{"id":1111,"date":"2009-12-17T16:57:18","date_gmt":"2009-12-17T18:57:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1111"},"modified":"2009-12-20T21:30:38","modified_gmt":"2009-12-20T23:30:38","slug":"irio-e-os-animais","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/irio-e-os-animais","title":{"rendered":"\u00cdRIO E OS ANIMAIS"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o era bonita. Tinha o aspecto quadrado, retaco, mas n\u00e3o aparentava nenhuma brutalidade. A pele era morena, clara, com alguns respingos de luz no ombro exposto por vestido decotado e discreto. Havia tristeza na boca vermelha de batom, suavizada pelo contraponto de um olhar ovalado, quase enorme, e decidido. \u00cdrio estava na parada do \u00f4nibus e achou que a mulher queria falar alguma coisa. Para isso ela tinha se colocado em posi\u00e7\u00e3o de sentido, com os bra\u00e7os juntos ao corpo, a m\u00e3o esquerda segurando a bolsa de napa marrom, semi-nova, e a direita espalmada na coxa. O vestido rosa desmaiado, com listas brancas, tinha marcas de um forro discreto, presente na altura do busto e na cintura.<\/p>\n<p>Ela deu um passo para frente e abordou \u00cdrio, que j\u00e1 estava h\u00e1 uns vinte minutos esperando a condu\u00e7\u00e3o para lev\u00e1-lo a uma unidade do Juizado dos Menores. Era seu dia de plant\u00e3o. N\u00e3o costumava chamar a aten\u00e7\u00e3o de ningu\u00e9m, pois tinha o um tipo comum daquelas bandas:alto, curvado, magro, com um loiro de trigo bem clarinho no cabelo cortado, sempre despenteado. Exibia um topete que era mais efeito do vento do que do espelho. Estranhou, por ser invis\u00edvel, a aproxima\u00e7\u00e3o da mulher, que o cumprimentou com cerim\u00f4nia e batendo duro com o salto alto do sapato preto.<br \/>\n&#8211; O senhor \u00e9 o \u00cdrio, que trabalha com os menores, n\u00e3o \u00e9?<br \/>\nEle concordou, estranhando a pergunta. Todos o conheciam naquele ermo, cidade perdida, a poucos quil\u00f4metros da capital do estado, mas a mil anos de luz de qualquer civiliza\u00e7\u00e3o. A mulher levantou os olhos, colocou a m\u00e3o no rosto e exclamou:<br \/>\n&#8211; Jo\u00e3o Pedro est\u00e1 muito feliz.<br \/>\nEspichou a \u00faltima s\u00edlaba no feliiiiz.<br \/>\n&#8211; O senhor lembra do meu filho, o Jo\u00e3o Pedro? (as sobrancelhas finas ficaram espessas com o olhar pesado). O menino que queriam matar, lembra?<\/p>\n<p>Olhou para os lados. N\u00e3o havia mais ningu\u00e9m na parada. Claro que lembrava. Seu gesto foi no impulso. Oito anos antes, tinha visto a mesma mulher, que era outra no aspecto e na f\u00faria: estava sendo espancada por seis policiais. Mordia, gritava, chutava, rolava no ch\u00e3o.<br \/>\n&#8211; \u00c9 uma empregada dom\u00e9stica. Disse que perdeu o filho, disse Tram\u00f3ia, o policial gigantesco que estava sempre na recep\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8211; E acharam? perguntou, levando um coice do policial.<br \/>\n&#8211; Esse est\u00e1 no papo, \u00f4 distra\u00eddo. J\u00e1 levaram o guri para o campo.<br \/>\n\u00cdrio tinha a cara de sonso. Aprendera a fazer aquele desenho no rosto de tanto presenciar barbaridades. Sabia de v\u00e1rios casos de assassinatos a sangue frio, de preso queimado, de enterrados vivos, de carcereiros estaqueados ao sol de meio dia no p\u00e1tio conflagrado. Mas insistiu:<br \/>\n&#8211; Qual campo?<\/p>\n<p>O agente Masmorra passava por ali e carregou o perguntador pelo bra\u00e7o.<br \/>\n&#8211; Tu vem comigo, \u00f4 taquara, espanador da lua. N\u00e3o sei o que tu faz com esse tamanho. Vara-pau, vou te mostrar uma coisa.<br \/>\nAinda podiam ouvir o uivo da mulher, que exigia a devolu\u00e7\u00e3o do filho roubado, quando se afastava na camioneta aos peda\u00e7os de Masmorra.<\/p>\n<p>O descampado exibia uma grama uniforme e alguns tufos de \u00e1rvores ao longe. Uma dessas aglomera\u00e7\u00f5es era um grupo de policiais, espancando um garoto de doze anos. Negro. Estava roxo na metade do rosto. O resto era sangue endurecido. Apanhava h\u00e1 horas, talvez dias.<br \/>\n&#8211; Por que est\u00e3o batendo?<br \/>\n&#8211; Para dar o exemplo, disse Masmorra. Foi flagrado puxando fumo e ainda debochou dos policiais.<br \/>\n&#8211; Fumo de quem?<br \/>\n&#8211; Fumo limpo, nosso, \u00e9 que n\u00e3o era. Tinha comprado de um delinq\u00fcente que veio de longe cheio de pasto. A gente conseguiu limpar o malandro, mas ele j\u00e1 tinha repassado para uns man\u00e9s da vila Guilherme. Esse guri&#8230;(e Masmorra sacudia o dedo indicador como a decretar alguma lei eterna) esse guri tem que pagar o desaforo de comprar de gente desconhecida da cidade. E ainda por cima (uma cuspida para fora do carro, que foi longe), ainda por cima debochou, entende?