{"id":1075,"date":"2009-12-17T16:19:15","date_gmt":"2009-12-17T18:19:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1075"},"modified":"2009-12-21T20:13:14","modified_gmt":"2009-12-21T22:13:14","slug":"sopa-de-inverno","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/sopa-de-inverno","title":{"rendered":"SOPA DE INVERNO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>A presen\u00e7a da m\u00e3e, na beira da cama, era a garantia da cura. Os rem\u00e9dios serviam apenas para atrapalhar, causar desconforto, nos lembrar que est\u00e1vamos ca\u00eddos. O que valia era a companhia poderosa de quem se dividia entre tantos filhos e responsabilidades. E o melhor: aquele gesto, que atendia a um pedido fundo, era por tempo indeterminado, j\u00e1 que o doente sempre gozava de privil\u00e9gios. Quando ela mergulhava o rosto na m\u00e3o exausta, sustentada pelo no bra\u00e7o fr\u00e1gil e ao mesmo tempo firme, quando chegava bem perto seu rosto preocupado, ou deixava cair seu cabelo para a frente, a sugerir abandono (o que fazer com tantos problemas?), \u00e9 que ent\u00e3o sent\u00edamos ser poss\u00edvel voltar \u00e0 vida plena.<\/p>\n<p>E ela s\u00f3 sa\u00eda de perto do moleque enfermo depois de muita negocia\u00e7\u00e3o. Ou quando enfim dorm\u00edamos, entre temperaturas excessivas no corpo ardente, chiados no peito, coriza intermin\u00e1vel. Cada gripe, febre, corte ou susto nos atirava no territ\u00f3rio l\u00fagubre do desespero. Uma dor de garganta nos empurrava para o orfanato, a n\u00e3o ser que a m\u00e3e surgisse na porta do quarto, a garantir a continuidade das coisas que de repente tinham ido embora. A cura pela presen\u00e7a materna \u00e9 mais uma prova do que dizia meu pai. Ele insistia: tudo o que diz\u00edamos sofrer n\u00e3o passava de manha. Isso mais tarde foi batizado de car\u00eancia, mas na nossa inf\u00e2ncia n\u00e3o lid\u00e1vamos com palavras t\u00e3o complicadas.<\/p>\n<p>As exig\u00eancias aumentavam no Inverno, quando o vento polar batia nas frestas, e a geada brotava junto com o rubor de orelhas e faces. N\u00e3o havia cobertor que nos livrasse da prova\u00e7\u00e3o. A lenha, cortada em rod\u00edzio pelos que mantinham ainda a sa\u00fade, era consumida vorazmente pelo frio que viera para ficar. Naquele tempo, n\u00e3o havia o que hoje \u00e9 comum: m\u00eas de julho com calor e outras excentricidades. A temperatura baixava em mar\u00e7o e s\u00f3 levantava a cabe\u00e7a em novembro.<\/p>\n<p>Revezando com a m\u00e3e, o m\u00e9dico da fam\u00edlia fazia sua visita, mas havia uma certa impessoalidade no seu cabelo lambido para tr\u00e1s, seu olhar manso e suas certezas, que me colocavam de quarentena. Ele sorria por motivos que desconhe\u00e7o, pois me receitava dietas de sal por meses e me cercava de cataplasmas, uma inven\u00e7\u00e3o que felizmente ficou no passado. O refor\u00e7o eram as sopas, de caldo grosso quando de trigo, e que faziam tamb\u00e9m parte da medicina. O card\u00e1pio era voltado para a sobreviv\u00eancia e dividido entre irm\u00e3os. O gosto ficava restrito a alguns pratos especiais, inesquec\u00edveis, e \u00e0s sobremesas, que s\u00f3 eram servidas quando havia um recesso nas doen\u00e7as e o tempo novamente nos franqueava alguma esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Por algum motivo, nasci sem resist\u00eancia para o Inverno, o que contrariava a linhagem familiar devotada \u00e0 ca\u00e7a e \u00e0 pesca em paisagens geladas. Houve at\u00e9 algum esfor\u00e7o do meu pai em me colocar de frente com os rigores de julho, para me fazer ver que eu poderia resistir a qualquer cat\u00e1strofe do clima. Ensinava que o acampamento precisava estar bem fornido de l\u00e3s e que os sapatos deveriam ficar embaixo de tudo, para que o sereno tenebroso n\u00e3o os encharcasse.<\/p>\n<p>Entre a prud\u00eancia materna e os desafios propostos pelo pai, esvaiu-se o tempo, mas n\u00e3o a alegria de lembrar aquela casa. L\u00e1, havia a vida plena que nos protegeria de todos os invernos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por algum motivo, nasci sem resist\u00eancia para o Inverno, o que contrariava a linhagem familiar devotada \u00e0 ca\u00e7a e \u00e0 pesca em paisagens geladas. Houve at\u00e9 algum esfor\u00e7o do meu pai em me colocar de frente com os rigores de julho, para me fazer ver que eu poderia resistir a qualquer cat\u00e1strofe do clima. Ensinava que o acampamento precisava estar bem fornido de l\u00e3s e que os sapatos deveriam ficar embaixo de tudo, para que o sereno tenebroso n\u00e3o os encharcasse. (Cr\u00f4nica publicada no caderno Variedades, do Di\u00e1rio Catarinense, em 8 de Setembro de 2006).<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5,11],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1075"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1075"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1075\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1589,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1075\/revisions\/1589"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1075"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1075"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1075"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}