{"id":1090,"date":"2009-12-17T16:44:04","date_gmt":"2009-12-17T18:44:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1090"},"modified":"2009-12-21T00:46:58","modified_gmt":"2009-12-21T02:46:58","slug":"a-volta-da-fabula","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-volta-da-fabula","title":{"rendered":"A VOLTA DA F\u00c1BULA"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Quando \u00e9ramos crian\u00e7as, quer\u00edamos viver no mundo maravilhoso em que os animais falavam. Fomos atendidos. N\u00e3o da forma certa: escutando narrativas aleg\u00f3ricas que encerravam alguma li\u00e7\u00e3o no final. Mas da forma errada: convivendo com todo tipo de sons guturais emitidos pela falta de produ\u00e7\u00e3o de pensamento. Essa compara\u00e7\u00e3o chega a ser uma injusti\u00e7a aos animais, j\u00e1 que a ci\u00eancia come\u00e7a a notar o que todo mundo sabe: que os bichos pensam e sonham. E que suas linguagem s\u00e3o bem mais complexas do que imagin\u00e1vamos.<\/p>\n<p>Enquanto nos distra\u00edmos com a prolifera\u00e7\u00e3o de equipamentos de uso veloz, a exclus\u00e3o de Plut\u00e3o do Olimpo planet\u00e1rio, e a falta de vacina para a mal\u00e1ria, h\u00e1 um derrapar nas velhas f\u00f3rmulas em plena era do conhecimento. Essa situa\u00e7\u00e3o mant\u00e9m atual a tese de Thomas Kuhn, o pensador alem\u00e3o que escreveu livro cl\u00e1ssico sobre as revolu\u00e7\u00f5es cient\u00edficas: a de que a ci\u00eancia se comporta de maneira obscurantista e s\u00f3 vai adiante quando a gera\u00e7\u00e3o que defende o velho paradigma morre ou se aposenta. Ele cita Newton, que s\u00f3 foi aceito cem anos depois que suas revela\u00e7\u00f5es vieram \u00e0 tona. Kuhn n\u00e3o \u00e9 bem visto pelos seus pares, por motivos \u00f3bvios, mas sempre que vejo um document\u00e1rio sobre animais dou-lhe raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Sob a capa cient\u00edfica, os document\u00e1rios costumam nos apresentar os animais engessados em comportamentos j\u00e1 conhecidos. Neles, os bichos jamais brincam, eles est\u00e3o apenas treinando para a vida adulta. Se fazem algum exibicionismo com suas penas e bicos, \u00e9 para perpetuar a esp\u00e9cie. Toda manifesta\u00e7\u00e3o de intelig\u00eancia \u00e9 for\u00e7osamente colocada no territ\u00f3rio l\u00fagubre do instinto. O uso de ferramentas por parte dos chimpanz\u00e9s, o gato que abre porta pulando sobre o trinco, ou o p\u00e1ssaro que acha o alimento driblando armadilhas, s\u00e3o acontecimentos que ainda n\u00e3o romperam definitivamente a casca do preconceito humano.<\/p>\n<p>Mas isso est\u00e1 mudando, e gra\u00e7as \u00e0 f\u00e1bula. A Marcha dos Ping\u00fcins, por exemplo, nos diz o quanto podemos aprender sobre o comportamento dessas resistentes criaturas do deserto \u00e1rtico, sem recorrer \u00e0s certezas ditas cient\u00edficas. Nesse premiado document\u00e1rio de Luc Jacquet, os animais falam e expressam seus sentimentos enquanto as imagens reportam a tarefa praticamente imposs\u00edvel de procriar em ambiente t\u00e3o hostil. A linguagem po\u00e9tica redime a aridez da trajet\u00f3ria de sacrif\u00edcios e coloca identidade em cada protagonista da hist\u00f3ria, enquanto destaca a import\u00e2ncia fundamental do trabalho em grupo.<\/p>\n<p>S\u00e3o v\u00e1rias as li\u00e7\u00f5es desta f\u00e1bula premiada. Primeiro, a responsabilidade que implica o prazer do acasalamento. Segundo, a necessidade de compartilhar tarefas na dif\u00edcil obra de gerar um descendente. Terceiro, a transcend\u00eancia da passagem sobre a terra, que tem a ver com mist\u00e9rios soberbos de um universo pautado pela grandeza. A admira\u00e7\u00e3o confessa do diretor pelo que os ping\u00fcins fazem repassa para o espectador, que assim fica mais confortado diante das dificuldades di\u00e1rias.<\/p>\n<p>Luc Jacquet assumiu que um document\u00e1rio \u00e9 apenas uma vers\u00e3o. Apostou no potencial de f\u00e1bula que havia nas diversas marchas em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 vida e \u00e0 morte. E n\u00e3o nos engana com uma linguagem considerada cient\u00edfica. Ele optou pela poesia, n\u00e3o por ignorar as pesquisas (ele \u00e9 bi\u00f3logo), mas para poder enxergar melhor o que nos parece t\u00e3o familiar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sob a capa cient\u00edfica, os document\u00e1rios costumam nos apresentar os animais engessados em comportamentos j\u00e1 conhecidos. Neles, os bichos jamais brincam, eles est\u00e3o apenas treinando para a vida adulta. Se fazem algum exibicionismo com suas penas e bicos, \u00e9 para perpetuar a esp\u00e9cie. Toda manifesta\u00e7\u00e3o de intelig\u00eancia \u00e9 for\u00e7osamente colocada no territ\u00f3rio l\u00fagubre do instinto. (Cr\u00f4nica publicada dia 1\u00ba de setembro de 2006, no caderno Variedades do Di\u00e1rio Catarinense).<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1090"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1090"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1090\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1523,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1090\/revisions\/1523"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1090"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1090"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1090"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}