{"id":1104,"date":"2009-12-17T16:52:59","date_gmt":"2009-12-17T18:52:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1104"},"modified":"2009-12-20T22:55:27","modified_gmt":"2009-12-21T00:55:27","slug":"guarnieri-a-verdade-profunda","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/guarnieri-a-verdade-profunda","title":{"rendered":"GUARNIERI: A VERDADE PROFUNDA"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Eva Wilma disse uma frase fundamental no enterro de Gianfrancesco Guarnieri, que se foi no s\u00e1bado: &#8220;O mais importante \u00e9 que ele amava o Brasil, amava o povo&#8221;. Disse isso fazendo uma express\u00e3o que interpreto como exaust\u00e3o de ter de lembrar algo t\u00e3o \u00f3bvio, mas que se torna quase in\u00e9dito (e desconfort\u00e1vel) na atual fase da vida nacional. Disse com uma gravidade reveladora da nossa orfandade, pois verdade t\u00e3o profunda j\u00e1 nos escapa, n\u00f3s que abrimos m\u00e3o do Brasil soberano. No funeral do grande dramaturgo, coluna mestra da insurrei\u00e7\u00e3o cultural contra o arb\u00edtrio que desceu sobre n\u00f3s em 1964 e ainda n\u00e3o nos abandonou, Eva Wilma tamb\u00e9m nos lembra, com sua frase, o quanto as pessoas aprisionadas pelo sistema de televis\u00e3o que nos oprime sabem como estamos longe de uma na\u00e7\u00e3o livre. Exatamente por termos virado as costas para o pa\u00eds que nos acolhe e abriga, o pa\u00eds que atualmente traz de volta seus filhos colhidos pela guerra no L\u00edbano, filhos que vieram de uma outra nacionalidade para a qual prestam tributo no sotaque e nos costumes, mas que s\u00e3o brasileiros, assim como Gianfrancesco Guarnieri, trazido aos tr\u00eas anos da It\u00e1lia e que aqui assumiu o pa\u00eds que defendeu at\u00e9 a morte.<\/p>\n<p>EQUIL\u00cdBRIO &#8211; Como rep\u00f3rter em S\u00e3o Paulo, tive a oportunidade de visit\u00e1-lo um dia na sua casa no Morumbi, ampla e despojada de qualquer ostenta\u00e7\u00e3o. Ele estava num sof\u00e1, meio confuso com minha pauta, que era um ensaio sobre o palco, inven\u00e7\u00e3o desse editor magn\u00edfico que \u00e9 o Fernando Poyares, na \u00e9poca na lideran\u00e7a da revista Santista. Eu j\u00e1 tinha falado com Antunes Filho, que me recebera com generosidade, e tentara o Diogo Pacheco, que no dia da entrevista, por tamb\u00e9m n\u00e3o entender a pauta, me mandou embora. Com Guarnieiri aconteceu o esperado: fui recebido com gentileza e receptividade. Eu mesmo n\u00e3o sabia o que queria fazer com aquelas entrevistas, por isso nem tinha por onde come\u00e7ar. Lancei um briefing mais ou menos louco, fruto da conversa que tivera com Poyares. E Guarnieri, o cara que em 1955, com vinte anos deslumbrou a todos com sua pe\u00e7a &#8220;Eles n\u00e3o usam black tie&#8221; , que foi o maravilhoso roteirista dessa obra-prima de Roberto Santos que \u00e9 &#8220;A Hora e a vez de Augusto Matraga&#8221;, falou comigo por uma hora. Viabilizou o texto que publiquei na capa da revista. Disse muitas coisas e sobre sua vida usou de uma imagem, que traduzo mais ou menos assim, filtrado pela mem\u00f3ria: n\u00f3s, artistas brasileiros, somos surfistas, precisamos saber nos equilibrar na onda. Explico melhor: n\u00e3o na onda da moda, mas na onda avassaladora que a tudo carrega.<\/p>\n<p>CONTEN\u00c7\u00c3O &#8211; Sabemos o quanto foi longa e \u00e1rdua sua vida, tendo que fazer novelas sem parar, e ao mesmo tempo lutando pelo seu teatro e os filmes dos quais participou. Como ator, ensinou a todos como fazer. Fundado no exerc\u00edcio da autenticidade, jamais deu bola para essas besteiras com que a profiss\u00e3o foi cercada, como carisma ou glamour. Ele era o personagem sem abrir m\u00e3o de si mesmo. Era did\u00e1tico sem ser piegas, moderno sem ser superficial, de vanguarda sem ser espalhafatoso. Tinha uma conten\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica que projetava escassez humana. Sua voz parecia tr\u00eamula, desfocada, sem emposta\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o havia presen\u00e7a mais marcante no palco ou na tela.<\/p>\n<p>Era o criador que estava ali, apascentando suas criaturas e nos mostrando o caminho das pedras para nos desvencilhar da aliena\u00e7\u00e3o. Ele desdramatizava, como Brecht, e ao mesmo tempo encarnava a f\u00faria diante da injusti\u00e7a, a luta permanente contra o descaso. Buscava a lucidez coletiva a partir de suas luzes pr\u00f3prias. Convencia quando atuava, por ser um ator de primeira grandeza, um professor da dramaturgia libert\u00e1ria, que foi colocada na sombra pelo besteirol e outras bobagens comerciais.<\/p>\n<p>COMETA &#8211; Guarnieri professava a verdade profunda; o amor ao pa\u00eds e ao seu povo. O povo com o qual se identificava no intermin\u00e1vel drama da escravid\u00e3o. Sonhou a liberdade na pr\u00e1tica, no front. Equilibrou-se na mar\u00e9 alta da destrui\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, como a voz que veio de longe, do levante, do confronto, da \u00e9poca em que estava claro o que iam fazer com o Brasil. Daquele tempo, destaco ainda a cena em que Eva Wilma grita com Walmor Chagas em S\u00e3o Paulo S.A., de Luiz Sergio Person: Vamos acabar com esta palha\u00e7ada! Esse grito ainda vale, por mais que nos sufoquem com uma dramaturgia de araque nas produ\u00e7\u00f5es televisivas, por mais que nos afastem de teatro, por mais que eliminem o cinema s\u00e9rio e desafiador. Guarnieri deixa seu recado com a pr\u00f3pria vida, a que nos iluminou como um grande cometa, que por ser surpreendente, gigantesco e tomar conta de todo o c\u00e9u, se transforma num acontecimento inesquec\u00edvel. Somos cria dessa luz intensa e sabemos o quanto foi tra\u00edda nos anos que se seguiram \u00e0 sua luta. Mas Guarnieri, ator, dramaturgo, poeta, \u00e9 a resist\u00eancia que fica, ao nosso lado, como um punho cerrado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gianfrancesco Guarnieri era did\u00e1tico sem ser piegas, moderno sem ser superficial, de vanguarda sem ser espalhafatoso. Tinha uma conten\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica que projetava escassez humana. Sua voz parecia tr\u00eamula, desfocada, sem emposta\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o havia presen\u00e7a mais marcante no palco ou na tela. 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