{"id":1131,"date":"2009-12-17T17:07:47","date_gmt":"2009-12-17T19:07:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1131"},"modified":"2009-12-20T22:54:30","modified_gmt":"2009-12-21T00:54:30","slug":"o-imperialismo-fiel","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-imperialismo-fiel","title":{"rendered":"O IMPERIALISMO FIEL"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Fico invocado com o filme &#8221; O Jardineiro Fiel&#8221;, projeto multimilion\u00e1rio baseado num thriller de John Le Carr\u00e9, que j\u00e1 tinha produtor e roteirista quando Fernando Meirelles foi convidado a dirigir. No making off, Le Carr\u00e9 fala que Meirelles trouxe a vis\u00e3o da cozinha, do terceiro mundo, para a hist\u00f3ria. Colocaram um dos nossos melhores cineastas lavando pratos. Meirelles diz que fez a hist\u00f3ria sob o ponto de vista do Qu\u00eania, o que n\u00e3o \u00e9 verdade, pois a megaprodu\u00e7\u00e3o deixa bem expl\u00edcita quem s\u00e3o os protagonistas (os branquelos em meio \u00e0 massa negra) e quem s\u00e3o os coadjuvantes (a massa negra). Outra coisa que me invocou foi como a grave den\u00fancia contra a ind\u00fastria farmac\u00eautica \u00e9 produzida com bufunfa pesada internacional, \u00e9 tratada como entertainement e tudo fica por isso mesmo.<\/p>\n<p>Descobri, sem ser convidado \u00e0 reflex\u00e3o (j\u00e1 que reflex\u00e3o n\u00e3o precisa de convite) que o filme faz parte do esfor\u00e7o do Primeiro Mundo em abra\u00e7ar o pol\u00edticamente correto (por uma quest\u00e3o de marketing, de conquista da opini\u00e3o p\u00fablica em pleno vendaval do Iraque), colocando no lixo os diplomados ultrapassados e as ind\u00fastrias mal sucedidas, as que n\u00e3o possuem cacife para concorrer com as grandes marcas mundiais do setor.<\/p>\n<p>Tudo isso n\u00e3o tira o m\u00e9rito do filme, que \u00e9 impressionante nas imagens, no ritmo, nas interpreta\u00e7\u00f5es e na viagem que faz \u00c1frica adentro, com um Ralph Fiennes que se desveste da pompa e se encharca de areia e luz. Essa desconstru\u00e7\u00e3o tem um motivo: Rachel Weisz, a combatente que vira pelo avesso a vida do bem comportado diplomata subalterno (ficar envolvido com o jardim confirma sua prefer\u00eancia de classe &#8211; ele se identifica com os trabalhadores bra\u00e7ais, por mais charme que exista na dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 terra e \u00e0s plantas).<\/p>\n<p>QUALIDADES &#8211; Meirelles \u00e9 do ramo. O uso que faz da webcan, da internet, dos arquivos digitais para compor sua narrativa \u00e9 de uma compet\u00eancia que emociona. Seu travelling na paisagem do Qu\u00eania, o encontro m\u00edtico entre o falso jornalista e o m\u00e9dico enterrado no ermo (um resgate do famoso encontro entre Stanley e Livingstone), o partido que toma a favor das crian\u00e7as (como aconteceu com Cidade de Deus) s\u00e3o qualidades do nosso cineasta maior que o cinema americano valoriza at\u00e9 o limite, pois sabem que um profissional desses n\u00e3o se encontra em qualquer canto do mundo. Ele destaca personagens negros, como o homossexual parceiro da esposa do diplomata, ou a mulher que morre devido aos testes de um rem\u00e9dio venenoso, ou mesmo a menina que decide sair do avi\u00e3o para que os outros se salvem, que nos tocam pela grandeza em meio \u00e0 mis\u00e9ria absoluta.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma postura falsa, comercial e talvez seja esse um dos motivos para trazer Meirelles ao primeiro n\u00edvel do cinema mundial: o de que ele n\u00e3o trairia seus princ\u00edpios ao filmar uma hist\u00f3ria de corrup\u00e7\u00e3o que denuncia a pata pesada do imperialismo. Mas como um camale\u00e3o, o poder das grandes pot\u00eancias usa de todos os truques para continuar em frente. Usa certamente este filme, mas n\u00e3o o desmoraliza, por mais contradit\u00f3rio que isso seja.<\/p>\n<p>DOCILIDADE &#8211; \u00c9 certo que a arte e a produ\u00e7\u00e3o intelectual s\u00e9rias no Primeiro Mundo n\u00e3o ficam a reboque diretamente ao Imp\u00e9rio. Existem gargalos fechados nesses vasos comunicantes, apesar do avan\u00e7o que a direita promoveu no cinema, principalmente depois dos atentados de 11 de setembro. Algo sobrevive e muita coisa pode sair dessa abertura. Mas precisamos ficar atentos \u00e0s armadilhas, sem querer dar uma de vestal ou de corre\u00e7\u00e3o acima de qualquer suspeita. \u00c9 direito nosso duvidar das boas inten\u00e7\u00f5es, n\u00e3o dos profissionais e artistas envolvidos, mas do sistema que torna vi\u00e1vel o filme.<\/p>\n<p>Notem que o alto comissariado brit\u00e2nico no Qu\u00eania apoiou e o governo local tamb\u00e9m deu for\u00e7a, j\u00e1 que as den\u00fancias se referiam ao governo anterior. Mas tudo isso pode ser encarado como uma forma de limpar a sujeira acumulada pelo imperialismo e torn\u00e1-lo mais d\u00f3cil, aparentemente, para a opini\u00e3o p\u00fablica mundial (j\u00e1 que existem diplomatas honestos e a nova rela\u00e7\u00e3o internacional entre as na\u00e7\u00f5es pode incorporar as den\u00fancias contra os abusos).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fernando Meirelles, diretor de &#8221; O Jardineiro Fiel&#8221;, \u00e9 do ramo. O uso que faz da webcan, da internet, dos arquivos digitais para compor sua narrativa \u00e9 de uma compet\u00eancia que emociona. Seu travelling na paisagem do Qu\u00eania, o encontro m\u00edtico entre o falso jornalista e o m\u00e9dico enterrado no ermo (um resgate do famoso encontro entre Stanley e Livingstone), o partido que toma a favor das crian\u00e7as (como aconteceu com Cidade de Deus) s\u00e3o qualidades do nosso cineasta maior que o cinema americano valoriza at\u00e9 o limite, pois sabem que um profissional desses n\u00e3o se encontra em qualquer canto do mundo.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1131"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1131"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1131\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1468,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1131\/revisions\/1468"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1131"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1131"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1131"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}