{"id":1124,"date":"2009-12-17T17:03:45","date_gmt":"2009-12-17T19:03:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/as-cidades-limpas-de-woody-allen"},"modified":"2009-12-20T22:55:06","modified_gmt":"2009-12-21T00:55:06","slug":"as-cidades-limpas-de-woody-allen","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/as-cidades-limpas-de-woody-allen","title":{"rendered":"AS CIDADES LIMPAS DE WOODY ALLEN"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Woody Allen decidiu ser um cl\u00e1ssico especialmente a partir de Manhattan, a por\u00e7\u00e3o novaiorquina em preto e branco que resgatou a magia perdida do cinema. O cen\u00e1rio limpo de suas cidades inexistentes (como acontecia nos filmes tradicionais) ambienta sua obra, que \u00e9 pura rever\u00eancia. N\u00e3o bastou clonar Bergman, foi preciso ir atr\u00e1s de Geroge Stevens de &#8220;Um lugar ao sol&#8221; ( a ascens\u00e3o social por meio do crime) ou de Hitchcock de &#8220;Pacto Sinistro&#8221; (o cad\u00e1ver oculto num evento social), como prova &#8220;Match Point&#8221; (2005), o thriller que nos traz a Londres vista pela elite (sem miser\u00e1veis \u00e0 vista), numa trama que \u00e9 mais um subproduto de &#8220;Crime e Castigo&#8221; de Dostoiewski (a l\u00f3gica driblando a culpa) .<\/p>\n<p>Esses cruzamentos j\u00e1 foram apontados pela cr\u00edtica, confirmando o que percebi ao ver o filme ontem sem ainda ter lido nada sobre ele. Para contribuir um pouco com a abordagem do cinema de Allen, lembro ainda o diretor George Sidney de &#8220;The Eddy Duchin Story&#8221; (1956), com Tyrone Power e Kim Novak. Nada a ver com o drama, j\u00e1 que Sidney pertence a um tempo em que havia compaix\u00e3o, o que n\u00e3o acontece atualmente. Mas com a limpeza do cen\u00e1rio, as cidades na qual moramos na imagina\u00e7\u00e3o e que me convenceu por muito tempo de que elas eram assim mesmo, at\u00e9 conhecer Rio e S\u00e3o Paulo e descobrir que o mundo era diferente do que o cinema mostrava.<\/p>\n<p>CHARME &#8211; Ou melhor: minha percep\u00e7\u00e3o n\u00e3o batia com a vers\u00e3o cinematogr\u00e1fica das grandes cidades. Mesmo o cinema brasileiro das chanchadas trazia essa limpeza urbana que sustentavam os sonhos rom\u00e2nticos. \u00c9 bom viver nas cidades brasileiros do cinema dos anos 40 e 50, assim como sonh\u00e1vamos morar naquela Nova York sem barulho, rica e cheia de charme dos musicais e das com\u00e9dias rom\u00e2nticas. Woody Allen \u00e9 talvez o \u00fanico cineasta que hoje n\u00e3o presta homenagem ao caos urbano. A cena da nova casa do casal Chris (Jonathan Rhys Meyers) e Chloe (Emily Mortimer), \u00e9 reveladora: n\u00e3o pode existir aquela parede envidra\u00e7ada que d\u00e1 para o Tamisa e os pr\u00e9dios hist\u00f3ricos de Londres (se existe, jamais pode ser uma resid\u00eancia). \u00c9 a representa\u00e7\u00e3o da felicidade amea\u00e7ada pelo lado escuro do alpinista social. Chris e Nola (Scarlett Johansson) est\u00e3o degraus abaixo na escada social e eles encarnam a vilania que confronta as ditas pessoas de bem (a fam\u00edlia de milion\u00e1rios especuladores do sistema financeiro globalizado).<\/p>\n<p>O aspecto tradicional do filme \u00e9 refor\u00e7ado pelas cenas nas grandes galerias, onde uma arte dita moderna serve de ilustra\u00e7\u00e3o para um sistema de classes que deveria ser bem resolvido. O equil\u00edbrio da vida social e familiar \u00e9 apenas uma casca, a paix\u00e3o de Allen pelos cl\u00e1ssicos. Ele apenas quer resgatar esse mundo para colocar nele as rela\u00e7\u00f5es sinistras entre cidad\u00e3os civilizados. Sua trama gira em torno de uma aparente sucess\u00e3o de conquistas para um desfecho de tiros e sangue.<\/p>\n<p>ESTILO &#8211; Allen n\u00e3o tem pressa e vai levando o espectador pelo olhar complacente desse mundo ilus\u00f3rio, em que os bairros pobres n\u00e3o exibem uma \u00fanica pixa\u00e7\u00e3o e os policiais ainda possuem aquela discri\u00e7\u00e3o dos romances policiais antigos, mais para Conan Doyle e Agatha Cristie do que para Dashiell Hammet. A resolu\u00e7\u00e3o de um crime n\u00e3o vem pelo racioc\u00ednio, mas pelo sonho. No momento em que o bom senso \u00e9 erradicado da vida normal, s\u00f3 o del\u00edrio, ou a assombra\u00e7\u00e3o,pode nos devolver \u00e0 especula\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica. O di\u00e1logo com os fantasmas \u00e9 esse absurdo que traz um pouco de lucidez a uma hist\u00f3ria que n\u00e3o funciona mais na vida real e s\u00f3 na vig\u00edlia \u00e9 capaz de se resolver.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 um impasse: a justi\u00e7a n\u00e3o \u00e9 feita, a raz\u00e3o fica a servi\u00e7o do assassino e a sorte, que imagin\u00e1vamos ter mudado de lado, continua a favor do Mal. A luz dos cen\u00e1rios limpos contrastam com o veludo sombrio de momentos que parecem tirados de riscos de xilogravura, do design adotado em algumas escadarias das graphic novels. Allen usa os recursos e instrumentos que disp\u00f5e (sua op\u00e7\u00e3o pela \u00f3pera como fundo musical foi decidida pela falta de dinheiro de mandar compor algo especial para o filme). \u00c9 um estilo feito de colagens do que existe de permanente na arte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Woody Allen decidiu ser um cl\u00e1ssico especialmente a partir de Manhattan, a por\u00e7\u00e3o novaiorquina em preto e branco que resgatou a magia perdida do cinema. O cen\u00e1rio limpo de suas cidades inexistentes (como acontecia nos filmes tradicionais) ambienta sua obra, que \u00e9 pura rever\u00eancia. 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