{"id":1098,"date":"2009-12-17T16:50:10","date_gmt":"2009-12-17T18:50:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1098"},"modified":"2009-12-20T21:03:01","modified_gmt":"2009-12-20T23:03:01","slug":"eis-redentor-um-filme-e-tanto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/eis-redentor-um-filme-e-tanto","title":{"rendered":"EIS REDENTOR, UM FILME E TANTO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Rodeei, desconfiado, v\u00e1rias vezes pelo dvd de Redentor, o filme de Cl\u00e1udio Torres, antes de ceder \u00e0 curiosidade. Tem ator global demais e parecia \u00e0 primeira vista uma com\u00e9dia ligeira. No making off, depois que vi o filme e fiquei impressionado, alguns participantes juram quem \u00e9 feito mesmo para rir, mas os sites de cinema batizam de maneira certa: \u00e9 drama, e dos pesados. Confunde porque ele \u00e9 protagonizado por Pedro Cardoso, atualmente nosso comediante maior. Mas \u00e9 drama, todo ele calcado em Crep\u00fasculo dos Deuses, de Billy Wilder.<\/p>\n<p>\u00c9 a mesma hist\u00f3ria: o cara est\u00e1 morto e conta porque morreu. E morreu porque , escritor (no caso do filme brasileiro, rep\u00f3rter), se vendeu para algu\u00e9m. Em Redentor, para o amigo da inf\u00e2ncia. Na obra-prima de Wilder, para a estrela decadente. N\u00e3o se trata de um remake, uma refilmagem, mas o aproveitamento e adapta\u00e7\u00e3o de um mote: a lucidez provocada pela corrup\u00e7\u00e3o. O arrependimento vem do desastre, da queda, que leva \u00e0 den\u00fancia. Torres encontra em Wilder o mestre para abordar o Brasil de Sergio Naya,o construtor da Barra da Tijuca que caiu em desgra\u00e7a. Claro que com outro nome, bem parecido, Saboya.<\/p>\n<p>Redentor \u00e9 um filme crespuscular. \u00c9 sobre a morte de uma civiliza\u00e7\u00e3o, a do Brasil, que se transformou num por\u00e3o mal assombrado. Disseca o passaporte para a viol\u00eancia, a esperan\u00e7a, pois \u00e9 a boa f\u00e9 sem cidadania que alimenta os tubar\u00f5es da constru\u00e7\u00e3o civil, da pol\u00edcia e da pol\u00edtica. \u00c9 um filme que n\u00e3o brinca de fazer cinema. Faz de maneira convincente, com suas cenas fort\u00edssimas, como a final, quando uma pessoa pode ser jogada no abismo.<\/p>\n<p>H\u00e1 interpreta\u00e7\u00f5es excelentes em todos os n\u00edveis. A mais brutal \u00e9 de Miguel Falabela, o herdeiro corrupto que coloca o amigo na cadeia, se mistura com o tr\u00e1fico de drogas e acaba sendo pressionado para se arrepender. Falabela tem um carisma e uma concentra\u00e7\u00e3o que cinzelam a tela. Mas ele n\u00e3o esta s\u00f3.<\/p>\n<p>Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Stenio Garcia, Paulo Goulart e Camila Pitanga invadem a narrativa com f\u00faria, ressentimento, dor, desesperan\u00e7a. Nada \u00e9 pequeno em Redentor: cen\u00e1rios como Bras\u00edlia sob a bomba at\u00f4mica, ratoeiras em forma de edif\u00edcios, coberturas amaldi\u00e7oadas, lixos, cadeias p\u00fatridas. H\u00e1 gritos, estertores, num cl\u00edmax oper\u00edstico permanente, como se estiv\u00e9ssemos diante de Terra em transe, de Glauber, e Pedro Cardoso fosse t\u00e3o surtado quanto Jardel Filho, falando com Deus e exercendo vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c9 um mergulho doloroso no Brasil e n\u00e3o pode ficar preso a uma estante da locadora. \u00c9 preciso lev\u00e1-lo pra casa e navegar na sua agonia lenta em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s profundezas do Mal.<\/p>\n<p>O povo contaminado pela ditadura financeira, os aproveitadores que fazem qualquer coisa para livrar a cara, o jornalista que pensa poder escapar da arapuca, tudo nos leva de rold\u00e3o neste filme surpreendente, uma super-produ\u00e7\u00e3o embalado pelo som do Guarani, de Carlos Gomes. \u00c9, como disse algu\u00e9m, o nosso Ben-Hur: o her\u00f3i que ficou desaparecido nas gal\u00e9s volta para a grande corrida de bigas. E acaba como William Holden, morto na piscina no filme de Wilder.<\/p>\n<p>Deitado sobre sacos de lixo, de gravata desapertada, esse Pedro Cardoso hil\u00e1rio e tocante, como um Macuna\u00edma revisitado, nos leva pelos becos de uma trag\u00e9dia, o Brasil que perdeu o prumo e berra diante da cat\u00e1strofe.<\/p>\n<p>Eis Redentor, um filme e tanto. Marca do que melhor podemos produzir nesta retomada cheia de g\u00e1s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Redentor \u00e9 um filme crespuscular. \u00c9 sobre a morte de uma civiliza\u00e7\u00e3o, a do Brasil, que se transformou num por\u00e3o mal assombrado. Disseca o passaporte para a viol\u00eancia, a esperan\u00e7a, pois \u00e9 a boa f\u00e9 sem cidadania que alimenta os tubar\u00f5es da constru\u00e7\u00e3o civil, da pol\u00edcia e da pol\u00edtica. \u00c9 um filme que n\u00e3o brinca de fazer cinema. 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