{"id":1109,"date":"2009-12-17T16:56:00","date_gmt":"2009-12-17T18:56:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1109"},"modified":"2009-12-20T23:29:45","modified_gmt":"2009-12-21T01:29:45","slug":"passo-miudo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/passo-miudo","title":{"rendered":"PASSO MI\u00daDO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Aos poucos, Febr\u00f4nio descobriu que n\u00e3o existiam mais velhos no pa\u00eds. Os que deviam ser anci\u00e3os estavam fantasiados de papagaio e dan\u00e7avam a rumba em eventos de Terceira Idade. Ningu\u00e9m mais usava, como ele, chap\u00e9u de feltro, ou manta para este inverno que n\u00e3o se instala de forma definitiva, deixando claros de veranicos a assanhar a passarinhada da pra\u00e7a. Havia um surto coletivo no ar. Ele sentia a vibra\u00e7\u00e3o mesmo antes de sair, quando olhava os sapatos pretos lustrados, a cal\u00e7a de l\u00e3 com bainha italiana, o casaco xadrez e a camisa de flanela abotoada at\u00e9 o pesco\u00e7o. Sentia desconforto. N\u00e3o dispunha de amigos para repartir as horas. E n\u00e3o tinha vontade de participar da arenga sobre os benef\u00edcios da qualidade de vida. Nem ficava de olho nos privil\u00e9gios das pessoas que, como ele, tinham cruzado o cabo da Boa Esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>O mais chato era que n\u00e3o podia conversar sobre a morte. Talvez o fato de estar cercado pela guerra civil fosse um empecilho. Refletia sobre esse paradoxo ao n\u00e3o compartilhar com o entusiasmo das rodas que se formavam para comentar as \u00faltimas atrocidades. Tamb\u00e9m n\u00e3o engrossava o tumulto dos que acorriam para a frente do quartel da pol\u00edcia, atra\u00eddos pelo som das sirenes e aos gritos de\u201d pegaram o tarado\u201d, ou o louco, ou o bandido. N\u00e3o era esse tipo de impacto que precisava desfrutar num conv\u00edvio de pessoas com idade pr\u00f3xima do primeiro s\u00e9culo de vida. Ele sentia falta do segredo que existia anos antes, e que costumava cercar as mortes com algum mist\u00e9rio. N\u00e3o considerava essa falta que sentia como um desvio de conduta. Achava normal fazer a morte sentar-se ao seu lado para uma conversa. Ela sabia contar hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que o excesso da morte tinha inviabilizado o suspense. Os corpos se amontoavam sem que houvesse tempo para o debate, o sussurro, o conluio entre teses, posi\u00e7\u00f5es. N\u00e3o se podia contrapor, raciocinar, investigar, procurar informa\u00e7\u00f5es. Tudo se atropelava num clima de Ju\u00edzo Final sem julgamento. N\u00e3o havia tempo, nem disposi\u00e7\u00e3o, para entender direito o que tinha acontecido. Hoje tudo parecia claro demais. O padrasto que matou mulher e enteados, a av\u00f3 que enfrentou o neto drogado, todos se envolviam em coisas \u00f3bvias. Os assassinos confessavam, se entregavam ou apareciam na televis\u00e3o para logo depois serem capturados. N\u00e3o havia uma chave falsa, uma pista, um frasco de perfume, partido, embaixo da cama.<\/p>\n<p>Tudo era decifrado pelo DNA e o que ainda permanecia oculto obedecia aos velhos ditames da pol\u00edtica e da corrup\u00e7\u00e3o. Os habitantes do pa\u00eds se atiravam \u00e0 carnificina no tr\u00e2nsito ou nas festas de fim de semana como se quisessem fugir definitivamente, furar a fronteira, aportar em outros territ\u00f3rios, que estivessem livres do astral que tomou conta de apartamentos, botecos, cinemas. Febr\u00f4nio tinha perdido para sempre a na\u00e7\u00e3o que o criara, e passeava pelas ruas tendo de aturar os berros dos camel\u00f4s. Os bancos da pra\u00e7a continuavam l\u00e1, mas era temer\u00e1rio se aboletar em qualquer um deles. A mendic\u00e2ncia e a loucura faziam ponto nos \u00faltimos espa\u00e7os p\u00fablicos e, derrotado, ele voltava para casa a p\u00e9, j\u00e1 que cansara de aturar desaforo de motoristas revoltados com sua condi\u00e7\u00e3o de velho n\u00e3o pagador de passagem.