es brasileiras, tanto na manipula\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo quanto na elimina\u00e7\u00e3o de cap\u00edtulos inteiros, como o j\u00e1 citado Ceci Tuera Cela &#8211; privilegiam o Corcunda em detrimento da personagem principal, que \u00e9 Notre-Dame. Existem qualidades nos filmes feitos sobre o tema, onde o Corcunda \u00e9 interpretado por Lon Chaney, na primeira vers\u00e3o, muda, apresentada em classe; por Charles Laughton, na segunda vers\u00e3o dos anos 30, exibida pela TV Cultura; e por Anthony Quinn, na vers\u00e3o colorida dos anos 50. Mas nenhum deles revela a verdadeira natureza dessa personagem.<\/p>\n<p>A deformidade de Quasimodo &#8211; nome derivado de uma data cat\u00f3lica, um domingo depois da P\u00e1scoa, e que revela um trabalho inacabado &#8211; expressa a transmuta\u00e7\u00e3o da igreja em caricatura, da arte substitu\u00edda pela geometria, da c\u00fapula identificada com a &#8220;bosse&#8221;: &#8220;Voici les \u00e9glises de Louis XIII, lourdes, trapues, surbaiss\u00e9es, ramass\u00e9es, charg\u00e9es d\u2019un dun d\u00f4me comme d\u2019une bosse (pg.250 do Cap. Ceci Tuera Cela). A descri\u00e7\u00e3o das caretas no Cap\u00edtulo V do Livro I ajuda a esclarecer esse ponto: &#8220;Apr\u00e8s toutes les figures pentagones, hexaghones e h\u00e9teroclites que s\u2019\u00e9taient succ\u00e9d\u00e9e \u00e0 cette lucarne sans r\u00e9aliser cet id\u00e9al du grotesque que si etait construit dans le imaginations exalt\u00e9es par l\u2019orgie, il ne fallait rien moins, pour enlever les sufrages, que la grimace sublime qui venait d\u2019\u00e9blouir l\u2019assembl\u00e9e&#8221; (pg.88).<\/p>\n<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/gargula.jpg\" border=\"0\" alt=\"Catedral\" align=\"left\" \/>Essa careta sublime tem um nariz &#8220;t\u00e8tra\u00e8dre&#8221;, enquanto seu olho direito desaparecia sobre uma enorme verruga &#8211; e \u00e9 preciso destacar &#8220;toutes les verrues e tous les fungus que d\u00e9figurent cette vieille architecture caduque&#8221;, como diz o autor na pg. 250. Invocando a geometria, Victor Hugo mostra como a arte se desfigurou nos s\u00e9culos XVI, XVII e XVIII: &#8220;A partir de Fran\u00e7ois II, la forme architeturale de l\u2019\u00e9difice s\u2019efface de plus en plus et laisse saillir la forme g\u00e9ometrique, comme la charpente osseuse d\u2019un malade amigri. Les belles lignes de l\u2019art font place aux froides et inexorables lignes du g\u00e9ometre. Un \u00e9difice n\u00e9st plus un \u00e9difice, c\u2019est un poly\u00e8dre.(&#8230;). De Fran\u00e7ois II \u00e0 Louis XV, le mal a cr\u00fb en progression geom\u00e9trique. L\u2019art n\u2019est plus que la peau sur les os. Il agonise mis\u00e9rablement.&#8221;<\/p>\n<p>O Corcunda \u00e9 portanto uma deformidade da geometria, a anti-arte, a express\u00e3o da Queda. Por isso ele dan\u00e7a sobre o abismo antes de projetar-se definitivamente nele: &#8220;Le sonneur recula de qualques pas derri\u00e8re l\u2019archidiacre, et tout \u00e0 coup, se ruant sur lui avec fureur, de ses deus grosses mains il le poussa par le dos dans l\u2019ab\u00eeme&#8221;. Mas ele \u00e9 inocente, v\u00edtima da hipocrisia dos homens e das institui\u00e7\u00f5es como a Igreja e a Magistratura, que condenam pessoas do povo \u00e0 morte. Nos julgamentos de Quasimodo e Esmeralda, o folhetim penetra o monumento, o drama encharca a pedra.<\/p>\n<p>O bobo &#8211; &#8220;cloche&#8221; &#8211; dan\u00e7a no alto da torre como um sino &#8211; &#8220;cloche&#8221; &#8211; chamando a aten\u00e7\u00e3o dos mendigos &#8211; &#8220;cloches&#8221;. As palavras, em Hugo, s\u00e3o as pedras do livro, com m\u00faltiplas fun\u00e7\u00f5es e cruzamentos. &#8220;Cour&#8221; \u00e9 corte e p\u00e1tio, \u00e9 institui\u00e7\u00e3o e espa\u00e7o marginais. Paris vista do alto da Notre Dame \u00e9 uma soma de monumentos, embalada pelo som dos sinos:&#8221;&#8230;que cette cit\u00e9 qui n\u2019est plus qu\u2019un orchestre; que cette symphonie que fait le bruit d\u2019une temp\u00eate.