{"id":1134,"date":"2009-12-17T17:09:28","date_gmt":"2009-12-17T19:09:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1134"},"modified":"2011-06-02T00:19:09","modified_gmt":"2011-06-02T03:19:09","slug":"sao-paulo-cidade-eterna","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/sao-paulo-cidade-eterna","title":{"rendered":"S\u00c3O PAULO, CIDADE ETERNA"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>O que fizeram com S\u00e3o Paulo, a cidade da a\u00e7\u00e3o e do destino, fizeram como o pa\u00eds. Sugaram ao m\u00e1ximo a for\u00e7a da grande cidade, a que nos criou para a vida adulta, porque nos colocou contra a parede e tamb\u00e9m abriu as janelas para podermos viver. D\u00e9cadas de indiferen\u00e7a e gan\u00e2ncia transformaram a capital num pesadelo. Lembro momentos terr\u00edveis que vivi ali. O s saques de 1982, o grande black-out de 1985, as enchentes que me cercaram e impediram de chegar em casa por mais de uma vez. Lembro os momentos grandiosos e assustadores como a gigantesca manifesta\u00e7\u00e3o da Pra\u00e7a da S\u00e9 em favor das Diretas-J\u00e1, em que me espremi pela multid\u00e3o achando que dela n\u00e3o sairia inteiro. Lembro o corpo de Ayrton Senna passando diante da popula\u00e7\u00e3o em prantos. Ou a celebra\u00e7\u00e3o de vit\u00f3ria de Lula no primeiro turno em 1989, na avenida Paulista, em que fui espectador mudo, pois sabia que ali o trabalhismo tinha perdido sua oportunidade hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>CORAGEM &#8211; Lembro, S\u00e3o Paulo, cada gota, cada passo, cada lufada de frio e calor que tuas ruas me proporcionaram em tr\u00eas d\u00e9cadas de conv\u00edvio contigo. Agora que est\u00e1s entregue \u00e0 sanha assassina de governantes e bandidos, te vejo assustada, em p\u00e2nico, tu que \u00e9s a coragem feito cidade, tu que me recebeste depois de tanto ex\u00edlio interno, quando cheguei a ti pensando em voltar logo. Mas me acolheste, S\u00e3o Paulo, me deste tudo o que tenho ou terei. Foi duro cruzar o tempo, passando pelo teu centro majestoso, tuas avenidas lotadas, tuas ruas incompreens\u00edveis, teus bairros ocultos ou expl\u00edcitos. Estive em cada peda\u00e7o de ch\u00e3o constru\u00eddo pelo Brasil em frangalhos. Vivi contigo o amor de um cidad\u00e3o pelo lugar que o adotou. E nem posso te agradecer, S\u00e3o Paulo, porque \u00e9s maior que todos n\u00f3s e temos contigo uma d\u00edvida impag\u00e1vel que s\u00f3 contra\u00edmos com nossos pais ou com os camaradas de guerra. N\u00e3o podemos te homenagear dizendo que te amamos, S\u00e3o Paulo, porque \u00e9s gigante para t\u00e3o pouco amor, o maior que podemos ter. N\u00e3o cabes em nosso cora\u00e7\u00e3o pequeno, cidade da minha vida. E agora que te enxergo longe como se nunca tivesse vivido a\u00ed sei o quanto d\u00f3i ser teu e n\u00e3o poder fazer nada. Porque te destru\u00edram, S\u00e3o Paulo e sobrevives porque \u00e9s eterna, como toda cidade verdadeira.<\/p>\n<p>SOLID\u00c3O &#8211; Nada seria se n\u00e3o tivesse contigo essa d\u00edvida, S\u00e3o Paulo. As pessoas que vieram de todo mundo e encontrei a\u00ed, nas tuas esquinas, restaurantes, pra\u00e7as, locais de trabalho. Elas me ensinaram tudo, eu que vim de longe, do deserto, das cidades fechadas e t\u00e3o famosas mas nenhuma como tu, que pulsa em cada rosto, em cada corpo, em cada id\u00e9ia. Apodreceram teus rios, pixaram tuas casas, incendiaram teus \u00f4nibus, mataram teus habitantes. O que mais querem de ti, S\u00e3o Paulo? Que continues dando o que eles adoram sugar, que continues atraindo a solid\u00e3o dos ermos de toda a na\u00e7\u00e3o perdida e transforme essa trag\u00e9dia numa edifica\u00e7\u00e3o, num concerto, numa revoada de fogos e p\u00e1ssaros? J\u00e1 deste tudo, S\u00e3o Paulo e agora restas a\u00ed, sobrevivente de ti mesmo, ainda viva, porque se o mar tamb\u00e9m morre, como queria Lorca, tu, cidade maior, ficar\u00e1s. Vais permanecer como no verso de Maiakovski, cruzando os s\u00e9culos como os aquedutos romanos. Porque este foi teu destino desde o in\u00edcio. Foste o o\u00e1sis dos desterrados das praias, foste o porto em cima da serra que inventou o pa\u00eds que n\u00e3o conhecia seu interior.<\/p>\n<p>PORTAL &#8211; \u00c9s a porta para o Brasil soberano, cidade dos meus sonhos. \u00c9s f\u00e1brica, ilus\u00e3o, corte marcial, v\u00f4o de luz. Quando te vi pela primeira vez era julho, S\u00e3o Paulo, e do Pacaembu at\u00e9 o Para\u00edso andei a p\u00e9 e vi tua cor, tua grandeza depositada em majestade. Quem viveu e vive contigo S\u00e3o Paulo, \u00e9 teu filho, que v\u00ea em ti o rega\u00e7o de um projeto ainda em andamento: o de sermos livres, porque nos ensinaste a liberdade, como um her\u00f3i que enfrenta os canh\u00f5es sem nenhuma l\u00e1grima, apenas com o sorriso dos que se v\u00eaem humanos, prec\u00e1rios, escassos. Mas por isso mesmo, donos dessa violenta paix\u00e3o por uma cidade que provou ser o Brasil capaz de gerar sua pr\u00f3pria transcend\u00eancia.<\/p>\n<p>MONUMENTO &#8211; Sou teu, S\u00e3o Paulo, e quando te ferem, sangro, quando te destroem, tombo, e quando te reconhecem, exulto. Quem hoje te mata passar\u00e1. E sobreviver\u00e1s a n\u00f3s, monumento do que somos de melhor, representa\u00e7\u00e3o de nossas vidas que encontraram em ti o caminho mais duro, e por isso mesmo, o mais belo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9s a porta para o Brasil soberano, cidade dos meus sonhos. \u00c9s f\u00e1brica, ilus\u00e3o, corte marcial, v\u00f4o de luz. Quando te vi pela primeira vez era julho, S\u00e3o Paulo, e do Pacaembu at\u00e9 o Para\u00edso andei a p\u00e9 e vi tua cor, tua grandeza depositada em majestade. Quem viveu e vive contigo S\u00e3o Paulo, \u00e9 teu filho, que v\u00ea em ti o rega\u00e7o de um projeto ainda em andamento: o de sermos livres, porque nos ensinaste a liberdade, como um her\u00f3i que enfrenta os canh\u00f5es sem nenhuma l\u00e1grima, apenas com o sorriso dos que se v\u00eaem humanos, prec\u00e1rios, escassos.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[14],"tags":[303],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1134"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1134"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1134\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2716,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1134\/revisions\/2716"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1134"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1134"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1134"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}