{"id":1136,"date":"2009-12-17T17:10:16","date_gmt":"2009-12-17T19:10:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1136"},"modified":"2009-12-20T22:49:28","modified_gmt":"2009-12-21T00:49:28","slug":"rito-de-passagem","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/rito-de-passagem","title":{"rendered":"RITO DE PASSAGEM"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Talvez n\u00e3o tenha sido o AI-5, decretado no ano anterior, mas o horror \u00e0s aulas de taquigrafia o motivo principal para eu abandonar as aulas do Curso de Jornalismo da Ufrgs. O tranco da nossa professora alem\u00e3 assombrava aquela mat\u00e9ria que substitu\u00eda os garranchos por hier\u00f3glifos, o que nos transformava em escravos eg\u00edpcios ou no m\u00e1ximo em secret\u00e1rias da ONU. J\u00e1 era o segundo ano que eu enfrentava o rigor de uma pr\u00e1tica cara \u00e0 segunda Guerra Mundial. Tinha certeza de que seria novamente reprovado por n\u00e3o saber que dois pontinhos ao lado do arabesco significavam &#8220;segundo o senhor presidente da Rep\u00fablica&#8221;.<\/p>\n<p>Por isso, escudado nas mais justas desculpas, como o fato (real) de que os melhores professores tinham sido expulsos e rest\u00e1vamos s\u00f3s depois da grande dispers\u00e3o e derrota, aceitei o convite absurdo de um grupo de desocupados como eu. Partimos numa viagem suicida cruzando o pampa, em dire\u00e7\u00e3o a um destino que decidimos ser Montevid\u00e9u, mas que apenas revelou a armadilha onde est\u00e1vamos metidos. Antes, precisava passar pela minha cidade e pegar uma declara\u00e7\u00e3o paterna, j\u00e1 que eu era dimenor (naquela \u00e9poca complet\u00e1vamos 80 anos sem atingir a maioridade; hoje \u00e9 diferente; com apenas um ano j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel zapear do programa da Xuxa para o notici\u00e1rio).<\/p>\n<p>O \u00e1libi era a viagem encarada como a verdadeira inicia\u00e7\u00e3o do jornalista. Nem precisava mais ir \u00e0s aulas que eu abandonara covardemente diante da perspectiva de me transformar no ghost-writer do Fara\u00f3. Mo\u00e7o, eu j\u00e1 esgrimia essa institui\u00e7\u00e3o nacional que \u00e9 a meia verdade. A viagem patrocinada pelo emprego, com tudo em cima, era diferente daquele ermo onde nos metemos. Simplesmente fomos para a estrada com quase nada no bolso. Eu nem levava caneta e papel, que dir\u00e1 gravador ou m\u00e1quina fotogr\u00e1fica. Simplesmente arrastei pela estrada as congas, cholitas, coturnos ou n\u00e3o lembro mais que tipo de pisante me acompanhou naquele del\u00edrio.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia era ir de carona, mas sabemos como aquele miolo do Rio Grande gosta de preservar as tradi\u00e7\u00f5es. \u00c9 poss\u00edvel encontrar at\u00e9 hoje o c\u00e9lebre slogan &#8220;aqui tem mumu&#8221;, e as cidades ao longo da carreteira ostentam ainda aquele ar blas\u00e9 de fog em meio \u00e0 madrugada, entrevisto na parada de uma intermin\u00e1vel viagem de trem rumo \u00e0 fronteira. N\u00e3o havia carona porque nenhum carro passava por ali. Precisei pegar alguns \u00f4nibus, j\u00e1 apartado do resto da turma, que fez sucesso em Santa Maria e resolvera ficar por l\u00e1. At\u00e9 hoje a estadia do grupo no cora\u00e7\u00e3o do estado ga\u00facho \u00e9 lembrada por uma frase dita para a massa de meninas deslumbradas e rapazes desconfiados que rodearam a troupe por mais de uma semana: desculpem n\u00e3o vomitar na cara de voc\u00eas! dita pelo mais radical dos artistas de rua. A transgress\u00e3o chegava ao solo sagrado da p\u00e1tria pampeana, impulsionada pela na\u00e7\u00e3o em sil\u00eancio e o raspar de sabres.<\/p>\n<p>Eu vagava s\u00f3 em meio aos quero-queros, preparando meu discurso para quando chegasse diante do \u00faltimo obst\u00e1culo: a licen\u00e7a para sumir do mapa. Ainda tinha esperan\u00e7a de reencontrar a turma j\u00e1 em Livramento, que, ao contr\u00e1rio de Uruguaiana, que guarda prudentes dois quil\u00f4metros de rio de dist\u00e2ncia, est\u00e1 abra\u00e7ada aos castelhanos como irm\u00e3 xip\u00f3faga. Eu j\u00e1 me sentia no Exterior, no momento em que atravessava a rua para mendigar um caf\u00e9. Faltava apenas esperar o circo chegar para ent\u00e3o inaugurarmos a nossa opera\u00e7\u00e3o Condor.