&#8221;<\/p>\n<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/catedral3.jpg\" border=\"0\" alt=\"Catedral\" align=\"left\" \/><\/p>\n<p>Nos filmes, Notre-Dame, que \u00e9 a verdadeira personagem principal em Victor Hugo, fica em segundo plano. A igreja-cen\u00e1rio n\u00e3o se destaca, serve apenas de moldura para o dramalh\u00e3o do amor teatral entre o soldado e a dan\u00e7arina, da trag\u00e9dia da m\u00e3e desesperada que deseja morte da filha, da obsess\u00e3o e o ci\u00fame do irm\u00e3o do di\u00e1cono.<\/p>\n<p>O enfoque do romance \u00e9 oposto ao do cinema. No livro, as personagens existem em fun\u00e7\u00e3o da igreja e as pessoas s\u00e3o as for\u00e7as liberadas pela decad\u00eancia da arte. O escritor Gringoire vaga perdido pelas ruas de Paris sem descobrir a import\u00e2ncia que assumiu sua profiss\u00e3o depois de Gutenberg: &#8220;&#8230; et voyant que je n\u00e9tais bon \u00e0 rien, je me fis de mon plein gr\u00e9 po\u00e8te et compositeur de rythmes. C\u00e9st un \u00e9tat qu\u00f3n peut toujours prendre quand on est vagabond&#8230;&#8221;(pg 152, Cap. VII, Livro II).<\/p>\n<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/gargula2.jpg\" border=\"0\" alt=\"Catedral\" align=\"right\" \/>Em oposi\u00e7\u00e3o a esta imagem do escritor no s\u00e9culo 19 &#8211; que Victor Hugo denuncia ambientado no s\u00e9culo 15 &#8211; um livro feito de pedra como Notre-Dame de Paris instaura uma postura intelectual s\u00f3lida. A obra liter\u00e1ria op\u00f5e-se \u00e0 decad\u00eancia, resgatando a grandeza perdida da arte. Em Gringoire, as palavras s\u00e3o como a caia\u00e7\u00e3o deformando antigos monumentos. Em Victor Hugo, elas funcionam como uma orquestra e assumem a for\u00e7a de uma tempestade.<\/p>\n<p><\/span><\/p>\n<table border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" width=\"100%\" align=\"center\" bgcolor=\"#663333\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\n<strong><span style=\"color: #663333;\">BIBLIOGRAFIA<\/span><\/strong><br \/>\n<span style=\"font-family: ARIAL; color: #ffffcc;\"><strong>HUGO,                         VICTOR<em> &#8211; &#8220;NOTRE-DAME de Paris&#8221;<\/em><\/strong><em>,<\/em> &#8211; Pr\u00e9face<br \/>\nde Louis Chevalier. Folio Classique, Texte Integral &#8211;<br \/>\nParis, Gallimard, 1966\/1974\/1996 <\/span><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<div><span style=\"font-family: Courier New,Courier;\"><br \/>\n<span style=\"font-family: ARIAL; color: blue;\"><em>*texto<br \/>\napresentado na cadeira de Hist\u00f3ria Social da Arte,<br \/>\nda professora Teresa Aline, no segundo semestre de 1997. <\/em><\/span><\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os novos monumentos deixaram de ser os templos, as igrejas e as pir\u00e2mides, mas as grandes obras liter\u00e1rias. \u00c9 nesse enfoque que Notre-Dame foi escrito, o de tornar-se uma edifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o amea\u00e7ada pela ru\u00edna.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[15],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/107"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=107"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/107\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1367,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/107\/revisions\/1367"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=107"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=107"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=107"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}