{"id":1138,"date":"2009-12-17T17:11:00","date_gmt":"2009-12-17T19:11:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1138"},"modified":"2009-12-20T21:32:04","modified_gmt":"2009-12-20T23:32:04","slug":"plantao-de-aeroporto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/plantao-de-aeroporto","title":{"rendered":"PLANT\u00c3O DE AEROPORTO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Lupic\u00ednio Rodrigues desce do avi\u00e3o e coloca o p\u00e9 no aeroporto, onde fa\u00e7o plant\u00e3o, depois de um dia pesado em que obedeci \u00e0s pautas de cidade, aquela famosa sucess\u00e3o de buracos de rua. Ele tem a cara redonda, covinhas no rosto quando sorri com a boca fina e o brilho no olhar. \u00c9 gentil e doce, e ao caminhar deixa a cabe\u00e7a pendendo levemente para o lado, como se estivesse ao sabor de algum vento.<br \/>\n&#8211; De onde voc\u00ea vem, Lupic\u00ednio?<br \/>\n&#8211; Fui gravar um disco para a Abril, em S\u00e3o Paulo.<br \/>\n&#8211; Tem alguma m\u00fasica in\u00e9dita?<br \/>\n&#8211; Tem. A guar\u00e2nia Judiaria.<br \/>\n&#8211; Canta para mim?<\/p>\n<p>E o foca dos focas, aquele que assume tarefas desprezadas pelos veteranos, enfrentando o rito de passagem que \u00e9 esperar personalidades em viagem, ouve, de viva voz, uma das can\u00e7\u00f5es do g\u00eanio, bem ao p\u00e9 do ouvido: &#8220;Agora voc\u00ea vai ouvir aquilo que merece\/ As coisas ficam muito boas quando a gente esquece\/ Mas acontece que eu n\u00e3o esqueci a sua covardia, a sua ingratid\u00e3o\/ A judiaria que voc\u00ea um dia fez pro coitadinho do meu cora\u00e7\u00e3o&#8221;. O verso final sa\u00eda com aquele jeito rasgado dele. Sussurrado em meio \u00e0 balb\u00fardia, era o maior dos privil\u00e9gios, nesta profiss\u00e3o insuport\u00e1vel, mas que n\u00e3o tem outra igual.<br \/>\n&#8211; E agora, Lupic\u00ednio, qual o pr\u00f3ximo passo?<br \/>\n&#8211; Aqui em Porto Alegre \u00e9 s\u00f3 trabalhar.<br \/>\nE seu olhar se perde. Lembro que o tinha visto antes por duas vezes. Primeiro, num elevador no centro da cidade, onde ele envergava uma cal\u00e7a apertada, um sapato branco sem meia e uma camiseta listrada. J\u00e1 est\u00e1vamos nos 60, mas ele era um recado dos anos 40. Depois, numa madrugada, junto com um grupo de universit\u00e1rios, fui conhecer o Clube dos Cozinheiros, onde Lupic\u00ednio apresentou, todo encapotado (era inverno) alguns dos seus cl\u00e1ssicos imortais.<\/p>\n<p>Mas o plant\u00e3o do aeroporto tamb\u00e9m podia ser perigoso, como no dia em que o local estava coalhado de pessoas fardadas. Deveria ser algu\u00e9m importante, deduzi, num racioc\u00ednio r\u00e1pido como a luz. N\u00e3o tive d\u00favidas. Cheguei para o primeiro sentinela (ah, a juventude) e lasquei:<br \/>\n&#8211; Quem est\u00e1 sendo esperado?<br \/>\nImediatamente fui cercado por homens de sobretudo e terno, de cabelo de corte escovinha (s\u00f3 o tampo a cabe\u00e7a tinha uma pequena relva), olhos azuis faiscantes de \u00f3dio e desconfian\u00e7a. Fui levado a um reservado onde tentaram arrancar a confiss\u00e3o daquele terrorista. Eu n\u00e3o atinava com o problema. Estava vestido de maneira normal: cabelo comprido despenteado, casaco de brim tingido de preto, presente de um cunhado capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito, cal\u00e7a verde desbotada de veludo, feito sob medida a partir de um cotel\u00ea importado da Argentina, que usava no inverno e no ver\u00e3o, botas de borracha que iam at\u00e9 o joelho, j\u00e1 que eu n\u00e3o dispunha de nenhum outro tipo de cal\u00e7ado. Qual o problema, qual a estranheza? Estava apenas fazendo o meu trabalho!