<\/p>\n<p>O funcion\u00e1rio n\u00e3o disse nada. Desceu do calhambeque e foi se aproximando da surra. Os outros policiais ficaram com a m\u00e3o no ar, olhando o magricela que chegava com o rosto contra\u00eddo.<br \/>\n&#8211; O que tu quer aqui? Vai cuidar dos teus advogados, dos teus superiores, dos guris que te chupam o pau, vai.<br \/>\nEle parou e disse na boa:<br \/>\n&#8211; V\u00e3o matar o guri. Se matarem o guri, aproveitem o embalo e me matem tamb\u00e9m. Porque essa eu vou denunciar.<br \/>\nGargalhada geral. O valente-surpresa era conhecido como o mandalhete dos policiais, trazia refresco, caf\u00e9, p\u00e3o de queijo.<br \/>\n&#8211; Volta para o carro e te fecha, abostado.<\/p>\n<p>Ele continuava de p\u00e9, na parada de \u00f4nibus. A cena toda lhe vinha na cabe\u00e7a, agora mais n\u00edtida. Procurara esquecer o acontecido, porque ficara marcado e precisou se recolher. Depois de peitar os matadores, virou um vegetal de verdade na reparti\u00e7\u00e3o. Ningu\u00e9m lhe dirigia a palavra. Mas tamb\u00e9m, parece mentira, o temiam.<\/p>\n<p>Decidiu n\u00e3o arredar p\u00e9 at\u00e9 que o ultimo bofet\u00e3o deixasse o menino semi morto no ch\u00e3o batido agora pela chuva. Estavam fartos e deram por encerrado o expediente. Possivelmente tinham escutado a amea\u00e7a. Era mais dif\u00edcil se livrar do inoportuno do que de um garoto negro da favela. Antes de o \u00faltimo homem sair de cena, \u00cdrio agarrou-o pelo bra\u00e7o:<br \/>\n&#8211; V\u00ea se devolve o documento do garoto.<br \/>\nO policial suspirou. Mas achou que n\u00e3o adiantava peitar o funcion\u00e1rio, iria dar problema. Talvez fosse o novo queridinho do diretor, nunca se sabe. Pegou a carteira de identidade do bolso externo do casaco e jogou no ch\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Pega se tu \u00e9 homem. E tirou o rev\u00f3lver.<br \/>\n\u00cdrio olhou-o bem na fu\u00e7a, se abaixou e pegou. Sacudiu o documento no rosto do outro e disse:<br \/>\n&#8211; Agora v\u00e3o embora, devagar.<\/p>\n<p>&#8211; Veja a foto que ele enviou, disse a mulher.<br \/>\nEra um homem de vinte anos, com o rosto pintado, sorrindo ao lado de uma turma de estudantes.<br \/>\n&#8211; Passou no vestibular, dizia a mulher espichando a \u00faltima silaba&#8230;aaaaar. Na Federal..aaaal.<br \/>\nE implodia num riso inexistente.<br \/>\n&#8211; Vai ser veterin\u00e1rio. Quer estudar os animais, animaaaais.<br \/>\n\u00cdrio s\u00f3 soube dizer:<br \/>\n&#8211; Fico feliz por ele&#8230;e pela senhora.<\/p>\n<p>O \u00f4nibus j\u00e1 vinha vindo e \u00cdrio decretou o fim da conversa. Quando estava subindo, a mulher, que se preparava para ir embora (ela n\u00e3o estava esperando condu\u00e7\u00e3o nenhuma) quase gritou:<br \/>\n&#8211; O senhor salvou nossa vida.<\/p>\n<p>Salvou a vidaaaa, ecoava em \u00cdrio a confiss\u00e3o dita de maneira desesperada e ao mesmo tempo suave. Ele foi para o fundo do carro e ainda viu a mulher se afastando, com seu passo mi\u00fado. N\u00e3o era alta. Tinha o cabelo bem penteado, com uma fita vermelha, pequena, na parte de tr\u00e1s. Olhava para ch\u00e3o quando caminhava. \u00cdrio voltou-se para a frente e todas as pessoas que ai estavam ? aposentados, office-boys, garotas do com\u00e9rcio indo para casa &#8211; o olhavam longamente, com o olhar son\u00e2mbulo do povo desgarrado. Olhavam para ele de maneira insistente, at\u00e9 que um senhor muito idoso, de cara murcha, parecendo uma passa de uva, veio se equilibrando no carro em disparada. O velho se segurou o quanto p\u00f4de, libertou a m\u00e3o direita e pegou da m\u00e3o de \u00cdrio. Depois se abaixou como podia e beijou a m\u00e3o daquele homem que salvara vidas.<\/p>\n<p>Foi tudo num instante. O velho desceu e \u00cdrio ainda via a cara do motorista no espelho, olhando para ele com os olhos cheios de \u00e1gua. Todos os gestos o embalavam e ele vestia uma t\u00fanica que seu gesto tecera ao longo de oito anos, e que lhe cabia como um p\u00e1ssaro na tardinha, um navio em dia de bonan\u00e7a, um avi\u00e3o em c\u00e9u de brigadeiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ela deu um passo para frente e abordou \u00cdrio, que j\u00e1 estava h\u00e1 uns vinte minutos esperando a condu\u00e7\u00e3o para lev\u00e1-lo a uma unidade do Juizado dos Menores. Era seu dia de plant\u00e3o. N\u00e3o costumava chamar a aten\u00e7\u00e3o de ningu\u00e9m, pois tinha o um tipo comum daquelas bandas:alto, curvado, magro, com um loiro de trigo bem clarinho no cabelo cortado, sempre despenteado. Exibia um topete que era mais efeito do vento do que do espelho. 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