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o podia gastar nada, j\u00e1 que a perspectiva era chegar at\u00e9 o Prata, fui dormir no lugar mais improv\u00e1vel para uma \u00e9poca hoje lembrada como de terror absoluto: a delegacia de pol\u00edcia. J\u00e1 tinha feito a experi\u00eancia meses antes, em viagens paralelas que prepararam esta que agora tomava todo o meu tempo. Conseguia um lugar fora da cela, mas minha mordomia acabou quando mudou o plant\u00e3o. O novo hospedeiro desconfiou do meu aspecto, e das mumunhas ditas em tom s\u00e9rio demais para algu\u00e9m que estava simplesmente matando aula. E me encaminhou para o quartel mais pr\u00f3ximo, onde eu deveria enfrentar o tem\u00edvel S-2.<\/p>\n<p>Por sorte o capit\u00e3o n\u00e3o estava e fui ent\u00e3o convidado a sair da cidade. Voc\u00ea vai hoje, se amanh\u00e3 te pegamos por aqui&#8230;E foi assim que juntei minha mochila e usei os \u00faltimos tost\u00f5es (amealhadas na r\u00e1pida estadia na casa paterna)para a volta. Era o fim da ilus\u00e3o de que eu poderia escapar de uma vida normal e viver um romance de aventuras. Quixote sem ter lido livros suficientes para alimentar a loucura, sa\u00ed de cena antes do primeiro moinho de vento. Trazia o ar atordoado de quem procurou algo imposs\u00edvel de achar, como o personagem de Paris, Texas, de Wim Wenders, mas sem a guitarra ao fundo. A solu\u00e7\u00e3o era ficar na fila de espera dos poucos jornais que de vez em quando abriam alguma vaga.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que precisavam de um escriba que n\u00e3o fechava os punhos em cima da mesa, com os bra\u00e7os estendidos, desapertava a gravata e olhava para o infinito como faziam os jornalistas bem postos? Ser\u00e1 que era poss\u00edvel confiar em algu\u00e9m que n\u00e3o andava apressadamente na reda\u00e7\u00e3o para sugerir dinamismo? Ou que n\u00e3o pedia o lanche logo que chegasse, sempre no final do expediente, s\u00f3 para impressionar o diretor (&#8220;veja, estou aqui desde cedo, nem tive tempo de al-mo-\u00e7ar&#8221;, diriam esses com a boca cheia de iogurte)? Ser\u00e1 que precisavam de um ex-viajante, que por pouco n\u00e3o dan\u00e7ou numa cela qualquer e foi salvo pela pr\u00f3pria falta de import\u00e2ncia no concerto internacional das na\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o precisavam. As empresas j\u00e1 estavam ocupadas pela carranca que acabou empurrando a nata da gera\u00e7\u00e3o para a imprensa alternativa. E quem tinha sido expulso do romantismo da primeira grande viagem e agora aportava nas reda\u00e7\u00f5es em p\u00e2nico, esse era o momento de iniciar uma longa jornada. Completamente inveross\u00edmil, como todas as outras. Porque tudo passou como se fosse apenas um instante, e nossa vida encontrou o caminho simplesmente fazendo as malas toda vez que o jornalismo nos pregava um novo susto.<\/p>\n<p>Por vingan\u00e7a, inventei minha pr\u00f3pria charada taquigr\u00e1fica. Os garranchos eram a forma de ocultar a identidade perdida na \u00e9poca em que cruzei o pampa. Era um c\u00f3digo, que nunca decifrei. Passo os olhos pelas folhas borradas de sinais e noto que a \u00fanica forma de salva\u00e7\u00e3o foi guardar tudo na mem\u00f3ria, n\u00e3o para usar no fechamento, mas para que o tempo me fizesse companhia, como um cavalo encilhado que jamais montamos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Talvez n\u00e3o tenha sido o AI-5, decretado no ano anterior, mas o horror \u00e0s aulas de taquigrafia o motivo principal para eu abandonar as aulas do Curso de Jornalismo da Ufrgs. O tranco da nossa professora alem\u00e3 assombrava aquela mat\u00e9ria que substitu\u00eda os garranchos por hier\u00f3glifos, o que nos transformava em escravos eg\u00edpcios ou no m\u00e1ximo em secret\u00e1rias da ONU. J\u00e1 era o segundo ano que eu enfrentava o rigor de uma pr\u00e1tica cara \u00e0 segunda Guerra Mundial. (Texto publicado dia 11\/maio\/2006 no espa\u00e7o Liter\u00e1rio do Comunique-se).<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[11],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1136"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1136"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1136\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1453,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1136\/revisions\/1453"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1136"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1136"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1136"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}