{"id":1102,"date":"2009-12-17T16:52:04","date_gmt":"2009-12-17T18:52:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1102"},"modified":"2009-12-20T20:59:07","modified_gmt":"2009-12-20T22:59:07","slug":"pampa-em-23-um-romance-fundador","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/pampa-em-23-um-romance-fundador","title":{"rendered":"PAMPA EM 23: UM ROMANCE FUNDADOR"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Romance fundador pode ser comparado a um marco de pedra na fronteira seca. \u00c9 linha divis\u00f3ria e par\u00e2metro num ambiente que foi riscado pela guerra. Quem passa por ele aprende a se situar, reconhecendo assim a identidade de algo que est\u00e1 oculto num lugar onde tudo parece ser id\u00eantico em qualquer quadrante ao seu redor. O marco faz parte da regi\u00e3o, no caso, a literatura, mas dela se destaca porque define algo profundo. Esse contorno n\u00e3o se esvai na chuva, n\u00e3o \u00e9 colhido pelo tempo. Fica de p\u00e9, a exemplo de um acordo entre povos que se respeitam por gera\u00e7\u00f5es. E serve de guia para os viajantes, os leitores, que sabem, a partir dele, o lugar onde est\u00e3o pisando. Assim \u00e9 o romance Pampa em 23, de Ubirajara Raffo Constant, lan\u00e7ado em 2004 e at\u00e9 hoje cercado pelo sil\u00eancio e a solid\u00e3o, apesar da sua presen\u00e7a definitiva como obra de refer\u00eancia na cultura brasileira. Trata-se de um romance fundador, que extrapola sua condi\u00e7\u00e3o de obra liter\u00e1ria e se transforma, ao fim da leitura, num lugar onde podemos morar.<\/p>\n<p>Com quase 500 p\u00e1ginas, a obra encerra os fundamentos de uma na\u00e7\u00e3o soberana, o Brasil que lutou por gera\u00e7\u00f5es por vasta por\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rio que agora nos pertence. Como camadas de alicerces que se somam para que haja perman\u00eancia do que revela, podemos destacar tr\u00eas abordagens, que se misturam na narrativa, composta de v\u00e1rios vetores da linguagem. Vamos utilizar a divis\u00e3o escolhida por Euclides da Cunha (terra, homem, luta) sem ter a inten\u00e7\u00e3o em descobrir na nova obra alguma semelhan\u00e7a com o cl\u00e1ssico sobre Canudos (com o agravante de que qualquer obra sobre a luta fraticida, comparada com Os Sert\u00f5es, desempenharia um papel coadjuvante). Trata-se apenas de homenagear o c\u00e2none, usando, nesta resenha sobre um romance que desponta agora, apenas uma de suas vestes.<\/p>\n<p>O objetivo \u00e9 revelar os mecanismos do of\u00edcio engendrados no romance, sem despojar a criatura dos seus encantos. E descobrir nele a sua originalidade, que \u00e9 o resultado do talento misturado com suor, j\u00e1 que a ampla pesquisa abusa tanto do plano geral (a Hist\u00f3ria) quanto do detalhe (o cotidiano resgatado em suas min\u00facias). A contribui\u00e7\u00e3o de Ubirajara Raffo Constant vem mesclada numa tormenta de discursos, numa saraivada de palavras t\u00edpicas da regi\u00e3o (o sudoeste ga\u00facho), numa altern\u00e2ncia de estilos e g\u00eaneros e em algumas cargas pesadas de cavalaria, tanto no in\u00edcio, quando se despejam miles (para usar uma palavra recorrente na obra) de personagens, quanto no final, quando as batalhas inundam o pampa de sangue. Antes que os apressados desistam de saber do que se trata, por desconfiarem que todo romance com essas roupagens tem o mesmo rosto, \u00e9 preciso adiantar que em qualquer pa\u00eds civilizado \u00e9 permitido ousar em assuntos aparentemente j\u00e1 conhecidos. H\u00e1 lugar para in\u00fameros criadores na mesma estrada por onde trafega a mesma terra em conflito e a mesma humanidade em luta por seu destino.<\/p>\n<p>Constant n\u00e3o se apega \u00e0s vers\u00f5es consagradas quando levanta cada palmo de ch\u00e3o onde pisam seus personagens, reais ou inventados. Ele vai fundo para descobrir a origem de cada palavra, de cada epis\u00f3dio da hist\u00f3ria pr\u00f3xima ou distante e instaura um debate permanente sobre a geografia e os desdobramentos hist\u00f3ricos. Sobram exemplos sobre sua inquietude, que \u00e9 a marca registrada dos habitantes da cidade onde nasceu e se criou, Uruguaiana, na fronteira oeste ga\u00facha. Os uruguaianenses s\u00e3o, antes de tudo, pol\u00eamicos. O conflito faz parte de cada momento da conversa e quando ele est\u00e1 ausente, acaba sendo provocado, s\u00f3 pelo h\u00e1bito. Constant faz jus a esse perfil, e toma partido sempre, tendo o cuidado de esmiu\u00e7ar as posi\u00e7\u00f5es em contr\u00e1rio, pois tamb\u00e9m faz parte do ethos local o senso de justi\u00e7a, o reconhecimento do valor dos advers\u00e1rios, tanto na palavra quanto nas armas.