{"id":1128,"date":"2009-12-17T17:06:10","date_gmt":"2009-12-17T19:06:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1128"},"modified":"2009-12-20T21:08:48","modified_gmt":"2009-12-20T23:08:48","slug":"a-origem-das-grandes-quadrilhas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-origem-das-grandes-quadrilhas","title":{"rendered":"A ORIGEM DAS GRANDES QUADRILHAS"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Que o Comando Vermelho surgiu no pres\u00eddio de Ilha Grande nos anos 70 devido ao contato entre prisioneiros comuns e pol\u00edticos \u00e9 um fato conhecido, mas o filme Quase dois irm\u00e3os, de 2004, leva essa revela\u00e7\u00e3o \u00e0s portas de uma epifania. Os presentes que os reis magos da diretora Lucia Murat nos trazem s\u00e3o o ouro (ou a grana que define pap\u00e9is sociais insol\u00faveis e incomensur\u00e1veis), o incenso (a fuma\u00e7a do fogo generalizado que queima as gera\u00e7\u00f5es desde o golpe de 64) e a mirra, o antiss\u00e9ptico que pela lucidez lava a ferida aberta que jamais cicatriza.<\/p>\n<p>Por que esse filme t\u00e3o premiado e incensado retirou-se para um lugar oculto, como se carregasse um estigma? Ser\u00e1 porque revela, vertendo do contato com a esquerda, a origem das grandes quadrilhas, que hoje tem no PCC seu maior destaque? Ser\u00e1 porque \u00e9 mais uma obra que mostra a trai\u00e7\u00e3o de alguns ex-combatentes, que enriqueceram depois de sobreviver ao c\u00e1rcere e \u00e0 tortura? Ser\u00e1 porque Cidade de Deus fez sombra a esse document\u00e1rio em forma de fic\u00e7\u00e3o, filmado de maneira crua e composto por um quebra-cabe\u00e7as circular, que nos traz de volta o que quer\u00edamos esquecer e nos leva adiante como um acidente de trem?<\/p>\n<p>GUERRILHA &#8211; O filme tem site razo\u00e1vel, com todas as informa\u00e7\u00f5es mais importantes. O intertexto nos liberta da necessidade dos tradicionais servi\u00e7os. Sempre impliquei com o enorme espa\u00e7o ocupado pelos servi\u00e7os. Houve uma \u00e9poca em que isso era um pesadelo. Havia uma febre de servi\u00e7os, como se o jornalismo fosse o servi\u00e7al dos leitores e servisse de vitrina apenas para o que produz mercadoria. N\u00e3o nos interessa a mercadoria, a n\u00e3o ser como reflex\u00e3o. O que pega \u00e9 o que pseudo-marxismo e os lobos do capital dizem que n\u00e3o existe, ou seja, o humano em toda sua escassez e divindade.<\/p>\n<p>Jamais tinha ouvido falar nesse filme, que economiza d\u00e9cadas de perguntas por trazer de maneira expl\u00edcita o resultado da militariza\u00e7\u00e3o da sociedade imposta pelo golpe de 64. Lembro at\u00e9 hoje o dia em que insinuaram para eu entrar na guerrilha. Me mostraram um rev\u00f3lver, que estava escondido no s\u00f3t\u00e3o. Morava numa rep\u00fablica, na \u00e9poca, e declinei do convite.<\/p>\n<p>EXEMPLO &#8211; Disse que tinha sido criado entre armas, j\u00e1 que meu pai fora da Brigada Militar e era ca\u00e7ador. Tamb\u00e9m por um tempo comercializava armas de ca\u00e7a, at\u00e9 que foi denunciado por um concorrente, em pleno arb\u00edtrio nas m\u00e3os dos militares. Algu\u00e9m que tinha assinado um manifesto p\u00f3-Prestes nos anos 40 n\u00e3o poderia vender armas na fronteira, sob pena de o regime cair como um castelo de cartas. Imagino seu Ortiz dando uma tosse mais abrupta e fazendo desmoronar todo o horror da repress\u00e3o, aquela cortina de tristeza que baixou sobre n\u00f3s e ainda n\u00e3o nos abandonou. Seria o m\u00e1ximo.<\/p>\n<p>Bastava um peido do Brizola no Uruguai para que a direita ficasse de prontid\u00e3o. Uma tosse do seu Ortiz teria efeito parecido. Mas ao mesmo tempo em que ele me ensinou a atirar, me deu o exemplo de algu\u00e9m que tem armas e n\u00e3o \u00e9 irrespons\u00e1vel. Nunca houve acidente com tiro na minha casa de Uruguaiana. T\u00ednhamos um arsenal para fazer uma revolu\u00e7\u00e3o, mas dali s\u00f3 saiam debates, palavras, gargalhadas e choro, quando a conversa atingia a sensibilidade de algu\u00e9m. Mas nunca guerra. A guerra se fez contra n\u00f3s e n\u00e3o a confrontamos como os guerrilheiros ou os criminosos.<\/p>\n<p>TIROTEIO &#8211; Decidimos ficar exclu\u00eddos desse tiroteio e estamos aqui, \u00e0s portas de uma nova elei\u00e7\u00e3o, vendo a direita fazer de tudo para continuar sua obra de destrui\u00e7\u00e3o do Brasil. Quero que os her\u00f3is da nossa humanidade prec\u00e1ria se levantem, d\u00eaem aquela olhada-fuzil que os mais velhos davam contra nossos desaforos quando crian\u00e7as. Quero que se levantem todos ao mesmo tempo e tussam juntos, para varrer o tr\u00e1gico veludo que encheu nossa vida de sombras.<\/p>\n<p>Traga de volta o sol, meu pai, e contigo todo um contingente de camaradas, rindo do que fizeram um pouco antes, com os cartuchos vazios, os c\u00e3es exaustos e as perdizes minguadas de um saf\u00e1ri que n\u00e3o pegou quase nada, mas serviu para fazer de cada amigo uma pe\u00e7a sagrada desse conv\u00edvio que perdemos. Somos hoje ref\u00e9ns do nosso medo. N\u00e3o possu\u00edmos mais o dom dos guerreiros que se impuseram pela moral e que nos velavam o sono quando sonh\u00e1vamos com a vit\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Que o Comando Vermelho surgiu no pres\u00eddio de Ilha Grande nos anos 70 devido ao contato entre prisioneiros comuns e pol\u00edticos \u00e9 um fato conhecido, mas o filme Quase dois irm\u00e3os, de 2004, leva essa revela\u00e7\u00e3o \u00e0s portas de uma epifania. Os presentes que os reis magos da diretora Lucia Murat nos trazem s\u00e3o o ouro (ou a grana que define pap\u00e9is sociais insol\u00faveis e incomensur\u00e1veis), o incenso (a fuma\u00e7a do fogo generalizado que queima as gera\u00e7\u00f5es desde o golpe de 64) e a mirra, o antiss\u00e9ptico que pela lucidez lava a ferida aberta que jamais cicatriza.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1128"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1128"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1128\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1428,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1128\/revisions\/1428"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1128"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1128"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1128"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}