{"id":1113,"date":"2009-12-17T16:58:08","date_gmt":"2009-12-17T18:58:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1113"},"modified":"2009-12-20T21:04:06","modified_gmt":"2009-12-20T23:04:06","slug":"o-resgate-do-soldado-indalecio","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-resgate-do-soldado-indalecio","title":{"rendered":"O RESGATE DO SOLDADO INDAL\u00c9CIO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>O soldado Indal\u00e9cio, ferido, jamais descia do cavalo, pois precisava ficar sempre pronto para a guerra. Estava alerta. Avan\u00e7ava sobre as Gerais do sert\u00e3o junto com um pequeno grupo de foragidos, homens, mulheres, crian\u00e7as, idosos. Todos se retiravam de um grande combate contra a Coroa portuguesa e era preciso achar pouso para deitar ra\u00edzes, sobreviver. Escolheram o vale do Jav\u00e9, definido como territ\u00f3rio de posse por meio da divisa cantada. Funcionava dessa maneira: algu\u00e9m subia num promont\u00f3rio, descrevia o cen\u00e1rio, determinava os limites e fincava o povoamento.<\/p>\n<p>Assim se deu o acontecido na terra apalavrada. Mas v\u00e1rias vers\u00f5es sobre a saga de Indal\u00e9cio se entrecruzam e todas podem se perder para sempre. Urge resgatar a hist\u00f3ria, para enfrentar o pior dos pesadelos. As \u00e1guas de uma barragem v\u00e3o inundar tudo e s\u00f3 h\u00e1 um jeito de preservar o povoado: escrever, colocar no papel o que existia apenas na cabe\u00e7a do povo.<\/p>\n<p>A palavra de ordem \u00e9 resgatar o soldado Indal\u00e9cio. Era soldado, mas foragido; era valente, mas se borrava; era o fundador, mas n\u00e3o deixou como legado a paz ou o progresso. Mas era um dos nossos. Seja quem for Indal\u00e9cio, tenha ou n\u00e3o sa\u00eddo correndo da luta, deixara ou n\u00e3o descend\u00eancia, ele nos representa, a n\u00f3s, povo de Jav\u00e9. Precisamos resgat\u00e1-lo e \u00e9 isso que a cineasta Eliane Caff\u00e9 faz nesta preciosa obra-prima do cinema brasileiro da retomada, Narradores de Jav\u00e9. \u00c9 ver e assumir a cidadania perdida do Brasil soberano.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica cinematogr\u00e1fica hoje precisa levar em considera\u00e7\u00e3o o making off. Essa li\u00e7\u00e3o gigantesca de cinema que \u00e9 a divulga\u00e7\u00e3o dos bastidores muda para sempre a percep\u00e7\u00e3o que temos de qualquer filme. Por meio desse recurso, ficamos sabendo que a equipe passou tr\u00eas semanas dedicada a uma novidade no pequena aldeia de Gameleira da Lapa, no interiorz\u00e3o de Minas: recolher o lixo. Isso deixou uma profunda marca no local. Basta ver o depoimento de uma moradora, que disse ter aberto os olhos para a necessidade de viver num ambiente limpo.<\/p>\n<p>Depois, \u00e9 saber como os atores profissionais &#8211; Jos\u00e9 Dumont, na sua melhor e mais importante interpreta\u00e7\u00e3o, Nelson Xavier, que desempenha o papel chave do narrador dentro da narrativa da diretora, entre outros &#8211; e amadores (o povo da Gameleira), constru\u00edram a hist\u00f3ria, que \u00e9 uma composi\u00e7\u00e3o pict\u00f3rica em v\u00e1rias camadas. A primeira \u00e9 o filme em seu esplendor de luz e a\u00e7\u00e3o, a obra que fica e garante a perman\u00eancia do que amea\u00e7ava sumir debaixo das \u00e1guas. A segunda \u00e9 o encontro numa curva da estrada, em que desconhecidos escutam algu\u00e9m que traz a vida encoberta pela paisagem e o tempo. E a terceira, barroca, \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o dos narradores, entrecortada de mitos e vers\u00f5es.<\/p>\n<p>O que Jos\u00e9 Dumont faz nesse filme \u00e9 digno de uma antologia universal do cinema. Ele se supera, o ator talentoso e persistente, que encontra na obra o ambiente para demonstrar todo o seu repert\u00f3rio. Ele encarna o intelectual da aldeia, o \u00fanico que sabe escrever, com mais talento do que car\u00e1ter, como nota o ator no seu depoimento. Ele cria uma saraivada de defini\u00e7\u00f5es sobre tudo ao redor, misturando palavras da modernidade com a realidade arcaica do povoado. Sua representa\u00e7\u00e3o corporal \u00e9 uma enciclop\u00e9dia brasileira de gestos, uma seq\u00fc\u00eancia memor\u00e1vel do melhor de C\u00e2mara Cascudo. O manco, o b\u00eabado, o ladino, o aproveitador, o desesperado, o covarde: tudo em Jos\u00e9 Dumont conflui para a brasilidade perdida, que ainda pulsa no \u00faltimo basti\u00e3o do pa\u00eds, o povo isolado e fugitivo.<\/p>\n<p>Eliane Caff\u00e9 define seu cinema como de guerrilha, pois tudo foi feito em apenas tr\u00eas meses. D\u00e1 gosto v\u00ea-la dirigindo: ela \u00e9 dura, entusiasmada, criativa, determinada. Desempenha o papel dos protagonistas e coadjuvantes, mostrando entona\u00e7\u00e3o, falas, rompantes. H\u00e1 explos\u00e3o de energia na estiva do cinema, a carga pesada que, como ela mesmo diz, precisa conviver com a suavidade no momento em que a c\u00e2mera come\u00e7a a funcionar.<\/p>\n<p>O povo que a acompanhou e fez parte do filme &#8211; e que se sentiu inclu\u00eddo pela primeira vez na sociedade brasileira &#8211; pegou rapidinho essa contradi\u00e7\u00e3o entre dureza e leveza. Daqui para frente, s\u00f3 olhando para tr\u00e1s, diz um morador, j\u00e1 saudoso das filmagens, no momento em que o trabalho acaba.<\/p>\n<p>Tudo vai por \u00e1gua abaixo, menos o filme, que fica. O povo sobrevivente segue seu rumo. O escritor da aldeia decide enfim trabalhar na mem\u00f3ria. Indal\u00e9cio foi resgatado, seja o pa\u00eds que for, desde que seja nosso. Um pa\u00eds para ser amado de verdade e de fato. E n\u00e3o sucumbir diante do circo de vaidades que, ao perder sua principal atra\u00e7\u00e3o, insiste em se manter usando bandeiras advent\u00edcias. Somos brasileiros, do vale do Jav\u00e9. Indal\u00e9cio \u00e9 o cara que precisamos resgatar todos os dias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A palavra de ordem \u00e9 resgatar o soldado Indal\u00e9cio. Era soldado, mas foragido; era valente, mas se borrava; era o fundador, mas n\u00e3o deixou como legado a paz ou o progresso. Mas era um dos nossos. Seja quem for Indal\u00e9cio, tenha ou n\u00e3o sa\u00eddo correndo da luta, deixara ou n\u00e3o descend\u00eancia, ele nos representa, a n\u00f3s, povo de Jav\u00e9. 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