<\/p>\n<p>TERRA &#8211; Para chegar \u00e0 luta, a revolu\u00e7\u00e3o de 1923 (resultado de uma campanha de reelei\u00e7\u00e3o fraudulenta e mal resolvida) em Uruguaiana, o autor se debru\u00e7a sobre a paisagem. A Terra \u00e9 descrita por ele com o apuro do cen\u00f3grafo e do artista que sempre foi, o que o destaca como uma das figuras mais admiradas e queridas da cidade. O poeta Constant, criador de not\u00e1veis versos nativistas, foi o respons\u00e1vel pelos cen\u00e1rios do filme A Intrusa, de Carlos Hugo Christensen, estudou escultura com Vasco Prado, pintura com Paulo Porcella e xilogravura com Dan\u00fabio Gon\u00e7alves e Zor\u00e1via Bettiol. Essa forma\u00e7\u00e3o completa se dedica \u00e0 paisagem como um ourives diante da j\u00f3ia. \u00c9 mais do que uma descri\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma incorpora\u00e7\u00e3o, pois a narrativa, que conta com pequeno gloss\u00e1rio no final (precisaria ser bem mais extenso), assume o enfoque da regi\u00e3o, toma partido tamb\u00e9m ao descrever a geografia, que assim se torna uma geografia de linguagens.<\/p>\n<p>O leitor fica conhecendo o que \u00e9 uma est\u00e2ncia, o que acontece num domingo de sol no interior, qual a sensa\u00e7\u00e3o de ver um guerreiro a trote emoldurado no entardecer por uma serra distante. Sabe agora o que \u00e9 um tigre cevado, o que viciou em carne humana, e o que esse perigo significa na vida dura da campanha. Desce ao detalhe das ra\u00e7as de cria\u00e7\u00e3o, dos cavalos e suas origens e portes, dos bois, das sangas, das \u00e1rvores. A terra se mistura ao sangue humano quando nele se deposita o corpo dos guerreiros que at\u00e9 dias antes viviam em paz e sossego, apenas rememorando batalhas antigas e desconfiando de que algo iria acontecer. A terra, que era amea\u00e7ada apenas por animais selvagens, torna-se bruta pelo embate dos homens. A geografia, ent\u00e3o, se retorce como numa hist\u00f3ria absurda de pesadelos.<\/p>\n<p>HOMEM &#8211; O homem, a mulher, a crian\u00e7a, o idoso, todos se confraternizam, primeiro, num entrela\u00e7amento de linguagens diferentes. H\u00e1 a linguagem culta, dos estancieiros, como Cilano Bento (protagonista fundamental na obra) e seu pai; dos visitantes ilustres vindos da Europa, como o inesquec\u00edvel Honor\u00e9, o franc\u00eas que pertence \u00e0 linhagem de Saint Hilaire e comenta a obra do antecessor; dos pe\u00f5es (ou pe\u00e3es, como quer Constant) da fazenda, como Liberato, o apaixonado e ex\u00edmio cavaleiro, todos com as palavras \u00e0 vontade, muitas vezes truncadas. H\u00e1 ainda o mutismo dos excepcionais, como Sabugo ou o an\u00e3o que assombra o final do romance em r\u00e1pida apari\u00e7\u00e3o. Existe tamb\u00e9m a fala dos fac\u00ednoras, todos cinematogr\u00e1ficos, como a dupla que chega para fazer baderna num bordel de campanha, ou os degoladores que envergonham os guerreiros idealistas. As senhoras, recatadas e graves, as mo\u00e7as, apaixonadas e vibrantes, os rapazes, debochados e cavalheiros, as crian\u00e7as, cheias de talentos dos adultos, como cavalgar, por exemplo: tudo isso inunda o romance, junto com os tilburis, os c\u00e3es, as carreiras. Sem mencionar a culin\u00e1ria, presen\u00e7a marcante no livro, com detalhes de pratos saborosos em v\u00e1rias p\u00e1ginas.<\/p>\n<p>A descri\u00e7\u00e3o da confeitaria Campana, c\u00e9lebre lugar de encontro dos habitantes de Uruguaiana (e que mais tarde pertenceu ao meu tio Nico) \u00e9 descrita com requinte de conaisseur. A belle \u00e9poca da fronteira, desconhecida do resto do Brasil, ali \u00e9 revisitada com tudo o que temos de direito, desde as vastas prateleiras com todos os tipos de bebidas importadas e nacionais, at\u00e9 a confeitaria que fazia a alegria da meninada.<\/p>\n<p>LUTA &#8211; A luta tem seus antecedentes na campanha pol\u00edtica, com o foguet\u00f3rio, os discursos em pra\u00e7a p\u00fablica, as aglomera\u00e7\u00f5es, os boatos, os conflitos, as dissid\u00eancias, os arreglos e os desaforos. Tudo descamba para a guerra na cidade e no campo. A descri\u00e7\u00e3o de uma das batalhas, que ocupou a esquina da casa onde me criei, em frente ao Col\u00e9gio Santana, \u00e9 impressionante.