{"id":1083,"date":"2009-12-17T16:22:39","date_gmt":"2009-12-17T18:22:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1083"},"modified":"2009-12-21T21:35:07","modified_gmt":"2009-12-21T23:35:07","slug":"tempos-infaliveis","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/tempos-infaliveis","title":{"rendered":"TEMPOS INFAL\u00cdVEIS"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Um dos efeitos mais nocivos do evolucionismo mal estudado \u00e9 a pretens\u00e3o de que estamos \u00e0 frente do que veio antes de n\u00f3s. Como se os av\u00f3s tivessem existido s\u00f3 para preparar a nossa magn\u00edfica chegada \u00e0 terra. &#8220;J\u00e1 naquele tempo&#8221; \u00e9 uma express\u00e3o muito usada, revelando a grande surpresa que \u00e9 a constata\u00e7\u00e3o de que o mundo existia antes de n\u00f3s. Um dia, quando me fizeram a pergunta &#8220;como eram os anos 50?&#8221;, respondi, exausto da vis\u00e3o limitada sobre o passado: viv\u00edamos em \u00e1rvores e nos comunic\u00e1vamos por sons selvagens. A\u00ed fomos evoluindo at\u00e9 chegarmos ao auge da civiliza\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a conversa intermin\u00e1vel ao celular num ambiente coletivo.<\/p>\n<p>Quando a evid\u00eancia \u00e9 brutal demais, quando o g\u00eanio se manifesta de maneira expl\u00edcita, e ele n\u00e3o est\u00e1 mais vivo, costumamos dizer que fulano &#8220;estava \u00e0 frente do seu tempo&#8221;. Ou seja, o sujeito confrontava o registro em cart\u00f3rio da sua \u00e9poca e como n\u00e3o se comportou conforme nossas defini\u00e7\u00f5es, acaba fazendo parte de uma esquisitice, de algum evento bizarro que contraria a linha ordeira dos fatos que se sucedem obedecendo a uma l\u00f3gica infal\u00edvel. A arrog\u00e2ncia que vemos hoje faz parte dessa certeza (talvez por isso se diga tanto &#8220;com certeza&#8221;): que o passado \u00e9 digno de pena e deve ser visto sempre da mesma maneira.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que somos criaturas zeradas a cada gera\u00e7\u00e3o. N\u00e3o nascemos com a teoria da relatividade fazendo estrepolias no nosso c\u00e9rebro de nen\u00e9ns. Temos que aprender a comer, falar, andar. O c\u00e1lculo infinitesimal \u00e9 uma conquista \u00e1rdua, assim como a no\u00e7\u00e3o mais ou menos exata de como funciona um computador. N\u00e3o recebemos de bandeja o que os antepassados, pobres figuras, levaram mais de uma vida para criar. Precisamos percorrer o mesmo caminho, j\u00e1 que toda gera\u00e7\u00e3o parte do nada at\u00e9 chegar ao seu esplendor.<\/p>\n<p>Num drible esperto, o que acaba se impondo \u00e9 a marcha da esp\u00e9cie e n\u00e3o o esfor\u00e7o dos indiv\u00edduos. N\u00e3o foi f\u00e1cil, dizem, sairmos da condi\u00e7\u00e3o de macacos at\u00e9 chegarmos \u00e0 humanidade, como se Darwin fosse culpado de semelhante equ\u00edvoco. Descendemos de uma esp\u00e9cie de homin\u00eddios que viram vantagens na postura b\u00edpede e se aprofundaram no uso de ferramentas, e n\u00e3o dos macacos propriamente, nos diz o evolucionismo cl\u00e1ssico. Mas isso \u00e9 s\u00f3 um detalhe. O importante \u00e9 achar que a obra humana foi fazer o chimpanz\u00e9 virar o Brad Pitt.<\/p>\n<p>Quando vemos uma obra-prima absoluta como Luzes da Ribalta (1952), de Charles Chaplin, notamos que a arte deitou ra\u00edzes fundas no futuro e que ver um filme desses hoje \u00e9 tomar um banho de civiliza\u00e7\u00e3o perdida. N\u00e3o que o passado seja a maravilha total que todos devam celebrar. Mas sim o fato de que h\u00e1 54 anos um filme existe para nos dizer algumas verdades. Uma delas \u00e9 que uma gera\u00e7\u00e3o, ao chegar \u00e0 suprema ess\u00eancia da sua arte, como foi o caso de Chaplin e de seu imortal personagem, o comediante Calvero, acaba sendo enterrada precocemente pela burrice do tempo.<\/p>\n<p>Cada cena \u00e9 pura poesia, \u00e9 a imagina\u00e7\u00e3o no poder, que nele deveria permanecer para todo o sempre. O g\u00eanio pincela nossos dias com sua monumental lucidez e talento e dele n\u00e3o devemos nos afastar. \u00c9 preciso aprender humildemente, n\u00e3o apenas com o que nos chega de heran\u00e7a verdadeira, mas com o que nos rodeia e n\u00e3o prestamos aten\u00e7\u00e3o. O tempo n\u00e3o \u00e9 infal\u00edvel, e por isso oferece a chance de ser t\u00e3o encantador.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A verdade \u00e9 que somos criaturas zeradas a cada gera\u00e7\u00e3o. N\u00e3o nascemos com a teoria da relatividade fazendo estrepolias no nosso c\u00e9rebro de nen\u00e9ns. Temos que aprender a comer, falar, andar. O c\u00e1lculo infinitesimal \u00e9 uma conquista \u00e1rdua, assim como a no\u00e7\u00e3o mais ou menos exata de como funciona um computador. N\u00e3o recebemos de bandeja o que os antepassados, pobres figuras, levaram mais de uma vida para criar. Precisamos percorrer o mesmo caminho, j\u00e1 que toda gera\u00e7\u00e3o parte do nada at\u00e9 chegar ao seu esplendor. (Cr\u00f4nica publicada dia 4 de setembro de 2006 no caderno Variedades, do Di\u00e1rio Catarinense).<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1083"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1083"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1083\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1636,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1083\/revisions\/1636"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1083"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1083"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1083"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}