{"id":1077,"date":"2009-12-17T16:20:14","date_gmt":"2009-12-17T18:20:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1077"},"modified":"2009-12-21T20:31:04","modified_gmt":"2009-12-21T22:31:04","slug":"o-crime-de-capote","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-crime-de-capote","title":{"rendered":"O CRIME DE CAPOTE"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Truman Capote cometeu um crime: invadiu a reportagem com recursos de fic\u00e7\u00e3o, extraiu fatos esgrimindo mentiras, transgrediu o jornalismo levando-o \u00e0 literatura e atingiu a celebridade ao mesmo tempo em que se tornou prisioneiro da pr\u00f3pria obra. Inconformado com a submiss\u00e3o da realidade \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o (esta, muito mais fecunda e inspiradora), apostou a vida num envolvimento que lhe custou caro. No fundo, queria romper a maldi\u00e7\u00e3o que assombra todo o escriba desde suas origens.<\/p>\n<p>No mais baixo escal\u00e3o da escravatura situava-se a pessoa encarregada de tecer os signos de um reino. A palavra texto vem da obra desse tecel\u00e3o ancestral, que produzia algo imposs\u00edvel de vestir, e que limitava sua arte a tornar intelig\u00edvel o que lhe era ditado. Na longa linhagem liter\u00e1ria, sobram exemplos de escritores amaldi\u00e7oados pelo pouco carisma da sua atividade, onde se sobressaem Dostoievski e Kafka. S\u00e3o raros os exemplos de escritores celebrados em vida, como foi o caso de Victor Hugo, que recebeu uma chuva gigantesca de flores da popula\u00e7\u00e3o parisiense quando completou 80 anos. Voca\u00e7\u00e3o fadada ao insucesso, por n\u00e3o permitir a sobreviv\u00eancia regular e fat\u00eddica, escrever se transformou numa impossibilidade, que a voragem do jornalismo s\u00f3 soube acentuar.<\/p>\n<p>Confinados nas reda\u00e7\u00f5es, os escritores empurrados para a reportagem entregaram-se \u00e0 inven\u00e7\u00e3o mais deslavada a partir dos prontu\u00e1rios policiais. Forjar fic\u00e7\u00e3o para vender jornal virou o estigma maior de um of\u00edcio que exige a \u00e9tica para se impor. Truman Capote rompeu com essa barreira e trouxe para o notici\u00e1rio policial o detalhe do observador de g\u00eanio, que usava de todos os recursos &#8211; da ast\u00facia \u00e0 emo\u00e7\u00e3o &#8211; para chegar ao seu objetivo. No filme Capote, de Bennett Miller , de 2005, que chega em forma de DVD exibindo a performance do ganhador do Oscar, Philip Seymour Hoffman, no papel principal, vemos como ele se impregnou do objeto do seu tema, a partir do talento e da mem\u00f3ria privilegiada.<\/p>\n<p>A constata\u00e7\u00e3o mais importante do filme \u00e9 o fato de que Capote reconhecia a identifica\u00e7\u00e3o entre ele e o assassino. &#8220;Fomos criados na mesma casa&#8221;, diz, &#8220;s\u00f3 que eu sa\u00ed pela porta da frente e ele pela dos fundos&#8221;. Ambos com problemas familiares, com hist\u00f3ricos de suic\u00eddio, desamor, abandono e viol\u00eancia, o escritor e seu alter ego trocam confid\u00eancias sobre a vida perversa ocupada do outro lado da Am\u00e9rica, a que fica situada no lado oposto da rotina ass\u00e9ptica. Aproximar-se dos corpos assassinados foi uma revela\u00e7\u00e3o: ele queria mesmo era ver a vida normal esvair-se, talvez para se livrar da canga que a realidade o condenou.<\/p>\n<p>Ocupar integralmente o espa\u00e7o criado pela transgress\u00e3o (o assassinato, por parte do criminoso, o livro A sangue frio, por parte do escritor) acabou com as liga\u00e7\u00f5es fr\u00e1geis de Capote com o mundo que o sustentava. Essa arquitetura ruiu quando os corpos desceram no cadafalso, num evento do qual ele jamais iria se recuperar. N\u00e3o terminou mais nenhum livro. A espera do desfecho (a execu\u00e7\u00e3o) que viabilizaria seu livro, o empurrou para um beco sem sa\u00edda.<\/p>\n<p>Da sua ousadia se aproveitaram todos os outros escritores, que puderam seguir o caminho do texto com mais liberdade. Mas seu estigma permanece, o de ter cometido um crime e sair aplaudido no final.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Truman Capote cometeu um crime: invadiu a reportagem com recursos de fic\u00e7\u00e3o, extraiu fatos esgrimindo mentiras, transgrediu o jornalismo levando-o \u00e0 literatura e atingiu a celebridade ao mesmo tempo em que se tornou prisioneiro da pr\u00f3pria obra. (Cr\u00f4nica publicada dia 7 de setembro de 2006 no caderno Variedades, do Di\u00e1rio Catarinense).<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1077"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1077"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1077\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1609,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1077\/revisions\/1609"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1077"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1077"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1077"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}