{"id":1092,"date":"2009-12-17T16:46:10","date_gmt":"2009-12-17T18:46:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1092"},"modified":"2009-12-21T00:48:37","modified_gmt":"2009-12-21T02:48:37","slug":"realidade-encantada","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/realidade-encantada","title":{"rendered":"REALIDADE ENCANTADA"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rias maneiras de &#8220;encantar&#8221; a realidade e a maioria delas incomoda o vizinho. M\u00fasica alta, dosagens de \u00e1lcool, drogas de diversos tipos: h\u00e1 uma fuga em massa para estados alterados da consci\u00eancia, para usar uma express\u00e3o quase antiga, que pertence a esse passado pr\u00f3ximo, que antecedeu a atual exaust\u00e3o do mundo. Os tipos mais inofensivos de escape dos excessos do notici\u00e1rio (essa mesmice embalada pelo tom novidadeiro) s\u00e3o os hobbys, mas parece que estes est\u00e3o em desuso. N\u00e3o h\u00e1 mais concentra\u00e7\u00e3o para colecionar figurinhas e quando isso ocorre h\u00e1 uma decep\u00e7\u00e3o coletiva que joga os \u00e1lbuns de volta ao buraco escuro de onde vieram.<\/p>\n<p>Uma das formas mais poderosas de ver a realidade com outros olhos ainda \u00e9 a busca de informa\u00e7\u00f5es ocultas e isso nem sempre tem a ver com ocultismo. Garimpar o conhecimento desprezado, o livro jogado fora pelo tempo, o epis\u00f3dio obscuro da hist\u00f3ria, o enigma de uma paisagem assombrosa que incendeia a imagina\u00e7\u00e3o: esse \u00e9 o caminho que mais frutifica ao optarmos por descolonizar o olhar, para usar uma express\u00e3o do antol\u00f3gico fot\u00f3grafo Walter Firmo.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que essa atividade pode descambar para situa\u00e7\u00f5es sem import\u00e2ncia, como empilhar curiosidades ou usar o acervo acumulado para se diferenciar nas conversas. Mas o mais gratificante \u00e9 que a ca\u00e7a de algo que passou despercebido, a nota de rodap\u00e9 que abre uma porta infinita de possibilidades e especula\u00e7\u00f5es, nos ajuda a transcender esse h\u00e1bito for\u00e7ado de ter de encarar tudo da mesma maneira, todos os dias. Uma das mais fecundas atividades humanas hoje \u00e9 peitar esse eterno presente, definido por uma s\u00e9rie de for\u00e7as do obscurantismo, como se ele fosse nosso \u00fanico destino.<\/p>\n<p>Um tema recorrente no cinema e na literatura \u00e9 a viagem de volta \u00e0s origens, quando se tenta resgatar o elo perdido, o deslumbramento da primeira vis\u00e3o do mundo, o ambiente que nos formatou nos primeiros anos. Essa viagem hoje \u00e9 facilitada pela quantidade gigantesca de informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis, em que \u00e9 poss\u00edvel reencontrar pessoas, lugares e reviver situa\u00e7\u00f5es. H\u00e1 o perigo de ser uma travessia saudosista, geradora de mais frustra\u00e7\u00e3o, mas a busca pelas ra\u00edzes pode transpor o umbral dom\u00e9stico e encontrar, no Mito ou na Hist\u00f3ria, territ\u00f3rios f\u00e9rteis para nele podermos habitar nosso cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma das minhas alegrias no longo per\u00edodo em que vivi em S\u00e3o Paulo era visitar os sebos perto das Arcadas, a Faculdade de Direito, no centro da cidade. Livrarias antigas com v\u00e1rios andares de obras perdidas faziam a festa da minha curiosidade. Aos poucos, fui perseguindo aqueles livros de uma s\u00f3 edi\u00e7\u00e3o que deixaram de ter import\u00e2ncia e que estavam \u00e0 merc\u00ea das tra\u00e7as. As preciosidades forneciam a cola onde grudava acontecimentos conhecidos, que na superf\u00edcie n\u00e3o faziam muito sentido, mas l\u00e1 no fundo da estante ou da gaveta guardavam a chave de muitos enigmas.<\/p>\n<p>O importante \u00e9 n\u00e3o se conformar com o que sabemos ou vemos e encarar com ousadia o mist\u00e9rio, sem dar import\u00e2ncia para as cr\u00edticas. Pois sempre haver\u00e1 quem diga que as coisas n\u00e3o s\u00e3o bem assim como voc\u00ea est\u00e1 percebendo, e que n\u00e3o \u00e9 &#8220;bem por a\u00ed&#8221;. O conceito de &#8220;por a\u00ed&#8221; \u00e9 vasto e serve para desviar voca\u00e7\u00f5es, tirar o f\u00f4lego antes da alguma caminhada. D\u00ea de ombros, como se dizia h\u00e1 tempos. Voc\u00ea est\u00e1 prestes a chegar ao deslumbramento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das minhas alegrias no longo per\u00edodo em que vivi em S\u00e3o Paulo era visitar os sebos perto das Arcadas, a Faculdade de Direito, no centro da cidade. Livrarias antigas com v\u00e1rios andares de obras perdidas faziam a festa da minha curiosidade. Aos poucos, fui perseguindo aqueles livros de uma s\u00f3 edi\u00e7\u00e3o que deixaram de ter import\u00e2ncia e que estavam \u00e0 merc\u00ea das tra\u00e7as. As preciosidades forneciam a cola onde grudava acontecimentos conhecidos, que na superf\u00edcie n\u00e3o faziam muito sentido, mas l\u00e1 no fundo da estante ou da gaveta guardavam a chave de muitos enigmas. (Este texto foi publicado dia 31\/agosto\/2006 no caderno Variedades, do Di\u00e1rio Catarinense).<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5,6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1092"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1092"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1092\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1527,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1092\/revisions\/1527"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1092"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1092"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1092"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}