<\/p>\n<p>Toda aquela vestimenta me dava um peso extra no corpo que deveria pesar uns 30 quilos na \u00e9poca. O vento poderia me carregar, por isso talvez usasse tantas \u00e2ncoras. Os meganhas n\u00e3o acreditaram na minha hist\u00f3ria. Como poderia, com aquela apar\u00eancia execr\u00e1vel, ser rep\u00f3rter da Folha da Tarde, da Caldas Junior, a mais importante empresa de jornalismo do Rio Grande do Sul? Onde estava meu comprovante? Minha carteira profissional? Minha identifica\u00e7\u00e3o como jornalista?<br \/>\nEu n\u00e3o tinha. Acabara de ser selecionado para a vaga e estava completamente desprevenido. O fot\u00f3grafo que me acompanhava ficou branco de susto, mas telefonou para a reda\u00e7\u00e3o, e o equ\u00edvoco foi desfeito. Ca\u00ed fora de fininho e jamais soube quem deveria chegar naquele dia.<\/p>\n<p>Plant\u00e3o era obriga\u00e7\u00e3o de foca. O encargo era repassado no final do expediente, depois de uma tarde de c\u00e3o. A tortura come\u00e7ava a uma hora da tarde, quando o chefe de reportagem chegava para distribuir as tarefas. Para todos dizia sua m\u00e1xima:<br \/>\n&#8211; Vai l\u00e1 ver o que tem e o que n\u00e3o tem.<br \/>\nAs ordens eram incompreens\u00edveis. Um dia fiz uma pergunta t\u00e3o absurda para uma fonte que ele me pediu a pauta, que estava escrita num pedacinho de papel, datilografada. Ele desenrolou o papel que eu tinha amassado no fundo do bolso, leu e entendeu. A\u00ed me deu a entrevista. Depois de desovar a produ\u00e7\u00e3o di\u00e1ria, tinha o plus, que era cercar passageiros, um expediente que se estendia at\u00e9 tarde da noite. Os veteranos, espertos, diziam que o plant\u00e3o de aeroporto era uma aula de jornalismo, que aprender\u00edamos tudo ali: dar um furo, conhecer pessoalmente as personalidades. Ficavam na reda\u00e7\u00e3o, e ainda tiravam sarro no dia seguinte dos contratempos dos focas.<\/p>\n<p>O aeroporto era o olho da imprensa, que precisava saber o movimento das fontes mais importantes. Pouco se tirava de l\u00e1, a n\u00e3o ser algumas frases esparsas, uma plantadinha de notas, um futuro governador ainda desconhecido (j\u00e1 que eram nomeados e n\u00e3o precisavam de exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica para assumir o posto). As viagens eram mais raras, n\u00e3o \u00e9 como hoje que toda celebridade trafega pelo ar a todo momento. Imagino como seria redundante ficar num plant\u00e3o aeroporto, ainda mais nesta \u00e9poca de conex\u00e3o total, em que d\u00e1 para cobrir o fim do mundo s\u00f3 com a ajuda do mouse.<\/p>\n<p>O jornalismo feito a martelo exigia esfor\u00e7o de estiva. A informa\u00e7\u00e3o era rara e n\u00e3o estava sobrando como hoje, em que podemos acompanhar a intimidade dos astros como se estiv\u00e9ssemos aboletados na sala de visitas, ou descobrir o que fazem pessoas importantes quando acham que ningu\u00e9m est\u00e1 olhando. Havia uma pele p\u00fablica sobre a escassez humana. A viagem de avi\u00e3o tinha certa solenidade, especialmente para o rep\u00f3rter iniciante, que jamais sa\u00edra de seu torr\u00e3o. Mas n\u00e3o se esperava muito do plant\u00e3o. As melhores coisas n\u00e3o poderiam ser ditas. Como &#8220;entregar&#8221; o esfor\u00e7o de determinado deputado federal em inocular informa\u00e7\u00f5es que beneficiassem sua candidatura a ministro de Estado?