{"id":1123,"date":"2009-12-17T17:02:57","date_gmt":"2009-12-17T19:02:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/o-sol-oculto"},"modified":"2009-12-20T23:46:19","modified_gmt":"2009-12-21T01:46:19","slug":"o-sol-oculto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-sol-oculto","title":{"rendered":"O SOL OCULTO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s <\/strong><\/p>\n<p>Fic\u00e7\u00e3o \u00e9 o \u00e1libi perfeito para contar a verdade. Isenta o autor de crime de cal\u00fania e ainda enriquece a biografia art\u00edstica. \u00c9 o que Carlos Henrique Schroeder faz no seu oitavo romance, Ensaio do vazio (Cole\u00e7\u00e3o Rocinante, Editora 7Letras, 114 pgs.). Seu narrador-personagem \u00e9 a soma dos detritos de uma comunidade, o Brasil, uma criatura compactada no pesadelo a que estamos acostumados, mas apresentado de forma t\u00e3o convincente e, horror supremo, humana, que n\u00e3o desgrudamos o olho da narrativa. Lemos compulsivamente essa espessa e breve trajet\u00f3ria, n\u00e3o para saber aonde quer chegar (o desfecho est\u00e1 por toda parte), mas pela sintonia com o pa\u00eds em nossa volta e a sedu\u00e7\u00e3o da leitura promovida pelo talento.<\/p>\n<p>Como interatividade \u00e9 uma ilus\u00e3o na terra dos mon\u00f3logos, Schroeder abusa da sua inven\u00e7\u00e3o e a leva para as situa\u00e7\u00f5es mais graves, os lances mais perversos, as palavras mais cru\u00e9is, os sonhos mais rudes. Impune diante da cria\u00e7\u00e3o que toma a forma de um monstro, e que, devido ao sil\u00eancio dos leitores, jamais poder\u00e1 ser contestada, ele se compraz com o que descreve. Talvez, no avesso desse desplante, aposte na carga desdram\u00e1tica do excesso &#8211; ou seja, pedindo que o leitor releve tanta impostura, j\u00e1 que \u00e9 imposs\u00edvel uma vida chegar a tamanha degrada\u00e7\u00e3o e continuar alegremente exibindo sua lucidez. Mas entre a inten\u00e7\u00e3o virtual e o texto real, o escritor comp\u00f5e uma performance irada, \u00e0 moda dos artistas contempor\u00e2neos, que, ao inv\u00e9s da obra, apostam no processo e ficam satisfeitos quando n\u00e3o s\u00e3o flagrados em seus desatinos.<\/p>\n<p>O romance \u00e9, assim, colocado como um trabalho de vanguarda numa bienal de sucesso, nesse tipo de evento comparado a um shopping center de mercadorias descart\u00e1veis por Ferreira Gullar em Sobre Arte (Cole\u00e7\u00e3o Sabor Liter\u00e1rio da Jos\u00e9 Olympio, republicado junto com o ensaio Sobre poesia &#8211; uma luz no ch\u00e3o, 170 pgs.). Numa conex\u00e3o expl\u00edcita, o personagem de Schroeder, pelo menos nas inten\u00e7\u00f5es (viver do mercado, em con\u00fabio com os neomarchands) e nas convic\u00e7\u00f5es, \u00e9 id\u00eantico ao de Ferreira Gullar. &#8220;Minha obra mais famosa, premiada em tr\u00eas sal\u00f5es nacionais e vendida a um empres\u00e1rio mato-grossense, chama-se Espelho. \u00c9 um papel branco colado num pequeno tablado de madeira. Pura asneira. Mas me rendeu v\u00e1rias reportagens em revistas especializadas&#8221;, diz Ricardo, a criatura de Ensaio do vazio. &#8220;A busca da novidade pela novidade tornou-se um valor da arte em fun\u00e7\u00e3o do mercado. Mas como a obra de arte n\u00e3o tem a utilidade funcional da geladeira e do liq\u00fcidificador, essa busca da novidade, nela, levou \u00e0 sua desintegra\u00e7\u00e3o formal e ao que hoje se chama de arte conceitual &#8211; a n\u00e3o-arte&#8221;, diz Gullar.<\/p>\n<p>A conex\u00e3o nutre-se dessa identifica\u00e7\u00e3o reveladora. Da\u00ed para frente, Schroeder implanta no seu artista uma seq\u00fc\u00eancia de crimes trazidos da forma\u00e7\u00e3o &#8211; os planos comerciais da fam\u00edlia, o mau exemplo do pai, o sufoco da cidade do interior. Eles afloram na capital como o gozo m\u00faltiplo de uma civiliza\u00e7\u00e3o torta e deca\u00edda, esp\u00e9cie de v\u00e9spera do castigo sem a busca b\u00edblica dos justos. \u00c9 tanta manipula\u00e7\u00e3o que o pr\u00f3prio personagem se rebela contra o autor, esse lance mistificador que sempre rende bons frutos, j\u00e1 que serve para confirmar a dist\u00e2ncia entre criador e criatura. N\u00e3o fosse assim, o escritor teria que sair da publica\u00e7\u00e3o do romance direto para a masmorra. O gesto de independ\u00eancia gera uma chance para o personagem, que procura recome\u00e7ar com a esposa a vida conjugal negada ao longo do romance. