{"id":1096,"date":"2009-12-17T16:49:08","date_gmt":"2009-12-17T18:49:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1096"},"modified":"2009-12-20T21:06:51","modified_gmt":"2009-12-20T23:06:51","slug":"o-poeta-absoluto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-poeta-absoluto","title":{"rendered":"O POETA ABSOLUTO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Omelhor poeta do Brasil contempor\u00e2neo s\u00e3o tr\u00eas: Ferreira Gullar, Mario Chamie e Bruno Tolentino. Suas obras possuem o mais precioso instrumento da l\u00edngua: a espiral iluminada e infinita em torno da cria\u00e7\u00e3o, que semeia e deveria alimentar a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria do nosso tempo. Escrever, hoje, passa, obrigatoriamente, pela senda aberta por eles na selva escura da d\u00favida e do horror, caminho que redime a na\u00e7\u00e3o sufocada pelo ru\u00eddo e a decad\u00eancia. Gullar, pelo mergulho cr\u00edtico na vanguarda a partir dos anos 1950; Chamie, pela constru\u00e7\u00e3o de uma poderosa arquitetura da linguagem, fonte do avan\u00e7o que nos liberta de m\u00faltiplas amarras; e Bruno Tolentino, por gerar um renascimento a partir da mimesis dos cl\u00e1ssicos, tanto no seu monumento, O Mundo como Id\u00e9ia (Globo, 2004), quanto no seu mais recente lan\u00e7amento, A Imita\u00e7\u00e3o do Amanhecer (Globo, 328 p\u00e1ginas), conjunto de 538 sonetos onde a filosofia, a hist\u00f3ria e a poesia se completam para recompor a essencial armadilha do instante, a eternidade.<\/p>\n<p>Todos os tr\u00eas possuem a maldi\u00e7\u00e3o de ficar \u00e0 sombra, apesar da notoriedade. N\u00e3o s\u00e3o autores de versos sorridentes, de que nos falava Torquato Neto. Jogam pesado, no melhor dos sentidos. Tanto o Poema Sujo de Gullar, a Lavra lavra, de Chamie, quanto a desconhecida e pol\u00eamica poesia de Tolentino compartilham uma esp\u00e9cie de esquecimento no pa\u00eds martirizado pela indiferen\u00e7a, a ditadura e a ignor\u00e2ncia. Bruno \u00e9 o exemplo maior desse ex\u00edlio. Inconformado com a destrui\u00e7\u00e3o do Brasil, ele voltou de longa temporada na Europa (para onde foi depois de se destacar, em 1960, como brilhante autor estreante) com o verbo solto e caiu no redemoinho de inf\u00e2mias soprado pelo vendaval ideol\u00f3gico, cultural e pol\u00edtico. Foi acusado de retr\u00f3grado, direitista, megal\u00f4mano e, para intensificar sua indigna\u00e7\u00e3o, tornou-se pessoalmente insuport\u00e1vel, pelo menos para seus advers\u00e1rios. Mas nada disso tem import\u00e2ncia diante do que ele nos apresenta agora, este livro soberbo, que precisa n\u00e3o apenas ser lido e relido, mas estudado, compreendido, letra a letra, sob pena de ficarmos alheios ao resultado supremo gerado pelo talento.<\/p>\n<p>Como um s\u00f3 poema sinf\u00f4nico em tr\u00eas movimentos, A Imita\u00e7\u00e3o do Amanhecer parte do encontro de um par de amantes em Alexandria, ponto nodal da cruz Oriente-Ocidente, e se derrama sobre o mist\u00e9rio que a mem\u00f3ria apascenta como pastora de um caos temporal. Seria injusto, pela perfei\u00e7\u00e3o da obra, que n\u00e3o admite trope\u00e7os, destacar versos, partilh\u00e1-los como se estiv\u00e9ssemos numa vitrine a expor uma caixa de resson\u00e2ncias ocultas. Tudo \u00e9 claro, equilibrado e profundo no desdobramento dessa persegui\u00e7\u00e3o que o autor comete diante da sua presa. O poeta s\u00e3o as m\u00e3os do gato a enovelar-se no sem-fim, e seu pulo, apesar de previs\u00edvel (por ser anunciado por ele mesmo), salta sempre sobre o abismo. Mesmo correndo o risco dessa imperdo\u00e1vel injusti\u00e7a, podemos iluminar, como um spot no palco nu, algo que ele nos traz:<\/p>\n<p>&#8220;Existe sempre, est\u00e1tua a est\u00e1tua, nesse amor, como um ex\u00edlio incontentado que alucina a boca seca e vai secando, como a cor desabrigada, o lado agreste da colina. Lado lunar do sol que tudo contamina com a iridisc\u00eancia, o fogo-f\u00e1tuo do esplendor sem sombra, sem depois nem antes, sem supor a seq\u00fc\u00eancia do gr\u00e3o, a esmola peregrina que h\u00e1 de morrer para doar. Esse prazer, dom do beijo de est\u00e1tua, euforia do m\u00e1rmore e capitel da disson\u00e2ncia que h\u00e1 no ser, atem-se \u00e0 alma apenas, desdenha ser a \u00e1rvore e, lenha ainda, acende s\u00f3 por acender, Alexandria, a imita\u00e7\u00e3o do amanhecer&#8221;.<\/p>\n<p>Essa falsa alvorada, que existe por for\u00e7a da vontade humana, tanto no gesto quanto na voz que o escala, que o aborda sem jamais desistir de tentar decifrar (ou pelo menos sugerir) o mist\u00e9rio, \u00e9 a liga de uma poesia que presta tributo ao cl\u00e1ssico, mas n\u00e3o se omite ao lidar com as ru\u00ednas do discurso.