{"id":1094,"date":"2009-12-17T16:47:41","date_gmt":"2009-12-17T18:47:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1094"},"modified":"2009-12-21T00:53:10","modified_gmt":"2009-12-21T02:53:10","slug":"luz-de-inverno","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/luz-de-inverno","title":{"rendered":"LUZ DE INVERNO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>No terminal do Centro da cidade, o assunto brandido por pessoas escandalizadas \u00e9 o esfor\u00e7o permanente dos furadores da fila. Para alguns, ficar atr\u00e1s de algu\u00e9m e esperar sua vez \u00e9 um ato de humilha\u00e7\u00e3o suprema. A pressa e a esperteza possuem \u00e1libis perfeitos para dar raz\u00e3o aos que atropelam os que se postam numa ordem l\u00f3gica, agarrados ao que resta de consenso. Todos est\u00e3o no mesmo barco, remoendo a impaci\u00eancia e suspirando a expectativa de chegar logo em casa. Quem n\u00e3o se submete ao ritual, forjado pelo mau planejamento, se acha no direito de n\u00e3o obedecer. E os que sofrem com a transgress\u00e3o alheia soltam o verbo, enquanto rugem os motores e a fuma\u00e7a sufoca o ar gelado do Inverno tardio.<\/p>\n<p>Voltar do trabalho se transforma assim num pesadelo, como se viv\u00eassemos numa megal\u00f3pole. H\u00e1 uma capacidade extrema de experimentar o caos. Onde quer que exista um aglomerado de pessoas convivendo no pa\u00eds continente, o \u00f3bvio exp\u00f5e suas v\u00edsceras. O notici\u00e1rio \u00e9 uma prociss\u00e3o de erros cometidos pela na\u00e7\u00e3o que perdeu seu rumo. H\u00e1 uma exaust\u00e3o, fruto da certeza de que n\u00e3o temos condi\u00e7\u00f5es de resolver problemas b\u00e1sicos. Estamos t\u00e3o desunidos que at\u00e9 mesmo um gesto de boa vontade acaba sendo engolido pela espiral da inf\u00e2mia. As exce\u00e7\u00f5es s\u00e3o gotas no oceano. Sobra espa\u00e7o para a demagogia bem remunerada.<\/p>\n<p>Mesmo a indigna\u00e7\u00e3o se volta contra n\u00f3s. Nada mais desconfort\u00e1vel do que uma pessoa xingando a situa\u00e7\u00e3o em que todos s\u00e3o respons\u00e1veis, pela omiss\u00e3o, pela trucul\u00eancia ou pela falta de canais adequados para se levar uma reivindica\u00e7\u00e3o a bom termo. Fazemos aquela cara que olha intensamente o vazio enquanto o pr\u00f3ximo se esgoela. Sim, concordamos que a raz\u00e3o est\u00e1 do nosso lado, mas o que fazer com a raz\u00e3o se o absurdo plantou ra\u00edzes em todas as manifesta\u00e7\u00f5es da vida? Queixar-se \u00e9 algo mal visto, pois a reclama\u00e7\u00e3o acaba se somando \u00e0s dores de cabe\u00e7a que precisamos enfrentar. Ficar calado, que tudo isso passa, pelo menos at\u00e9 chegarmos ao destino, \u00e9 a op\u00e7\u00e3o mais evidente, e aparentemente razo\u00e1vel.<\/p>\n<p>Mas o c\u00edrculo se fecha no Inverno que pressiona a cidadania contra o muro. Num relance, vejo os rostos transidos de frio, enrolados em mantas, com o olhar duro. Estamos exilados das promessas de Ver\u00e3o, e das amenidades da meia esta\u00e7\u00e3o. A luz que chega pela manh\u00e3 dourando p\u00e1ssaros sob o c\u00e9u azul, com cheiro de casca de laranja, n\u00e3o se sustenta at\u00e9 o final do dia. H\u00e1 um ocaso de temores no tr\u00e2nsito cada vez mais denso. O notici\u00e1rio espalha os sons na varanda. Montamos uma rede de promessas, porque o dia seguinte estar\u00e1 nos aguardando com sua dan\u00e7a.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m procuro alguma coisa nas primeiras not\u00edcias antes da chegada do sol. Vejo pessoas bem postas, com suas roupas graves, seus rostos de pedra, sua dic\u00e7\u00e3o obl\u00edqua, falando de problemas que parecem pertencer a um outro planeta. O recorrente desse conte\u00fado s\u00e3o leis que se confundem e depois se negam, s\u00e3o vontades nunca resolvidas. Nos livros, mergulho em textos impressionantes de talentos que jamais d\u00e3o as caras na televis\u00e3o. Por que h\u00e1 esta compuls\u00e3o de mostrar sempre as mesmas figuras, enquanto a grossa lava da nossa intelig\u00eancia queima as entranhas da na\u00e7\u00e3o silenciosa?<\/p>\n<p>Nas programa\u00e7\u00f5es noturnas e milion\u00e1rias, ou mesmo nos fins de semana, \u00e9 raro encontrar um programa cultural visitando a sala das fam\u00edlias. H\u00e1 gente demais dan\u00e7ando, tanto na fic\u00e7\u00e3o quanto nos palcos diante de audit\u00f3rios em febre. Por que dan\u00e7am de maneira t\u00e3o intensa, sempre da mesma forma, a transbordar quadris e rostos de risos programados? Por que h\u00e1 tantas perguntas sem import\u00e2ncia para respostas que nada nos dizem? Por que perdemos tempo, se o pa\u00eds fabricante da ru\u00edna pede socorro? Desconhe\u00e7o os motivos. Talvez seja esse sil\u00eancio, talvez esse Inverno que \u00e9 v\u00e9spera de voto, talvez aguardemos o Ver\u00e3o com sua grandeza.<\/p>\n<p>Seria uma injusti\u00e7a ao Inverno depositar nele toda nossa dor. Por isso lembro as manh\u00e3s de nevoeiro e geada, quando, \u00e0 espera do sol, resgatamos o amor que salva, o sonho que jamais nos abandona e a for\u00e7a que carregamos n\u00e3o como um fardo, mas como sopro sobre a vela desta viagem que \u00e9 pura convoca\u00e7\u00e3o da divindade. Talvez, calados, aguardemos um milagre. Mas n\u00e3o ser\u00e1 a palavra, habitada e livre, que ir\u00e1 nos redimir antes que seja tarde?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Seria uma injusti\u00e7a ao Inverno depositar nele toda nossa dor. Por isso lembro as manh\u00e3s de nevoeiro e geada, quando, \u00e0 espera do sol, resgatamos o amor que salva, o sonho que jamais nos abandona e a for\u00e7a que carregamos n\u00e3o como um fardo, mas como sopro sobre a vela desta viagem que \u00e9 pura convoca\u00e7\u00e3o da divindade. Talvez, calados, aguardemos um milagre. Mas n\u00e3o ser\u00e1 a palavra, habitada e livre, que ir\u00e1 nos redimir antes que seja tarde? (Cr\u00f4nica publicada no caderno Donna DC, do Di\u00e1rio Catarinense, em 13\/agosto\/2006).<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5,6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1094"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1094"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1094\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1534,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1094\/revisions\/1534"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1094"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1094"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1094"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}