{"id":1126,"date":"2009-12-17T17:05:19","date_gmt":"2009-12-17T19:05:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1126"},"modified":"2009-12-21T00:51:34","modified_gmt":"2009-12-21T02:51:34","slug":"brasil-despedacado","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/brasil-despedacado","title":{"rendered":"BRASIL DESPEDA\u00c7ADO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>A trag\u00e9dia do Brasil \u00e9 que a mediocridade clonou o talento, o bandido assumiu o papel de legislador, a pequenez substituiu o carisma, o vazio faz pose de estadista e todas as qualidades humanas que sobreviveram emigraram, ficando o pa\u00eds na mais completa solid\u00e3o, impregnada por um clima de funeral em ritmo de festa, de alegrias for\u00e7adas, de patriotismo de eventos. Viver se transformou numa campanha de marketing e a liberdade, esse v\u00f4o rumo \u00e0s estrelas, virou uma roda-pi\u00e3o de frustra\u00e7\u00f5es e vingan\u00e7a. Tal qual nesse filme soberbo (mais um) de Walter Salles, Abril Despeda\u00e7ado, que reporta o sol como pesadelo, a luz como reden\u00e7\u00e3o, o \u00f3dio como intensidade do impasse e o sair porta afora como \u00fanico caminho poss\u00edvel para a exist\u00eancia real.<\/p>\n<p>LUTA &#8211; Ficar e entregar-se ao conflito seria capitular. Desistir da luta e assumir uma contradi\u00e7\u00e3o mais vasta (ser feliz sabendo que vai morrer um dia), \u00e9 a maneira de encontrar a salva\u00e7\u00e3o. Diante do mar depois do seu gesto de transfigura\u00e7\u00e3o, Rodrigo Santoro (esse ator raro, que nos surpreende desde o Bicho de Sete Cabe\u00e7as, de La\u00eds Bodanzky) enxerga uma possibilidade: o de se misturar ao que v\u00ea, infinidade de sonhos que fluem pelo horizonte de promessas.<\/p>\n<p>Na terra nua, no povoado em ru\u00ednas, no vel\u00f3rio em chamas, nos rostos crispados, nasce o riso, fruto da fraternidade, e o amor desencadeia a chuva. E ainda teve gente que falou mal do filme, que o achou pesado e arrastado. Querem certamente aquela corridinha americana em que tudo explode atr\u00e1s. Querem a\u00e7\u00e3o! N\u00e3o sabem que a verdadeira a\u00e7\u00e3o est\u00e1 no olhar e que tudo o mais \u00e9 aliena\u00e7\u00e3o. Se te enganaram com c\u00e2maras espertas, persegui\u00e7\u00f5es de autom\u00f3vel, cortes apressados e express\u00f5es cool, voc\u00ea j\u00e1 sabe: est\u00e3o te fazendo uma cama de gato, te levando para lugar nenhum.<\/p>\n<p>IMPEC\u00c1VEL &#8211; Mas experimente seguir a narrativa do Menino Pacu, interpretado pelo menino de teatro de rua Ravi Ramos Lacerda. E veja o que ele faz com um chap\u00e9u e um pano negro de luto familiar. Siga suas hist\u00f3rias, que inventa a partir de um livro presenteado por Clara, interpretada por Fl\u00e1via Marco Antonio, que engole fogo, rodopia no ar e veio do circo. Siga o c\u00edrculo do Pai, interpretado por Jos\u00e9 Dumond, que faz parte da linhagem de grandes atores brasileiros. E acompanhe a dor da M\u00e3e, interpretada por Rita Assemany, premiada atriz de teatro da Bahia. E ria com Salustiano, o que nasceu morto, interpretado por Luiz Carlos Vasconcelos, o Drausio Varella de Carandiru, que conquistou o Brasil com sua performance circense.<\/p>\n<p>Abrace o cinema brasileiro, n\u00e3o para prestigi\u00e1-lo, mas aprender um pouco sobre a s\u00e9tima arte, para se aprofundar em Brasil, para entender que a vida pode sair da percep\u00e7\u00e3o viciada de uma realidade que nos mata. Viaje com Walter Salles, essa b\u00ean\u00e7\u00e3o do cinema, essa intelig\u00eancia superior, esse texto impec\u00e1vel, essa imagem que fica impregnada como cheiro de terra em dia de chuva. E n\u00e3o escute os med\u00edocres, n\u00e3o se deixe enredar pelas artimanhas do nada e descubra que a emo\u00e7\u00e3o nos leva para outra verdade e \u00e9 de l\u00e1 que precisamos olhar o pa\u00eds despeda\u00e7ado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A liberdade, esse v\u00f4o rumo \u00e0s estrelas, virou uma roda-pi\u00e3o de frustra\u00e7\u00f5es e vingan\u00e7a. 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