{"id":1130,"date":"2009-12-17T17:06:57","date_gmt":"2009-12-17T19:06:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/cinema-de-exterminio"},"modified":"2009-12-21T00:59:55","modified_gmt":"2009-12-21T02:59:55","slug":"cinema-de-exterminio","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/cinema-de-exterminio","title":{"rendered":"CINEMA DE EXTERM\u00cdNIO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Vejo um filme atr\u00e1s do outro. A reflex\u00e3o se atropela junto com as imagens de O pianista, de Roman Polanki, com Adrien Brody, que \u00e9 sobre invas\u00e3o e resist\u00eancia na Pol\u00f4nia, mais do que sobre judeus (n\u00e3o h\u00e1 Bar Mitzvah, nem sabat, nem rabinos nesta obra-prima que faz chorar as pedras); de Dogville, o celebrado cult com Nicole Kidman, de Lars von Triers, que descobre a crueldade na pacata cidade imagin\u00e1ria de portas invis\u00edveis do interior dos Estados Unidos; e 21 gramas, do mexicano Alejandro Gonz\u00e1lez-I\u00f1\u00e1rritu, com Sean Penn, Benicio Del Toro e Naomi Watts, que acompanha o destino de pessoas terminais na mais radical edi\u00e7\u00e3o de uma obra cinematogr\u00e1fica, que procura enterrar para sempre a narrativa linear e bem comportada. H\u00e1 outros, mas esses tr\u00eas definem um cinema de exterm\u00ednio, que n\u00e3o cuida s\u00f3 do passado (Polanski), ou da Am\u00e9rica (von Triers) ou da vida dos outros ( I\u00f1\u00e1rruti). Mas da armadilha da vida deste in\u00edcio de s\u00e9culo, em que as popula\u00e7\u00f5es s\u00e3o jogadas dentro de uma favela sob os ditames da lei do c\u00e3o e em que a \u00fanica resist\u00eancia \u00e9 a arte e a chance maior de sobreviv\u00eancia fica nas m\u00e3os do acaso.<\/p>\n<p>ACENO &#8211; N\u00e3o h\u00e1 pessimismo ou otimismo, apenas constata\u00e7\u00e3o feita com uma sobriedade que n\u00e3o passa para as festas de lan\u00e7amento. H\u00e1 duas realidades: a dos filmes e a dos eventos. A chuva de festivais e pr\u00eamios contrastam com o desespero evidente das obras, que acenam enlouquecidas para o p\u00fablico para chamar a aten\u00e7\u00e3o sobre o que se passa, mas esse gesto \u00e9 soterrado pelo que chamam de glamour (a mais execr\u00e1vel palavra desta d\u00e9cada). Os protagonistas morrem ou sobrevivem marcados pela barb\u00e1rie , que \u00e9 a vingan\u00e7a dos med\u00edocres contra a civiliza\u00e7\u00e3o pautada pela paz e o conflito ordenado pela lei. O ressentimento dos b\u00e1rbaros arrastam na lama ou fuzilam com um tiro na cabe\u00e7a, em s\u00e9rie, os pacatos cidad\u00e3os desarmados. Mas n\u00e3o h\u00e1 piedade no cinema de exterm\u00ednio.<\/p>\n<p>Polanski, que supera todas suas obras anteriores com O Pianista, denuncia a omiss\u00e3o dos poloneses diante do invasor, a divis\u00e3o interna nas comunidades e fam\u00edlias, que deixam a na\u00e7\u00e3o \u00e0 merc\u00ea da bandidagem, e a coniv\u00eancia dos conterr\u00e2neos que fazem o servi\u00e7o sujo da pol\u00edcia do gueto. Von Triers acusa a falsa apar\u00eancia da cidadezinha isolada e temente a Deus, colocando os seres humanos que nela sobrevivem como os carrascos de hoje e que manifestam sua ferocidade quando encontram uma chance. E I\u00f1h\u00e1rruti reporta a indiferen\u00e7a assassina dos moradores das metr\u00f3poles mergulhadas no caos. N\u00e3o h\u00e1 inocentes porque o Mal venceu gra\u00e7as \u00e0 passividade e ao p\u00e2nico da cidadania.