<\/p>\n<p>Bruno Tolentino se assume carioca e gruda, assim, sua origem e identidade ao estro can\u00f4nico, de origem camoniana, crestado pelas li\u00e7\u00f5es de mestres como Borges, Pessoa, Machado de Assis (entre muitos outros), e abra\u00e7ado \u00e0 erudi\u00e7\u00e3o da melhor poesia inglesa e dos par\u00e2metros filos\u00f3ficos e liter\u00e1rios da Gr\u00e9cia antiga. Uma resenha, n\u00e3o s\u00f3 pelo espa\u00e7o ex\u00edguo, mas pela natureza fr\u00e1gil de ser escrita logo ap\u00f3s a leitura, \u00e9 apenas um aceno na noite estelar de t\u00e3o portentosa poesia. O que encanta \u00e9 que Bruno Tolentino n\u00e3o optou pela palavra avara nem sucumbiu \u00e0s enchentes da leitura f\u00e1cil. Ele temperou o a\u00e7o do verbo na sua forja, que \u00e9 mistura de n\u00famero e cristal, e que tem de fluido apenas os trajetos da luz, da alvorada ao ocaso e, principalmente, essa chama inventada pela exata no\u00e7\u00e3o do desaparecimento humano, fonte de sua perenidade.<\/p>\n<p>Esgrimindo, com eleg\u00e2ncia, o equil\u00edbrio entre o rigor e a ambi\u00e7\u00e3o po\u00e9tica desmedida, Bruno se sai bem da batalha e exibe o design ao mesmo tempo limpo e ardente de um especialista. &#8220;Abandonei Alexandria e a vida toda ela me andou buscando, convidando-me \u00e0 boda de um par indistingu\u00edvel perpetuando o enlace em que \u00e0s vezes eu via, vislumbrava uma face, um gesto, e, de repente, como a cabe\u00e7a roda, n\u00e3o via nada, ou via a desapari\u00e7\u00e3o, o impasse&#8230;&#8221; No fundo, todo livro \u00e9 um jogo de sedu\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea \u00e9 arrancado do seu lugar confort\u00e1vel, em que as coisas est\u00e3o no lugar, distribu\u00eddas mais pelo desconhecimento e a pregui\u00e7a do que pelo esfor\u00e7o, e \u00e9 jogado no v\u00f3rtice de uma paix\u00e3o sem limites, que tanto pode ser o verso urdido pelo g\u00eanio, a met\u00e1fora que se desfaz no momento em que \u00e9 enunciada, e a evoca\u00e7\u00e3o de um esp\u00edrito livre que se recusa a morrer.<\/p>\n<p>Muito mais pode ser dito dessa viagem sem fim nem volta que come\u00e7a pedindo para o leitor reparar &#8220;como crescem espigas entre escombros humanos&#8221;, e termina com a constata\u00e7\u00e3o de que &#8220;se algo perdeu-se foi como o gr\u00e3o, entre a seara e a colheita&#8221;. Mas o que deve ser destacado \u00e9 que este \u00e9 um divisor de \u00e1guas. Ficou imposs\u00edvel ignorar Bruno Tolentino e sua obra, que se espalha por outros livros al\u00e9m dos citados. Se algu\u00e9m us\u00e1-lo como medalha para exibir cultura, ou como penduricalho ideol\u00f3gico, releve. Insuport\u00e1vel n\u00e3o \u00e9 o poeta, mas o que se faz com sua obra atualmente. Para virar essa mar\u00e9, s\u00f3 partindo do porto de Alexandria como Odisseu em busca do sagrado. Pois se o Belo foi deixado de lado pela sordidez do mundo transformado em mercadoria, A Imita\u00e7\u00e3o do Amanhecer prova que ele continua vivo e pronto para o bote. Era preciso que um poeta viesse resgat\u00e1-lo, raptando a alma como um souvenir e voando pela janela como um p\u00e1ssaro de luz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como um s\u00f3 poema sinf\u00f4nico em tr\u00eas movimentos, A Imita\u00e7\u00e3o do Amanhecer, de Bruno Tolentino (Globo, 328 p\u00e1ginas, 2006) parte do encontro de um par de amantes em Alexandria, ponto nodal da cruz Oriente-Ocidente, e se derrama sobre o mist\u00e9rio que a mem\u00f3ria apascenta como pastora de um caos temporal. Seria injusto, pela perfei\u00e7\u00e3o da obra, que n\u00e3o admite trope\u00e7os, destacar versos, partilh\u00e1-los como se estiv\u00e9ssemos numa vitrine a expor uma caixa de resson\u00e2ncias ocultas. Tudo \u00e9 claro, equilibrado e profundo no desdobramento dessa persegui\u00e7\u00e3o que o autor comete diante da sua presa. (Resenha publicada no Caderno Cultura, do Di\u00e1rio Catarinense, de 12 de agosto de 2006).<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1096"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1096"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1096\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1423,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1096\/revisions\/1423"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1096"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1096"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1096"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}