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o que pertence \u00e0 juventude de Ricardo, mas que, por decis\u00e3o da narrativa, funciona como seu rein\u00edcio na idade madura.<\/p>\n<p>Talvez Schroeder jure ser sua imagina\u00e7\u00e3o, mas Ricardo pode ser encarado como o alter ego que jamais deixamos vir \u00e0 tona, a n\u00e3o ser vestido de personagem. A justaposi\u00e7\u00e3o entre o escritor e sua criatura \u00e9 por demais evidente: de onde ele tiraria, a n\u00e3o ser da pr\u00f3pria humanidade (a \u00fanica que est\u00e1 acess\u00edvel a qualquer um de n\u00f3s), a verdadeira deforma\u00e7\u00e3o que negamos? Isso n\u00e3o vir\u00e1 do olhar mesquinho sobre o outro, mas do que somos capazes de pensar ou fazer quando n\u00e3o h\u00e1 paz na vida adulta. A fic\u00e7\u00e3o se transforma, assim, num barco singrando o mar de detritos reais. \u00c9 ultrajante que a literatura exista, pois \u00e9 uma forma de escaparmos do que realmente somos (quando embrulhamos a carne suja com papel colorido). Mas, ao mesmo tempo, \u00e9 esse passo que nos transporta para uma revitaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o fosse essa aposta no recome\u00e7o, seria um novo beco sem sa\u00edda, pois tanto Schroeder quanto Gullar s\u00e3o escritores de vanguarda, e isso poderia coloc\u00e1-los na vala comum do que condenam. A diferen\u00e7a \u00e9 que eles n\u00e3o pagam tributo ao r\u00f3tulo, antes se curvam diante da fonte que alimenta o andar. A vida perdida do romance agarra-se ao pesadelo do real (em Matrix, a mais completa met\u00e1fora contempor\u00e2nea da manipula\u00e7\u00e3o) e aos mestres (Kafka, Orwell) para abrir um claro na mata fechada do vazio. E o tempo perdido do poema revisita a luz e o ch\u00e3o maranhense, quando o poeta faz as pazes com sua contund\u00eancia e sua for\u00e7a. \u00c9 a luta por uma poesia que &#8220;nos ajudasse a nos assumirmos por n\u00f3s mesmos&#8221;.<\/p>\n<p>Os dois escritores d\u00e3o um sopro na modorra do cen\u00e1rio cultural brasileiro. N\u00e3o porque exijam o lugar de destaque ou fa\u00e7am a pose exigida para a ocasi\u00e3o. Mas porque a resenha, territ\u00f3rio da liberdade, encontra nessa sintonia a fresta por onde passa o raio poss\u00edvel de um sol ainda oculto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fic\u00e7\u00e3o \u00e9 o \u00e1libi perfeito para contar a verdade. Isenta o autor de crime de cal\u00fania e ainda enriquece a biografia art\u00edstica. \u00c9 o que Carlos Henrique Schroeder faz no seu oitavo romance, Ensaio do vazio (Cole\u00e7\u00e3o Rocinante, Editora 7Letras, 114 pgs.). O romance \u00e9 colocado como um trabalho de vanguarda numa bienal de sucesso, nesse tipo de evento comparado a um shopping center de mercadorias descart\u00e1veis por Ferreira Gullar em Sobre Arte (Cole\u00e7\u00e3o Sabor Liter\u00e1rio da Jos\u00e9 Olympio, republicado junto com o ensaio Sobre poesia &#8211; uma luz no ch\u00e3o, 170 pgs.). Numa conex\u00e3o expl\u00edcita, o personagem de Schroeder, pelo menos nas inten\u00e7\u00f5es (viver do mercado, em con\u00fabio com os neomarchands) e nas convic\u00e7\u00f5es, \u00e9 id\u00eantico ao de Ferreira Gullar. (Resenha publicada no caderno Cultura, do Di\u00e1rio Catarinense, de 17 de junho de 2006).<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1123"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1123"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1123\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1489,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1123\/revisions\/1489"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1123"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1123"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1123"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}