{"id":1115,"date":"2009-12-17T16:58:56","date_gmt":"2009-12-17T18:58:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1115"},"modified":"2009-12-20T23:54:03","modified_gmt":"2009-12-21T01:54:03","slug":"quatro-personas-em-cena-aberta","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/quatro-personas-em-cena-aberta","title":{"rendered":"QUATRO PERSONAS EM CENA ABERTA"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Uma ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica s\u00f3lida, num pa\u00eds imperial que domina o mercado no mundo todo, e que tem longa tradi\u00e7\u00e3o em teatro, n\u00e3o se destaca apenas pelos atores incontest\u00e1veis, como Al Pacino ou Merryl Streep. H\u00e1 um time que se imp\u00f5e pela continuidade de suas performances e aos poucos vai se firmando com artistas de primeiro time, num caminho mais \u00e1rduo do que as estrelas maiores. Alguns, como Sean Penn, j\u00e1 possuem esse carisma de grandes atores e aquela persona farta de si mesma, de rosto exausto e energia plena, numa composi\u00e7\u00e3o de sentimentos opostos que fizeram a gl\u00f3ria de mitos como Bogart.<\/p>\n<p>Outros, como Ed Harris, precisam cair do quarto andar em As Horas para nos lembrar o quanto pode um coadjuvante, guindado ao primeiro plano, e de olhar iluminado, em O Terceiro Milagre, contido e c\u00ednico em O Show de Truman. Harris trafega numa progressiva contund\u00eancia que elimina as fronteiras entre periferia e centro do drama.<\/p>\n<p>E, na medida certa para os projetos que abra\u00e7a, Jodie Foster sempre acerta em cheio na sua carreira pontuada por personalidades em situa\u00e7\u00f5es limite, empurradas para a coragem, em filmes nem sempre de primeira linha, mas com uma atua\u00e7\u00e3o invej\u00e1vel. N\u00e3o s\u00f3 por ser convincente, mas principalmente porque consegue, com seu corpo m\u00ednimo, sua boca apertada, seus olhos aparentemente frios, atingir uma grandeza rara na arte que nos fisga pelo olhar e que planta poderosas ra\u00edzes na mente.<\/p>\n<p>Foster est\u00e1 assustadora (pelo rosto, pela postura, pela g\u00e9lida presen\u00e7a) nas cenas iniciais de Plano de V\u00f4o, um filme que escorrega a partir da metade para o fim, pois se transforma no lugar comum dos seq\u00fcestros e da a\u00e7\u00e3o mirabolante. Mas aquela esta\u00e7\u00e3o de metr\u00f4 em Berlim, quando encontra o fantasma do marido, e a parte em que carrega a filha embaixo do casaco e a coloca no avi\u00e3o, e sua ira quando descobre a armadilha onde est\u00e1 metida, fazem dela a atriz que gostamos sempre de ver, pois compartilhamos de sua aura, jogamos pesado junto com ela, e sabemos o quanto somos fr\u00e1geis e enormes na nossa pequenez, que ela representa t\u00e3o bem. Jodie nos seduz porque jamais sobra e porque, ao escolher seu territ\u00f3rio m\u00ednimo, ali implode para nos surpreender, a n\u00f3s, que n\u00e3o damos nada na hora em que aparece, e que entregamos tudo no momento em que se despede. Cada vez mais madura, assumindo sempre sua idade, ela nunca esconde o que realmente \u00e9 ou deva ser na narrativa.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda Nicholas Cage, excessivo, que, no in\u00edcio de carreira, tinha um p\u00e9 no dramalh\u00e3o (Asas da liberdade) ou na fanfarra da nascente p\u00f3s-modernidade (Arizona nunca mais). Mas, tamb\u00e9m aos poucos, Nic Cage virou essa figura obrigat\u00f3ria dos filmes assist\u00edveis, compondo personagens complexos como em The Weather Man, e virando assim um James Stewart na diversidade e na simpatia. Nicholas Cage tem o poder de atrair para sua persona todos os elementos de um filme. \u00c9 um tipo de ator que n\u00e3o cansamos de ver, mesmo que soe antip\u00e1tico ou ameace, a certa altura, errar totalmente. Mas ele acerta, n\u00e3o por ser um predestinado, como Sean Penn, mas porque se esfor\u00e7a, e quando consegue, elimina as pistas desse esfor\u00e7o. N\u00e3o lembramos o quanto sofreu para nos convencer. Ele nos ensina que sempre \u00e9 poss\u00edvel se superar quando h\u00e1 determina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sean Penn \u00e9 o oposto. Sean est\u00e1 l\u00e1 porque n\u00e3o h\u00e1 outro caminho para o diretor ou para ele mesmo. \u00c9 convidado porque assim est\u00e1 escrito e encarna, com essa obrigatoriedade, o moderno her\u00f3i americano, o pai da filha assassinada (Sobre meninos e lobos), o agente secreto a servi\u00e7o da ONU (A int\u00e9rprete), o condenado de 21 Gramas. Ele \u00e9 um John Wayne sem convic\u00e7\u00e3o, que nos engana o tempo todo. Parece aquela pessoa conhecida que jamais assume que est\u00e1 no lugar onde se encontra, sugerindo sempre que est\u00e1 partindo ou mora em outro lugar inacess\u00edvel. Mas por um instante, depois de fazer uma confiss\u00e3o de costas para a c\u00e2mara, ele se vira e nos encara. \u00c9 a\u00ed que Sean Penn se revela: um ator de verdade, que j\u00e1 dirigiu bons filmes e que consegue atingir o lugar um dia ocupado por Jack Nicholson. Sean \u00e9 Jack antes da loucura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica s\u00f3lida, num pa\u00eds imperial que domina o mercado no mundo todo, e que tem longa tradi\u00e7\u00e3o em teatro, n\u00e3o se destaca apenas pelos atores incontest\u00e1veis, como Al Pacino ou Merryl Streep. H\u00e1 um time que se imp\u00f5e pela continuidade de suas performances e aos poucos vai se firmando com artistas de primeiro time, num caminho mais \u00e1rduo do que as estrelas maiores. S\u00e3o eles: Jodie Foster, Nicholas Cage, Ed Harris e Sean Penn.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1115"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1115"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1115\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1506,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1115\/revisions\/1506"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1115"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1115"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1115"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}