<\/p>\n<p>J\u00e1 est\u00e1vamos escaldados pelo AI-5. O governo era ileg\u00edtimo. Os cargos eram ocupados todos pela direita. N\u00e3o era poss\u00edvel fazer perguntas simples como: quem vai chegar hoje? N\u00e3o se podia tratar uma sentinela de tch\u00ea-loco. Eles saltavam. Queriam pegar na jugular do foca despreparado, de aspecto rude e roqueiro num mundo de gravatas, quepes e sapatos com brilho. Hoje todos se vestem como presidi\u00e1rios. Macac\u00f5es, camisetas, abrigos, t\u00eanis. Continuam todos iguais, nesta sucess\u00e3o de personalidades enigm\u00e1ticas, que vistas de perto perdem todo o encanto que a m\u00eddia tenta lhes dar. \u00c9 imposs\u00edvel v\u00ea-las com uma certa emo\u00e7\u00e3o e solenidade, como v\u00edamos os lideres antes de 1964, quando a imagem era formatada pelo r\u00e1dio, imaginada por emiss\u00e3o da voz e vestida de mitos que se foram.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 bom que todo esse carisma se perca. Pelo menos n\u00e3o poderemos cair no erro que cometi quando vi Oito e Meio, de Fellini, pela primeira vez. Cheio de fuma\u00e7as intelectuais, eu observava o longo travelling do in\u00edcio do filme, aquele em que as pessoas cumprimentam a c\u00e2mara bebendo algo desconhecido e que tem por desfecho a apari\u00e7\u00e3o de Claudia Cardinale, mais bonita do que um anjo. Eu estava no cinema de Uruguaiana ao lado do meu colega de aula Rubens Lenar G\u00fcez. De repente, no meio do travelling, ele me perguntou:<br \/>\n&#8211; Sabes o \u00e9 que isso?<br \/>\nRespirei fundo e defini:<br \/>\n&#8211; A humanidade em desfile!<br \/>\n&#8211; N\u00e3o, disse o bom Rubens. \u00c9 uma fonte de \u00e1gua mineral.<br \/>\nTinha matado a charada. Enquanto eu me esfor\u00e7ava em ver algo mais do que simplesmente uma cena humana, ele decifrava o mist\u00e9rio apenas com a melhor qualidade de um rep\u00f3rter: a observa\u00e7\u00e3o pura e simples, sem ilus\u00f5es, tambores ou clarins. Era um sinal de como dever\u00edamos nos comportar a partir daquela data: enxergando no anonimato da massa em tr\u00e2nsito aquilo que se destaca como fato. A apar\u00eancia singular da not\u00edcia depende da voca\u00e7\u00e3o do jornalista que assume a profiss\u00e3o para o resto da vida, mesmo que o prendam pela falta de preparo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O jornalismo feito a martelo exigia esfor\u00e7o de estiva. A informa\u00e7\u00e3o era rara e n\u00e3o estava sobrando como hoje, em que podemos acompanhar a intimidade dos astros como se estiv\u00e9ssemos aboletados na sala de visitas, ou descobrir o que fazem pessoas importantes quando acham que ningu\u00e9m est\u00e1 olhando. Havia uma pele p\u00fablica sobre a escassez humana. A viagem de avi\u00e3o tinha certa solenidade, especialmente para o rep\u00f3rter iniciante, que jamais sa\u00edra de seu torr\u00e3o. (Texto publicado dia 4\/05\/06 no espa\u00e7o Liter\u00e1rio do Comunique-se).<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[11],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1138"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1138"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1138\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1434,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1138\/revisions\/1434"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1138"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1138"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1138"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}