<\/p>\n<p>Chegava em casa e abria a veneziana. Morava no mesmo lugar a maior parte da vida. L\u00e1, no pequeno quintal, protegido por alto muro que mandara construir, sentava no seu banco favorito e aguardava os p\u00e1ssaros migrat\u00f3rios que teriam de passar muito acima dos fios. No r\u00e1dio j\u00e1 n\u00e3o tocavam mais m\u00fasica e o que havia era um discurso intermin\u00e1vel, de religiosos, pol\u00edticos, artistas, an\u00fancios. Harmonia, melodia, letra tinham sido erradicadas, pois eram recursos que n\u00e3o compactuavam com o ambiente de desordem. Gostava de estar com a cabe\u00e7a desocupada, para pensar nos crimes famosos, nos detetives id\u00f4neos, nas mulheres fatais que conseguiam sair ilesas, e nos velhinhos criminosos que acabavam caindo na pr\u00f3pria armadilha.<\/p>\n<p>Talvez fosse isso! Os velhos continuavam suspeitos, mas agora se faziam de v\u00edtimas para driblar as investiga\u00e7\u00f5es. E quem disse que ainda existiam investigadores? Esses tinham se desviado de fato de suas condutas, acomodados gra\u00e7as \u00e0 prolifera\u00e7\u00e3o dos denunciantes. N\u00e3o gostava de certas palavras como alcag\u00fcete, pr\u00f3stata, tripartite. Quando as ouvia, ou algo parecido, sabia que morava no pesadelo da linguagem. Fora escriv\u00e3o a vida toda e as palavras eram precisas, sintonizadas com os depoentes, que eram articulados, alfabetizados em sua maioria ou pelo menos tinham o prim\u00e1rio bem feito. Agora n\u00e3o entendia nada, a come\u00e7ar pelos nomes. Joilton, Jordinelson, Aricleide? Onde estavam as Aracis, os Gessys, as Br\u00edgidas, as Titas e at\u00e9 mesmo os Febr\u00f4nios?<\/p>\n<p>Tinham sumido pelas m\u00e3os de cart\u00f3rios desonestos. Esses, aceitavam tudo porque neles trabalhavam os retardados que na \u00e9poca de Febr\u00f4nio eram os \u00faltimos da classe. No fundo, os sujeitos reprovados tinham tomado conta da na\u00e7\u00e3o. Destru\u00edram as escolas, esconderam os melhores livros, erradicaram os nomes b\u00edblicos para que o pa\u00eds sumisse junto com sua popula\u00e7\u00e3o, agora batizada com nomes h\u00edbridos, massacrada e de cora\u00e7\u00e3o seco. Tinham at\u00e9 acabado com os velhos, que hoje viviam a brincar de roda, fantasiados de periquita ou fazendo propaganda de estimulantes de riscos cardiovasculares.<\/p>\n<p>Febr\u00f4nio mantinha-se bem vestido dentro de casa e aguardava a chaleira chiar para fazer seu caf\u00e9. Depois, sentava no banco favorito a esperar as aves. O barulh\u00e3o dos motores na avenida pr\u00f3xima, os gritos dos adolescentes armados, a serra el\u00e9trica em alguma constru\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima, tudo o rodeava nesse final de tarde, quando suspirava por uma boa conversa. Sim, ele estava velho. Sim, queria conversar sobre a morte. N\u00e3o, n\u00e3o queria se iludir com a melhor idade. Febr\u00f4nio era um caso sem cura, mas seu desencanto era fruto do que o mantinha intacto: uma vida plena, vivida no passo mi\u00fado do pa\u00eds que um dia fora soberano e que agora se esva\u00eda junto com as nuvens coloridas.<\/p>\n<p>No lugar do arco-\u00edris, uma grande lua suspeita mostrava o brilho da sua coroa. A noite se aproximava para que ele voltasse a sonhar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Febr\u00f4nio mantinha-se bem vestido dentro de casa e aguardava a chaleira chiar para fazer seu caf\u00e9. Depois, sentava no banco favorito a esperar as aves. 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