<\/p>\n<p>ROSNAR &#8211; Esses cineastas mant\u00eam vivo o chamado cinema de autor, em plena hecatombe comercial hollywoodiana. S\u00e3o filmes que ficam cercados nos circuitos dos cinemas e agora dos dvds. N\u00e3o chegam \u00e0 TV aberta, tomada pela brutalidade audiovisual. Mas como n\u00e3o h\u00e1 inoc\u00eancia nos personagens, tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 entre os cineastas. Von Triers me invoca. Quer dizer que o Mal reside no ermo e o Bem vem de fora, de algu\u00e9m que precisa provar que existe humanidade nas pessoas? A outsider se decepciona com a rea\u00e7\u00e3o dos seus hospedeiros e vai at\u00e9 o osso da auto-puni\u00e7\u00e3o, deixando-se torturar por idosos, idiotas, brancos ou negros, mulheres e crian\u00e7as, camponeses ou aposentados.<\/p>\n<p>O intelectual da cidadezinha \u00e9 uma s\u00edntese do escritor fundador, como Mark Twain, que inventa a na\u00e7\u00e3o pela literatura, mas \u00e9 impotente (tamb\u00e9m por ser culpado) diante da crescente crueldade, que salta na tela depois de rosnar o filme todo. A vingan\u00e7a da forasteira \u00e9 desejada pelos espectadores do filme, pois essa \u00e9 a justi\u00e7a existente hoje, quando a Lei \u00e9 letra morta e as armas ditam comportamentos e destinos. O p\u00fablico j\u00e1 est\u00e1 domado no horror e Von Triers (talvez seja essa sua den\u00fancia) nos faz ver o quanto somos cru\u00e9is por torcer pelos g\u00e2ngsters contra a representa\u00e7\u00e3o de n\u00f3s mesmos, a popula\u00e7\u00e3o sem voz na m\u00e3os dos mais variados tipos de algozes.<\/p>\n<p>FOCO &#8211; Como em &#8220;Amores Perros&#8221;, I\u00f1\u00e1rr\u00fati coloca um ponto focal da narrativa, um acidente de carro. Tudo o mais gira aos peda\u00e7os, como um gigantesco quebra-cabe\u00e7as, onde as rela\u00e7\u00f5es humanas s\u00e3o ditadas pela car\u00eancia e o medo, e a morte \u00e9 a \u00fanica certeza. O cinema de exterm\u00ednio n\u00e3o nos mata, apenas nos diz que estamos agonizantes. Ou talvez estejamos j\u00e1 do Outro Lado, olhando catat\u00f4nicos o que fizemos da vida na terra.<\/p>\n<p>Mas nem tudo morre, porque h\u00e1 autoria e cinema de primeira grandeza. A arte sobrevive e retoma a pe\u00e7a musical interrompida pela guerra. O marido ag\u00f4nico e pai de fam\u00edlia volta para casa. A vi\u00fava espera um filho. E Dogville sucumbe para que voltemos \u00e0 lucidez perdida. Estamos vivos e esta \u00e9 a nossa \u00fanica chance. Ainda temos 21 gramas, o peso da alma, em nossas exist\u00eancias escassas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A reflex\u00e3o se atropela junto com as imagens de O pianista, de Roman Polanki, com Adrien Brody, que \u00e9 sobre invas\u00e3o e resist\u00eancia na Pol\u00f4nia, mais do que sobre judeus (n\u00e3o h\u00e1 Bar Mitzvah, nem sabat, nem rabinos nesta obra-prima que faz chorar as pedras); de Dogville, o celebrado cult com Nicole Kidman, de Lars von Triers, que descobre a crueldade na pacata cidade imagin\u00e1ria de portas invis\u00edveis do interior dos Estados Unidos; e 21 gramas, do mexicano Alejandro Gonz\u00e1lez-I\u00f1\u00e1rritu, com Sean Penn, Benicio Del Toro e Naomi Watts, que acompanha o destino de pessoas terminais na mais radical edi\u00e7\u00e3o de uma obra cinematogr\u00e1fica, que procura enterrar para sempre a narrativa linear e bem comportada.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1130"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1130"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1130\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1548,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1130\/revisions\/1548"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1130"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1130"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1130"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}