<\/p>\n<p>As cargas \u00e9picas de cavalaria, o destemor diante das balas e lan\u00e7as, avan\u00e7am no final do romance como uma tempestade. Apesar de reconhecer as raz\u00f5es, o brio, o valor e a honradez dos maragatos (revolucion\u00e1rios, de len\u00e7o vermelho) o livro toma partido por Flores da Cunha, o legalista her\u00f3ico (chimango, de len\u00e7o branco). Faz parte da concep\u00e7\u00e3o do romance, que \u00e9 um mergulho na autenticidade, forjada exatamente nesse tipo de luta. Constant, assim como o resenhista que agora o aborda, foram criados com os mesmos valores, no mesmo lugar. Com o tempo, nos tornamos irm\u00e3os de letras. Posso dizer-lhe com franqueza: nossos Hon\u00f3rio de Lemos (o dele, hist\u00f3rico, o meu, descrito no romance Universo Baldio, e lan\u00e7ado no mesmo ano de 2004, puro mito) acabam no mesmo lugar: frente a frente com Flores da Cunha, sob as vistas de Oswaldo Aranha. Na minha vis\u00e3o, Hon\u00f3rio teve tantas vit\u00f3rias quanto derrotas e n\u00e3o quase que s\u00f3 derrotas, como neste romance de Constant. Mas isso n\u00e3o importa. O que vale \u00e9 que os fatos assomam com nitidez e grandeza nesta obra, que n\u00e3o se limita apenas ao s\u00e9culo vinte.<\/p>\n<p>Existe uma boa parte do livro dedicada aos s\u00e9culos anteriores, com detalhes sobre a guerra Cisplatina, a independ\u00eancia do Uruguai e da Argentina, a guerra farroupilha e a funda\u00e7\u00e3o de Uruguaiana. \u00c9 um romance que coloca aquela fronteira no mapa da literatura universal, n\u00e3o pela primeira vez, mas de forma definitiva. Cumpre essa miss\u00e3o com a marca da terra, a autenticidade, o que inclui uma carpintaria pessoal sem as preocupa\u00e7\u00f5es do texto sem defeitos. Como as linguagens pesquisadas em livros de mem\u00f3rias, jornais da \u00e9poca, pronunciamentos pol\u00edticos, ordens de servi\u00e7o, s\u00e3o incorporados \u00e0 narrativa, a precariedade costuma emergir. Isso poderia ser considerado um defeito, principalmente depois de tantas experi\u00eancias liter\u00e1rias nos \u00faltimos cem anos, mas \u00e9 a forma de Constant demonstrar seu apre\u00e7o ao que aprendeu.<\/p>\n<p>Ele nos traz esse universo quase intacto e o faz conviver com a inven\u00e7\u00e3o das suas hist\u00f3rias, onde entram as corridas em cancha reta e os encontros nos bolichos, as lutas de faca em campo aberto, as cenas das fazendas, o an\u00e3o que acompanha o casal de velhos escondidos no ermo, al\u00e9m dos sonhos onde as amadas aparecem em cen\u00e1rios prateados e as assombra\u00e7\u00f5es em que donzelas se transformam em monstros. Qualquer cr\u00edtica que se queira fazer a essa ou outra repeti\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es de linguagem, de excesso de detalhes considerados \u00e0s vezes sem import\u00e2ncia, o que deve ser visto \u00e9 que esta \u00e9 uma obra completa, que cont\u00e9m a saga de uma regi\u00e3o fundamental para a Hist\u00f3ria e a literatura do pa\u00eds. Seu material foi colhido na fonte e brota das p\u00e1ginas como cascata, cruzada de vez em quando por poemas, pois um poeta \u00e9 s\u00edntese por voca\u00e7\u00e3o mas quando \u00e9 necess\u00e1rio esbalda-se no excesso.<\/p>\n<p>Pampa em 23 \u00e9 um romance para ser saboreado, como a refei\u00e7\u00e3o que come\u00e7a no chimarr\u00e3o e acaba na sobremesa. Ou como a batalha, que come\u00e7a na coragem e termina na paz verdadeira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Romance fundador pode ser comparado a um marco de pedra na fronteira seca. \u00c9 linha divis\u00f3ria e par\u00e2metro num ambiente que foi riscado pela guerra. Quem passa por ele aprende a se situar, reconhecendo assim a identidade de algo que est\u00e1 oculto num lugar onde tudo parece ser id\u00eantico em qualquer quadrante ao seu redor. O marco faz parte da regi\u00e3o, no caso, a literatura, mas dela se destaca porque define algo profundo. Esse contorno n\u00e3o se esvai na chuva, n\u00e3o \u00e9 colhido pelo tempo. Fica de p\u00e9, a exemplo de um acordo entre povos que se respeitam por gera\u00e7\u00f5es. E serve de guia para os viajantes, os leitores, que sabem, a partir dele, o lugar onde est\u00e3o pisando. 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