{"id":1133,"date":"2009-12-17T17:08:35","date_gmt":"2009-12-17T19:08:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/nave-de-outono"},"modified":"2009-12-21T01:00:23","modified_gmt":"2009-12-21T03:00:23","slug":"nave-de-outono","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/nave-de-outono","title":{"rendered":"NAVE DE OUTONO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Sempre espero que uma nave prateada surja por tr\u00e1s do morro e raspe o azul do c\u00e9u. Depois me dou conta que a nuvem branca \u00e9 a nave que aguardo. H\u00e1 o mist\u00e9rio de ser vista assim, majestosa como escultura a se desdobrar lentamente, sendo acompanhada por fiapos de algod\u00e3o, que d\u00e3o o tom deste outono claro e frio. O mist\u00e9rio est\u00e1 sobre nossas cabe\u00e7as e olhamos maio como um Deus em plena cria\u00e7\u00e3o. Esta parte do territ\u00f3rio tem a grandeza das esta\u00e7\u00f5es, ainda intactas, que mostram sua do\u00e7ura quando n\u00e3o h\u00e1 vento nem chuva. O tempo bom aclara o corpo e mant\u00e9m a esperan\u00e7a. Quando olhamos a terra de frente, sob o manto do sil\u00eancio, nos descolamos de todas as interven\u00e7\u00f5es. O que chamam natureza \u00e9 apenas a integridade do que somos. Por isso nos afastam dela, para que possamos ser manipulados num jogo mortal. Na rede estendida na varanda, sigo o dia em sua plenitude e avisto, quando as horas passam, no crep\u00fasculo, o sol a pintar de roxo o horizonte, enquanto a ab\u00f3boda que chama estrelas ainda invis\u00edveis parece uma superf\u00edcie lixada, areada, quase fosca. Aos poucos a lua cheia chega para iluminar a noite e noto que a felicidade \u00e9 estar envolto no cobertor salpicado de luzes vivas, que se anuncia pelo som dos \u00faltimos p\u00e1ssaros em dire\u00e7\u00e3o ao ninho.<\/p>\n<p>PASSO &#8211; N\u00e3o, meu amigo, n\u00e3o fazemos parte deste mundo. Basta cruzarmos o portal para ficarmos s\u00f3s. Para onde foram aquelas not\u00edcias ruins, as sirenes violentas, o matraquear ag\u00f4nico? Somos de outra t\u00eampera, n\u00f3s que nos aproximamos tanto do fosso feito para nos engolir. N\u00e3o, meu irm\u00e3o, n\u00e3o viemos da mesma inf\u00e2ncia. Somos opostos, embora a na\u00e7\u00e3o nos costure. Basta uma pequena distra\u00e7\u00e3o e eis que ficamos longe por mil anos. N\u00e3o minha m\u00e3e, n\u00e3o te conheci e de ti guardo minha presen\u00e7a, meu passo pesado t\u00e3o diverso do teu. Aquele teu passo mi\u00fado, longil\u00edneo, conduzido por um rosto pensativo, um vestido que descia at\u00e9 o sapato, o cabelo arrumado para o trabalho. Sim, minha m\u00e3e, sou o que ficou de ti e jamais te vi como deveria. Porque me contentei em ser sombra do mundo que teceste ao redor, como tua paci\u00eancia de vime, tua alegoria de sonho, teu pragmatismo r\u00f3seo, teu humor que afastava a tempestade. N\u00e3o, companheiros de estrada, n\u00e3o temos nada em comum. Basta um fim de semana para nos apartar do que fingimos ser durante a \u00e9poca que nos deram para viver. E n\u00e3o adianta escrever sobre o que n\u00e3o entendemos. Nada nos salvar\u00e1 do naufr\u00e1gio que \u00e9 a voragem do destino, a nos acenar de cima de uma nuvem tardia, a que n\u00e3o soube se recolher junto com o sol.<\/p>\n<p>MAPA &#8211; Para que serve a poesia se viver ficou imposs\u00edvel? Para que serve a certeza, se a presen\u00e7a mais s\u00f3lida se transmuta em algo et\u00e9reo, e vira lembran\u00e7a com a qual n\u00e3o sabemos lidar? As palavras est\u00e3o soltas neste mundo sem lei. Jamais saberemos do que estamos realmente falando. E quando partirmos, quem decifrar\u00e1 a passagem terrena de criaturas desatentas como n\u00f3s? Agora fa\u00e7a a mala, e consulte o mapa. Algo poder\u00e1 acontecer que nos tire deste limbo. Talvez uma not\u00edcia oculta, como v\u00e9sper, a estrela guia para onde navegaremos nossa ilus\u00e3o. Palmilho a falta que nos faz o abra\u00e7o, o entendimento m\u00ednimo e prevejo nova dispers\u00e3o. Por um momento acreditamos estar pr\u00f3ximos, mas nos vemos novamente no barco em alto mar, a olhar o c\u00e9u estendido como um press\u00e1gio. Quando anoitece em nossa nau \u00e0 deriva, os fantasmas nos visitam. Eles sussurram na correnteza uma can\u00e7\u00e3o do ex\u00edlio. Cantamos juntos, n\u00f3s que batizamos este barco com um nome qualquer e dependemos da sorte para que algu\u00e9m nos recolha.<\/p>\n<p>LEME &#8211; Mas basta uma lufada mais forte para mantermos o prumo. Apertamos o leme e vemos a imagem da nossa vida deslocada do mundo cada vez mais feroz. Sim, minha m\u00e3e, ainda navego. Teu filho procura a aurora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre espero que uma nave prateada surja por tr\u00e1s do morro e raspe o azul do c\u00e9u. Depois me dou conta que a nuvem branca \u00e9 a nave que aguardo. H\u00e1 o mist\u00e9rio de ser vista assim, majestosa como escultura a se desdobrar lentamente, sendo acompanhada por fiapos de algod\u00e3o, que d\u00e3o o tom deste outono claro e frio. O mist\u00e9rio est\u00e1 sobre nossas cabe\u00e7as e olhamos maio como um Deus em plena cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5,6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1133"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1133"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1133\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1549,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1133\/revisions\/1549"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1133"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1133"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1133"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}