{"id":1100,"date":"2009-12-17T16:51:10","date_gmt":"2009-12-17T18:51:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1100"},"modified":"2009-12-20T23:28:59","modified_gmt":"2009-12-21T01:28:59","slug":"ver-em-steve-spielberg","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/ver-em-steve-spielberg","title":{"rendered":"VER, EM STEVE SPIELBERG"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Guerra dos Mundos, de Steve Spielberg, \u00e9 uma charada cinematogr\u00e1fica que prop\u00f5e o verbo ver como a chave do enigma. Os invasores surgem no olho do furac\u00e3o. Descem at\u00e9 suas m\u00e1quinas enterradas no ch\u00e3o, ou seja, onde n\u00e3o eram vistas, apesar de estarem situadas bem no miolo da civiliza\u00e7\u00e3o (Nova York, Boston, especialmente a Am\u00e9rica). Para escapar, era preciso n\u00e3o ser visto. Para evitar que eles avan\u00e7assem sobre o olhar inocente, foi preciso tapar os olhos da crian\u00e7a. Quando as m\u00e1quinas emergem do solo, a popula\u00e7\u00e3o inteira est\u00e1 de olho no que est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n<p>A fabulosa seq\u00fc\u00eancia inicial, quando Tom Cruise (esse ator correto e talentoso, apesar das in\u00fameras bobagens das quais participou) procura ficar perto dos acontecimentos, de olhos bem abertos, assim como o resto dos habitantes do seu bairro, diz tudo sobre o filme. Em nenhum momento se desvia o olhar, s\u00f3 para fugir. Escapar \u00e9 ficar longe do alcance daquele olho gigante da m\u00e1quina invasora. A solu\u00e7\u00e3o do enigma fica a cargo de Tim Robbins, impressionante como sempre (n\u00e3o lembro de nenhuma performance ruim desse grande ator): quem sobrevive, nas ambul\u00e2ncias onde trabalha, s\u00e3o apenas aqueles que ficam olhando firme para o para-m\u00e9dico. Olham e pensam, diz o personagem de Tim, um sobrevivente que, para escapar, se esconde num por\u00e3o, procura ficar invis\u00edvel.<\/p>\n<p>Mas ele comete um erro: quer enfrentar o inimigo poderoso com as velhas armas, com as li\u00e7\u00f5es da Am\u00e9rica pioneira. Tom Cruise tamb\u00e9m comete o mesmo erro, pois coloca uma arma na cintura, que s\u00f3 serve para apontar contra seus semelhantes, jamais para o invasor, que n\u00e3o \u00e9 atingido pelas armas tradicionais. A bola de beisebol que quebra a vidra\u00e7a no in\u00edcio do filme, fruto do desentendimento entre Tom e o filho, abre um olho no vidro. \u00c9 quando o pesadelo come\u00e7a: algu\u00e9m nos viu esse tempo todo e vai atacar. Qual a sa\u00edda, al\u00e9m de ficar fora do alcance do olhar mortal? \u00c9 enxergar o que n\u00e3o \u00e9 visto a olho nu. \u00c9 l\u00e1, onde mora a resist\u00eancia, oculta por bilh\u00f5es de ano de evolu\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica, que est\u00e1 a for\u00e7a para derrotar os aliens.<\/p>\n<p>A verdadeira guerra \u00e9 entre o mundo vis\u00edvel e o invis\u00edvel. Ou entre o mundo oculto que de repente mostra a cara e o mundo aparente e expl\u00edcito (para os olhos) da vida di\u00e1ria. A guerra inverte a percep\u00e7\u00e3o: o que estava fora do olhar torna-se hegem\u00f4nico, e a civiliza\u00e7\u00e3o que nos conforta com suas coisas vis\u00edveis praticamente desaparece.<\/p>\n<p>Na cena impressionante em que um perisc\u00f3pio vivo e em forma de cobra tenta enxergar quem se esconde no por\u00e3o, os seres de outro planeta ficam olhando para uma foto. Passam de m\u00e3o em m\u00e3o. Eles enxergam apenas o vis\u00edvel. N\u00e3o ver o que est\u00e1 sob a toca do universo invis\u00edvel foi a sua ru\u00edna. Tom s\u00f3 enxerga a dimens\u00e3o real do perigo quando a c\u00e2mara de televis\u00e3o mostra como os invasores agem: descendo pela luz (vis\u00edvel) eles chegam at\u00e9 a m\u00e1quina (oculta) e fazem a persegui\u00e7\u00e3o com um grande olho central dominando as a\u00e7\u00f5es, e olhos acess\u00f3rios por meio dessas cobras\/perisc\u00f3pios que rastreiam os habitantes apavorados.<\/p>\n<p>Um detalhe, tamb\u00e9m na primeira seq\u00fc\u00eancia: o olhar catat\u00f4nico de quem viu demais nos remete aos filmes de zumbis e de invas\u00e3o de alien\u00edgenas dos anos 50 e 60. \u00c9 uma refer\u00eancia, e uma explica\u00e7\u00e3o, para esse olhar son\u00e2mbulo, zumbi, que permeou nossa inf\u00e2ncia. Ver torna-se um pesadelo e o choque desse contato transforma os humanos em seres pasmos diante do inimagin\u00e1vel.<\/p>\n<p>Li algumas cr\u00edticas sobre o filme e os equ\u00edvocos s\u00e3o recorrentes. Primeiro, acusam Spielberg de americano. Mas o que ele mais poderia ser? A antropologia nos ensina que precisamos analisar os fatos e as culturas nas suas especificidades. Spielberg jamais ser\u00e1 outra coisa do que um americano. Tamb\u00e9m dizem que ele usou o velho truque do deus ex-maquina, a interven\u00e7\u00e3o que vem de outro lugar, para resolver o problema. \u00c9 exatamente a\u00ed que reside a qualidade do filme: a coer\u00eancia com que ele desenvolve e cria o desfecho da trama \u00e9 que importante. Tamb\u00e9m invocam outros filmes como melhores do que este. Quando lan\u00e7ou Tubar\u00e3o e suas outras obras, ca\u00edram de pau em cima dele. Agora invocam o que malharam para criticar este Guerra dos Mundos. \u00c9 muita estreiteza de vis\u00e3o.<\/p>\n<p>Spielberg \u00e9 um criador poderoso e nos legou imagens que v\u00e3o ficar para sempre. Guerra dos Mundos \u00e9 um filme assustador que merece ser visto pelo que ele \u00e9: um exerc\u00edcio em cima da mais importante vetor do cinema, que \u00e9 o verbo ver. Ver, em Spielberg, neste filme, \u00e9 uma porta para a sua perman\u00eancia como cineasta do primeiro time. Americano, por certo. Profundamente comercial, naturalmente (o que \u00e9 coerente com sua cultura). E com a for\u00e7a e a profundidade dos verdadeiros criadores. O que n\u00e3o \u00e9 pouco, dada a enorme quantidade de asneiras com que nos brindam todos os dias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A verdadeira guerra \u00e9 entre o mundo vis\u00edvel e o invis\u00edvel. 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