{"id":1073,"date":"2009-12-17T16:18:20","date_gmt":"2009-12-17T18:18:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1073"},"modified":"2009-12-21T21:47:34","modified_gmt":"2009-12-21T23:47:34","slug":"viagem-no-barro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/viagem-no-barro","title":{"rendered":"VIAGEM NO BARRO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Aos 13 anos, fui arrancado da minha casa para uma viagem inesquec\u00edvel, que cruzou tr\u00eas Estados por estradas de barro e aportou no meio do mato. Come\u00e7amos na fronteira, passamos por Santa Rosa, Xaxim e Xanxer\u00ea, Cascavel e Londrina, que ainda exibiam um aspecto de faroeste de terra vermelha. O destino era Goio-Er\u00ea, munic\u00edpio que fica al\u00e9m de Campo Mour\u00e3o, cidade maior e mais conhecida. Tudo id\u00e9ia de um cunhado que manobrava sua kombi de estima\u00e7\u00e3o, o pior carro poss\u00edvel para t\u00e3o longa cruzada.<\/p>\n<p>A kombi derrapava em curvas alagadas e costumava ficar presa nos contratempos das trilhas. Nessa ocasi\u00e3o tive oportunidade de conhecer as correntes dos pneus, que servem para dar pegada em territ\u00f3rio escorregadio. O detalhe \u00e9 que eu n\u00e3o tinha conhecimento do objeto e ao ser convocado, no meio do temporal, para corrigir o problema das derrapagens, fiquei boiando no fundo do assento. Correntes? Onde? \u00c9 que as ditas eram maiores do que o calibre do aro e costumavam escapar, deixando \u00e0 merc\u00ea das intemp\u00e9ries nossa ambi\u00e7\u00e3o de fazer mais do que cem quil\u00f4metros por dia, o que era muito raro.<\/p>\n<p>A paci\u00eancia do capit\u00e3o da jornada se esgotava cada vez que vislumbrava minha falta de aten\u00e7\u00e3o a coisas b\u00e1sicas como amarrar um pneu com argolas de ferro para que o barro cedesse ao acelerador. Mas finalmente o sol levantou-se quando cruzamos a fronteira com Santa Catarina, na \u00fanica vez em que passei pelo oeste do Estado, que me apareceu encantador, principalmente depois de toda aquela chuva. Mas o clima se vingou ao chegarmos no Paran\u00e1. L\u00e1 tivemos que pousar em oficinas para descobrir porque raios a carruagem se recusava a seguir adiante, especialmente naquela ocasi\u00e3o em que est\u00e1vamos perto de chegar ao fim da prova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esses acontecimentos se deram no in\u00edcio dos anos 1960 e sempre que conto essa hist\u00f3ria tenho de jurar que vi um animal silvestre de grande porte saltar bem no meio da picada que nos levava a Goio-Er\u00ea. Em apenas um segundo ele sumiu do mato. Dez anos depois passei pelo mesmo local e s\u00f3 encontrei descampado. As \u00e1rvores tinham sumido, assim como aquelas sensa\u00e7\u00f5es do menino em pleno rito de passagem.<\/p>\n<p>A temporada na casa do cunhado e de minha irm\u00e3 coincidiu com a leitura compulsiva de Sherlock Holmes, pois nada havia a fazer na pequena cidade do interior paranaense. Li metade da cole\u00e7\u00e3o e s\u00f3 parei depois de dois eventos. Um deles aconteceu no instante em que o bravo Sherlock descobrira a origem do interlocutor apenas observando a natureza do barro que grudava no sapato do visitante. Achei que era perspic\u00e1cia demais, mesmo para o maior detetive do mundo. O outro evento envolveu o volume O C\u00e3o dos Baskervilles, que me assustou, j\u00e1 que est\u00e1vamos no ermo e tudo aquilo que cheirava a solid\u00e3o e suspense no livro estava sintonizado com a paisagem que me rodeava.<\/p>\n<p>Na volta, tamb\u00e9m coroada de heroismo, peguei um pinga-pinga at\u00e9 Curitiba, por estrada com mais barro. Sozinho, acabei entregue \u00e0 boa vontade dos motoristas, que me ciceronearam o dia todo at\u00e9 eu pegar outro \u00f4nibus, em dire\u00e7\u00e3o a Porto Alegre. Da capital ga\u00facha parti num Maria Fuma\u00e7a at\u00e9 minha cidade, Uruguaiana. Voltei transfigurado. Tinha virado personagem de romance. Meus amigos sofreram com isso, pois precisaram aturar os detalhes da aventura por um longo tempo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A paci\u00eancia do capit\u00e3o da jornada se esgotava cada vez que vislumbrava minha falta de aten\u00e7\u00e3o a coisas b\u00e1sicas como amarrar um pneu com argolas de ferro para que o barro cedesse ao acelerador. Mas finalmente o sol levantou-se quando cruzamos a fronteira com Santa Catarina, na \u00fanica vez em que passei pelo oeste do Estado, que me apareceu encantador, principalmente depois de toda aquela chuva. Mas o clima se vingou ao chegarmos no Paran\u00e1. (Cr\u00f4nica publicada no caderno Variedades, do Di\u00e1rio Catarinense, em 9 de Setembro de 2006).<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5,11],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1073"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1073"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1073\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1648,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1073\/revisions\/1648"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1073"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1073"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1073"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}